sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo Vida Nova



Está a acabar o 2011.
Por todos os lados se vêem "balanços", avaliações, análises.
E vemos também votos, como de costume.
Infelizmente não me consigo recordar de nenhum onde se comece logo com a perspectiva de que o Ano Novo será pior do que o Velho... que já foi mau! Os votos que tenho ouvido e de que também participo, são sistematicamente de «BOM ANO NOVO», coff...coff...queremos nós dizer: «UM-ANO-O-MELHOR-POSSÍVEL»
Cada um de nós faz a sua avaliação deste que está a acabar e imagina como irá passar o que chega.
Afinal mais um ritual entre muitos. Desde que se nasce (enfim, quero eu dizer desde que se faz um ano de vida :D ) que todos os dias 'acaba-um-ano-e-começa-outro' não é? Está sempre a ser fim-de-ano... Digo isto para recordar o conselho de se viver um dia de cada vez, que me parece ser a melhor maneira de encarar este ano ameaçador que aí vem.


Aliás, só é fim-de-ano aqui no ocidente, lá para leste ainda esperam o novo ano lunar. Vem a 22 de Janeiro e é o Ano do Dragão - o meu ano, porque sou Dragão!!!
Prefiro esperar por 22 de Janeiro.
O Dragão, apesar de mitológico é um bicho de força e potente. Vai poder exorcizar estas sombras com que nos debatemos por agora.
Tem de ser, temos de acreditar que vão soprar bons ventos de mudança.
É por isso que deixo aqui os meus votos de:



BOM ANO NOVO

(BOA) VIDA NOVA PARA TODOS

Pé-de-Cereja

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sou antipática ... A doença infantil da net



Há uma fase por que todos muita gente passa [refiro-me a gente lá não muito nova, claro!] quando começa a entender o que é esta coisa de emails, links, youtube, facebook, etc e tal: o belo e inocente desejo de partilhar tão formidável descoberta! Basta um clic do rato para o fazer!
Falando por mim, recordo um período onde também quando recebia em fw fosse o que fosse de imediato o reenviava para a minha ainda pequena lista de mailling, toda contente.
Acho que caí em mim certa vez em que o meu filhote, seguidor do modelo, recebeu de volta um mail de alguém, irritado, a dizer que parasse com aquilo porque os ficheiros que enviava eram enormes e bloqueavam-lhe o correio - a caixa dessa pessoa era das pequenas claro.... Ups! Enfiei também a carapuça e passei a ver quantas imagens tinha cada mensagem, e até se eram assim tão interessantes como isso. E, a verdade é que 80% passaram a ir logo para o lixo. Actualmente reenvio uma ou outra que me pareça particularmente interessante e nunca o faço para toda a gente, é para aquele ou aquela que eu pense poder gostar dessa mensagem em concreto.
Mesmo assim ainda tenho duas amigas que continuam a enviar-me toneladas de fw, muitas vezes velhos e ressequidos, que já conheço há 10 anos, tão pesados que muitas vezes ao ver que têm cento e tal imagens os apago sem ver mais nada! Não me atrevo a dizer que não os mandem (a não ser que passem por aqui e enfiem a carapuça...) por alguma cortesia mas o certo é que muitas vezes nem os abro. E, claro, são pessoas muito verdes nestas áreas.
Agora, desde há uns tempos tenho observado que algo semelhante se passa no «google +». Aderi a esse esquema que me põe em contacto com muita gente, e não tenho grandes queixas. Mas...
Também encontro por lá pessoas que adicionei «porque sim», convidaram-me e aceitei, e agora tenho de vez em quando uma chuva de mensagens mais ou menos absurdas. Ontem reparei que alguém me  deixou lá no google + 33 (trinta e três!) entradas com temas tão interessantes como "Propriedades da Carqueja", ou "Biopesticidas na sua horta" ou "Eglise des Thessaloniciens" de que parece ser devota. Bem, como também não sabia bem como é que eu a tinha deixado entrar, (era uma senhora) decidi bloqueá-la. Se ela me levar a mal não me ralo nada que nem sei quem é....
O engraçado é que me parece que o modelo é o mesmo. Ingenuidade e alguma ignorância de como funciona esta coisa das relações virtuais.
A doença infantil, sim.
Cura-se com o tempo.




Pé-de-Cereja

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Casa onde não há pão

Ontem, ainda quase não me tinha levantado, recebo um telefonema de uma amiga muitos assustada. «-Como estás? - perguntou cortesmente; e de imediato: - Já ouviste a Lei das Rendas?»
Eu tinha ouvido qualquer coisa na véspera e nesse dia de manhã, mas ainda não estava bem informada. Ela que, como eu, tem uma renda 'antiga', estava em pânico. Uma actualização pura e dura, de repente, era o caos! Vou-me informar melhor e vejo que nem inquilinos nem senhorios estão felizes.



Senhorios: Sabemos ser verdade - existem senhorios que, apesar de possuidores de prédios, vivem muito pior do que os seus inquilinos. Prédios que foram herdados já habitados por inquilinos que pagam rendas de 20 ou 30 euros (ou até menos ainda....) não são nenhuma fonte de rendimento, pelo contrário. Tenho amigos e amigas nessas condições, onde é impossível fazer as obras necessárias e para pagar os impostos é uma dificuldade. E, ainda por cima, como é evidente, são prédios velhos que precisam de facto de ser conservados... Mas a proposta de lei é que os inquilinos façam uma proposta de renda e se os senhorios não concordarem com ela podem despejar os inquilinos desde que lhe paguem 60 meses da renda (+ ou - uns 5 anos) o que os senhorios acham uma exorbitância. Mas, a verdade é que se as rendas forem minúsculas, um ano corresponde aí a um mês da renda nova. Vale a pena para os senhorios.
Inquilinos: Mesmo os que são da classe média (cada vez menos «média») têm o seu orçamento organizado para a renda que estão a pagar. Um aumento relativo, uns-tantos-por-cento, será possível mesmo que calhe muito mal, mas uma «renda actual» é IMPOSSÍVEL! Corresponde a perder de um mês para o outro metade do ordenado ou quase!!!
Mas, como sabemos, nos últimos anos foi muito incentivada a compra de casa para habitação. Isto é uma bola de neve.... As rendas antigas estavam congeladas de forma que os senhorios pediam rendas bem altas para não ficarem «presos» a uma renda pequena em que não podiam mexer. Ora assim as rendas novas eram tão altas que mais valia pagar pela mesma quantia um empréstimo bancário. Quem queria uma casa nos últimos 10 ou 20 anos, quase sempre procurava comprar, portanto esta nova lei talvez não apanhe tanta gente como seria o caso em que o arrendamento fosse normal. Mesmo assim, as pessoas que arrendaram a casa «no antigamente» ainda são imensas e pelo que entendi estão em pânico.
Enfim, vamos ver o que vai de facto ser aprovado e como se pode regular esta coisa.
Mas já dá para entender que ninguém está satisfeito.




Pé-de-Cereja

sábado, 24 de dezembro de 2011

Véspera de Natal

(se clicarem em cima da árvore as luzinhas brilham)

BOM NATAL!!!!
Tempos bons, tempos maus, tempos assim-assim, seja como for é Natal e ninguém fica indiferente.
O certo é que o Natal é antes de mais um estado de espírito, um modo de sentir. E, sentindo-me integrada no sentimento da maioria de nós (em Portugal e não só) de preocupação e tristeza pelas restrições que andamos a sofrer, acho que apesar disso o espírito do Natal não é afectado porque é mais um Estar do que um Ter.
Haverá menos presentes comprados em lojas este ano, mas talvez isso tenha a vantagem de nos fazer reflectir sobre o consumismo que nos atacou com tanta força quando as vacas eram gordas.
Vamos estar juntos na mesma.
Vamos ajudar na cozinha, pôr a mesa, decorar a casa, decorar as travessas.
Vamos sentar-nos à mesa à frente dos pratos tradicionais, com um vestido bonito seja novo ou não que isso não é o importante, e brincar, rir, acarinhar as crianças, sentirmo-nos em paz.
Eu tenho como feitio ser previdente, portanto há semanas que os embrulhos de Natal esperam debaixo do Pinheiro. Também em cima da bancada da cozinha se perfila tudo o que é necessário para o jantar. Ups! falta o limão para tirar a casca para o leite-creme... Vou num minuto à mercearia em frente e já está!
Tudo em ordem.

BOM NATAL A TODOS!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

trabalhadores contra trabalhadores

Eu já nem esperava solidariedade.
É uma palavra comprida, difícil de soletrar. O tipo de palavra que é complicado encaixar-se como 'palavra de ordem' numa manifestação, tem sílabas a mais, não é incisiva. Contudo o conceito em si é bom e generoso. Ser solidário é partilhar com os outros as suas dificuldades quando precisam.
Pronto, mas em períodos maus já sabemos que é cada um por si. Tirando a solidariedade quando há recolhas do Banco Alimentar que é uma generosidade surpreendente mas agradável de confirmar sempre que há uma recolha dessas, o certo é que as pessoas muitas vezes olham para o lado quando se lhes pede ajuda. * São uns instintos... menos bons, digamos assim.
Mas choca-me, choca-me imenso, ver a velocidade com que a desinformação circula. Sobretudo quando se trata de bater na função pública se um diz mata o outro diz logo esfola, esta é uma moda antiga e que cada vez está mais viva. Vemos que é já, infelizmente, muito frequente cada profissão considerar que ela é que trabalha e os outros andam para aí a vadiar, sem fazer nenhum e a ganhar balúrdios. Os outros. (?) Mas quando se fala em Função Pública investem como um touro perante um capote vermelho.
Ontem foi notícia a proposta de se diminuir 3 dias de férias. As cabeças iluminadas que nos governam consideram que assim se vai aumentar imenso a produtividade do país sem mais investimentos, uma receita miraculosa. Ainda não vi uma só proposta de se aumentar a produção sem ser à custa dos trabalhadores. [Aliás estou à espera que o passo a seguir seja tirar a manhã de sábado - e hão-de vir logo dizer que «dantes não havia descanso ao sábado de manhã», já se sabe...]  Ora, nas caixas de comentários dos jornais (que estou sempre a decidir deixar de ler e depois esqueço-me desta sábia decisão...) encontrei diversos Bravos!!! com considerações curiosas: parece que esses sornas da função pública têm 42 ou 45 (li as duas versões) dias de férias.
Ena!
E eu que andei enganada tantos anos. Quarenta e cinco dias...? Que colega é que terá gozado as minhas férias em vez de mim...?
Mesmo com a bonificação por ter completado 60 anos, o trabalhador terá de facto mais 3 dias - mas tem de ter 60 anos, não se esqueçam! - e parece-me que ainda bem longe desses 45. Deve ter sido um acordo colectivo de trabalho que eu não tive conhecimento.
Pois, mas a verdade é que isso é citado como um facto.

E mais nada!
.................
É complicado, não é? Casa onde não há pão...

* (generalizei, tá visto que é um exagero),,



Pé-de-Cereja

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Umas estranhas Boas Festas

A gente sabe que os tempos andam maus.
Muito maus.
Assustadores e não me refiro a quem se assusta facilmente, assustam mesmo os mais resistentes a alarmismos.
Por outro lado há um tipo de Boas Festas adocicadas, com muitas florinhas, anjinhos, cenas românticas, cores suaves, que são muito enjoativas, reconheço.
Mas....
Já repararam no anúncio da programação actual do AXN? Não sei se chama «separador», creio que sim. Reparem nele. Enfim, a música pode ser é um tanto natalícia, embora o refrão do «tum, tuum, tuuuuum» tenha uma pancada forte demais para a suavidade do Natal.
Mas as imagens...?!!
Bombas?
Granadas?
Tiros?
Ao som de cada «tuum» da música vê-se uma imagem a explodir.
Impressiona-me, reconheço.
Não sou particularmente dolicodoce em relação às imagens natalícias, mas aquelas chocam-me.

Porque não simplesmente estas mais antigas, que deixo aqui em baixo:
(não encontrei o tal separador a que me refiro; deve ser ainda muito recente e não descobri o vídeo correspondente)
Mas este é simples, sem explosões.
Sem nada a rebentar.
Não tem o Pai Natal nem o Menino Jesus, mas não há nada a explodir, é simples.
Mais natalício pacífico...
É que bem precisamos de um pouco de paz.




Pé-de-Cereja

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Taxas "moderadoras"

Quando se fala em «taxas moderadoras» está implícito que é na saúde. 
(antes de vir escrever este post fui googlar a expressão obtive 1.300.000 resultados e, apesar de não os ver todos, pesquisei muitas páginas sem ver qualquer referência a uma 'taxa moderadora' aplicada a outra coisa - a saúde é que convém moderar)
Um dos malefícios do excesso de séries norte-americanas que a nossa tv transmite é o começarmos a aceitar com naturalidade o modelo de saúde existente por lá. Saem frequentemente do nosso pequeno ecrã situações de famílias desesperadas porque o seguro que tinham não cobria aquela doença da mãe, ou do filho, ou do irmão... Vemos médicos consternados a explicar às família que não podem salvar doentes porque o seguro não cobre aquela doença. Ou então porque são pobres e nem seguro têm. Uma série chamada em português Jogo de Audazes é baseada exactamente nesta ideia: «um homem trabalhava para uma companhia de seguros que recusou pagar um tratamento para o seu filho que por isso morreu» . Ele então decidiu então «roubar os ladrões».
E assim vamos, paulatinamente, aceitando que é normal não se ser tratado quando não se tem dinheiro.
Nós por cá nunca tivemos essa experiência, de um modo tão radical. E com a criação do SNS qualquer cidadão tinha acesso à saúde, e até saúde de qualidade - quem desejasse um atendimento mais rápido ou mais atencioso tinha o privado que sempre existiu. Há 20 anos Cavaco Silva lembrou-se de criar as «taxas moderadoras». O termo sempre me incomodou. Se procurarmos a definição de moderar, lemos que é «conter-se, não se deixar levar pelas próprias paixões ou apetites» Ah, sim? Então convém não nos deixarmos levar pela paixão e apetite de ter saúde?... De facto, olhem que ideia essa heim?! Essas hordas esfomeadas a exigirem saúde têm de ter tento, calma aí, nada de exageros. Moderem-se, que diabo!
E, agora, descobriu-se que o Ministério da Saúde deve imenso dinheiro, não por má gestão decerto, coitados,  mas porque os gulosos dos utentes exageraram nas consultas a que recorriam (quando não sabiam como passar o tempo iam a uma consulta ao hospital só para ver se estavam bem ). Portanto, vamos mas é aumentar o preço dessas consultas para ver se conseguimos mais algum direirito e já agora abrir caminho aos doentes para o universo dos seguros de saúde, que o senhor ministro conhece tão bem.
Num artigo de opinião o José Manuel Pureza diz que ouviu em tempo a frase "Melhor negócio que a saúde só mesmo a indústria de armamento!"
Mas os clientes de metralhadoras e bombas não estão a ser moderados.
A moderação exige-se a quem sofre e está aflito.
Assim vai o nosso Natal, assim se apresenta o ano que aí vem.




Pé-de-cereja

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Oh canervos!!!

Há o «atendimento personalizado» decerto que para o diferenciar do «atendimento despersonalizado». O modelo mais irritante do atendimento despersonalizado é aquele que recebemos quando queremos falar ao telefone com uma empresa e vamos dar a uma infindável escolha de hipóteses de acordo com os 9 algarismos do nosso telefone. Eu odeio o sistema e por acaso nem conheço ninguém que goste...
O pior é quando as hipóteses não abrangem o que desejamos.
Ontem aconteceu-me um azar por distracção minha. Fui ao IKEA fazer umas compras que fui depositar no carro estacionado no seu parque subterrâneo. Mas depois ainda lá voltei, porque queria confirmar umas indicações, comer qualquer coisa lá no snack e, já que estava lá, aproveitar para comprar outras coisas que tinham ficado debaixo de olho e podiam esgotar. Quando voltei de novo para o carro não encontro a chave!!!
Um drama pequeno drama! Esvazio completamente a carteira, e nada. Conclusão - fechei a porcaria do carro com a chave lá dentro! Volto a empurrar o carrinho para dentro da loja, deposito as compras num cacifo, e procuro um táxi que me leve a casa para trazer a segunda chave. Imagine-se a fúria com que estava, o tempo e dinheiro que perdi porque ainda moro bastante longe.
Infelizmente hoje, depois de vasculhar o carro de uma ponta à outra, não encontrei a chave. Conclusão, perdi-a lá. Foi o tempo entre ter aberto a porta a primeira vez e não a conseguir abrir uns tempos depois.
Bem, já disse ali atrás que moro longe, ou seja a solução mais fácil seria telefonar para saber se a chave foi encontrada. Mas aí começa a saga:
Quando se liga temos de escolher um algarismo - 1, 2, 3, 4, etc -  para saber para que loja queremos falar.
Escolhida a loja, vamos ouvir outra série de algarismos, para saberem se a questão é sobre uma compra, ou o crédito, ou o prazo de validade, ou... etc, etc, etc (nem fixei)
Como uma das hipóteses é «outra», escolho essa que me remete para mais uma outra série de algarismos.
Mas, claro está, a hipótese «outra resposta» ainda é vaga, portanto abre de novo o leque de mais 10 algarismos.
Depois de ter conseguido acertar no algarismo que (julgo eu) me permite falar com um assistente, recomeça a dança para saber se a questão é sobre um produto que não está em condições, se quero um reembolso, se preciso de ajuda técnica, se... mais X escolhas.
Eu, nesta altura já marco as teclas um tanto ao acaso, porque ao chegar à 7ª hipótese já nem me lembro do que era a 2ª e só me apetece atirar com o telefone.
.........
Entretanto paro para respirar, e fico a reflectir - a pergunta «apareceu aí ontem uma chave?» não entra em parte nenhuma. Isso não está previsto. O mais certo é que, quando finalmente ouvir uma voz humana, seja informada de que não fazem as mais pálida ideia dessa situação.
Pronto. Desisto. Amanhã vou lá pessoalmente a ver se encontro uma pessoa e não uma máquina.
GRRRR!!!



Pé-de-Cereja

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

«Faça o mal quem o fizer quem tem culpa é a minha mulher»

«Faça o mal quem o fizer quem tem culpa é a minha mulher» era uma expressão (provérbio?) que se dizia quando eu era pequena, há muito tempo já que a não oiço.
Ora bem, o Seguro morreu de velho, mas as nossas Seguradoras devem morrer de obesidade.
Claro está que têm de pagar alguns prejuízos de vez em quando, mas todos sabemos que os segurados quando têm o atrevimento de reclamar a indemnização de um dano para o qual pagaram prémios que nunca são muito leves, vêm tão agravado o seu seguro que muitas vezes preferem pagar o prejuízo e não comunicar à Seguradora...
Ora bem. Parece que as estatísticas dizem que as mulheres «têm seis vezes menos acidentes que os homens». Isso dizem as estatísticas, não são as descaradas das feministas. E, com base nisso, como o risco é menor muitas seguradoras cobram prémios mais pequenos. É a mesma lógica que faz que os jovens paguem prémios mais altos mas não sei se a «descriminação em função da idade» também vai desaparecer. Devia ser, não?
Fiquei aborrecida quando li, é claro. Eu não sou jovem e sou mulher - para além de não ter acidentes há séculos!!! - portanto sou ‘bonificada’. Espero bem que não me retirem o bónus por não ter acidentes...
Mas o que me levou a escrever este post foram os «comentários» que encontrei no final deste artigo. Impressionante. É evidente que cada pessoa generaliza a partir daquilo que conhece e vê. E é quase um lugar comum a convicção de que as mulheres conduzem pior do que os homens. Até há umas dezenas de anos isso talvez acontecesse sobretudo porque conduziam menos e assim tinham muito menos prática e no caso da condução o treino e a prática são factores importantes. Mas, sinceramente, hoje em dia que há tantas mulheres ao volante como homens parece-me que conduzem tão bem ou tão mal uns como os outros.
Contudo, o que as estatísticas dizem, ou diziam, é que as condutoras têm menos acidentes. E isso é que está em causa. Guiem mal ou bem, eles têm muito mais acidentes e pronto. Nos comentários que me chocaram, para além da ideia feita de que as mulheres têm piores reflexos (ai é?!) com tudo o que isso implica, ressalta a convicção de que não têm acidentes... mas os provocam. Uma praga!
É interessante. As mulheres (generalizando, o que detesto, mas é o que dizem lá) são
a) mais cautelosas a entrar num cruzamento, - lá dizem ‘lentas’ o que é visão depreciativa do mesmo facto
b) travam ao ver um obstáculo, e pelos vistos isso é mau porque o homem que vem atrás e se gaba de ter tão bons reflexos, não consegue travar também e vai-lhe bater
c) são indecisas na condução e isso baralha os outros condutores
Ou seja, o que lá afirmam é que a má condução feminina vai fazer com que os bons condutores masculinos tenham acidentes. A culpa afinal é delas! Se «eles» têm mais acidentes não tem nada a ver com conduzirem com excesso de álcool, serem mais imprevidentes, acelerarem em excesso, não cumprirem o código. Não senhor, afinal a culpa disso é porque «elas» têm maus reflexos e são lentas.
Dá que pensar, não é?

Pé-de-Cereja

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ainda ando por cá!



A minha relação com este blog parece ser muito semelhante à que se tem numa relação de amizade. Creio não ser só eu que quando estreito os laços de amizade com alguém e a encontro muitas vezes tenho sempre coisas novas a contar e a ouvir. Tudo, o fait-divers mais corriqueiro é tema de conversa e de troca de opiniões. Aliás esta relação nota-se bem na adolescência, recordo que depois de tardes passadas com uma grande amiga ao chegar a casa corria para o telefone porque entretanto me tinha lembrado de mais uma coisa importantíssima para lhe contar.
Mas, quando nos afastamos um pouco, essas conversas passam a ter outro peso e de nos vemos de mês a mês só falamos de «coisas importantes» o que reduz radicalmente os temas.
E, claro está, também a ‘culpa’ também pode ser o facto de entretanto começarmos a ter um relacionamento com outro amigo... Essas conversas-sem-importância passam então a ser com ele.
.................
Digo isto porque reparei que deixei o Cerejas abandonado há mais de 8 dias. (Ups! afinal foi quase há 15 dias!!!) Coitadinho.
É a tal coisa. Dantes achava que «tudo-dava-um-post» como eu dizia. E era mesmo. O mais pequeno acontecimento me sugeria um comentário, uma observação, uma nota. Durante anos escrevia 3 ou 4 posts por dia e tinha de me refrear porque como dizia o António Silva quando ligava o botão abria o editor de mensagens isto era uma torneira a deitar água! :)  Era a época da tal amizade de adolescente. Bom...
Claro que quando me atraso um pouco a bola de neve começa a crescer. E, como no exemplo, as coisas mais corriqueiras parece não serem dignas de serem aqui abordadas, só temas sérios. Fica tudo baralhado, então!
E, ainda por cima, apareceu outro amigo com quem converso todos os dias, o facebook. Os comentários curtinhos ficam para lá o que reforça este 'abandono'.
Mas não pode ser. O Cerejas é o meu amor mais antigo, herdeiro de outros blogs a quem dediquei muito tempo a me deram muito prazer. Não o posso abandonar!
Está decidido.
Vou voltar com muito mais assiduidade.
Atélogo.







Pé-de-Cereja

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Livros (importantes)

Passear na net é um desporto que pratico irregularmente. De vez em quando dá-me um amok e passo umas horas saltando de link em link (como o tal elefante de nenúfer em nenúfar...) e descobrindo coisas novas. Sobretudo o twitter a que aderi há uns tempo e pratico quase que só como bisbilhoteira, sem participar lá muito, vai-me dando imensas sugestões.
Ontem encontrei num blog de um amigo virtual que conheço através de outro amigo virtual que conheço através de outro amigo virtual – e fico por aqui para resumir a história – uma rubrica muito interessante.
Chama a atenção, não é?
Adivinhamos logo que não é o que parece. O verdadeiro livro que-não-se-devia-ter-lido simplesmente esquece-se, ou deixa-se a meio. Aquele que por qualquer forma nos incomoda, deve ser lido. Mesmo que seja para o contradizer.
Evidentemente que o que o autor quer dizer é que se trata de livros que não esquecemos, que nos marcaram de qualquer modo, que até influenciaram a nossa vida.
E é muito interessante a lista que por lá aparece, de Musil a Kafka, de Shakespeare a Virgílio Ferreira, livros que vão das Mil e uma Noites ao Principezinho. E, sobretudo o interessante é que se fala não apenas do romance em si mas da forma como o leitor «encontrou» o livro e o efeito que lhe causou.
Gostei muito da ideia.
E inevitavelmente que começo a pensar nos «meus livros». É interessante reparar como ao longo da vida tantos houve que foram muito importantes mas depois se desvaneceram... Sorrio ao pensar que talvez o mais importante ( e aquele que devia mesmo ter lido!!!) foi o primeiro de todos. O primeiro livro que li sozinha, chamava-se «A burrinha toleirona» da colecção Joaninha, uns livros pequeninos de uns 10 centímetros de altura. Na adolescência adorei um romance que as raparigas da minha época liam, «O Romance de Isabel». Ao entrar na faculdade Sartre e sobretudo Simone de Beauvoir e Os mandarins que (creio) decidiram a minha escolha profissional.
De facto os livros que não devia ter lido, que em grande parte alteraram a minha vida, são vários. E ainda os que gostei simplesmente porque gostei. Porque estão bem escritos. Porque o tema é importante. Porque as emoções que descrevem são as que também sinto. Porque são um desafio à imaginação. Porque os li no momento certo.
Porque... porque... porque...
Eu sei lá porque é que se gosta de um livro. Nem sei também porque os guardo religiosamente cobrindo as paredes até ao tecto e enchendo-se de pó. Mas é o meu passado, e quem deita fóra o passado?...





Cereja-com-pé

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

No lugar do outro

Havia uma historiazinha que ouvi contar quando era pequena e a que sempre achei graça por ser muito clara. Tratava-se de dois irmãos que andavam à bulha, ciumentos, queixando-se de que ao dividir um doce cada um deles se sentia prejudicado em benefício do irmão. O pai, zangado, tomou uma decisão um tanto 'salomónica' - a partir daí, um deles ficava com a faca para cortar o bolo e o outro escolhia primeiro o bocado que queria... Imagina-se que dali em diante os bocados eram o mais iguais que era possível.
Esta história ingénua ocorre-me muitas vezes quando vejo a dificuldade que existe em nos conseguirmos colocar no lugar do outro, em imaginar que a vida dê uma cambalhota e haja uma alteração de papeis. Claro que é preciso imaginação em certos casos, mas não muita.
Impacientes na bicha de um supermercado e a achar que a menina da caixa é uma atarantada e não despacha o serviço. E, se por um truque de magia, aparecêssemos sentados atrás de um tapete cheio de produtos, a deslizar rapidamente, e a olhar para uma colecção de clientes mal-encarados e cheios de pressa?... Ah, que nervos. Ou, a nossa chefe mudou a hora de uma reunião o que nos faz diferença e consideramos isso uma prepotência e ela uma bruxa malvada. Se, magicamente, mudássemos de lugar, talvez olhássemos para a sua nossa agenda vendo que as pessoas que coordenávamos (nós afinal) se tinham atrasado a fornecer uns dados indispensáveis. Que raiva, a reunião vai ter de ser mais tarde!
Onde essa troca de papeis é mais evidente e devia ser mais fácil até, é em certas decisões políticas. Como se sabe o regime democrático ensina-nos que o poder é transitório. Quem o assume é porque recebeu mais votos, mas nada diz (até pelo contrário) que da próxima vez não seja o seu adversário a ganhar e quem tem o poder no momento não se veja relegado para a oposição dentro de algum tempo. Ou seja, teria toda a vantagem em cortar o bolo direitinho como o irmão da história.
O parlamento madeirense tomou uma decisão assombrosa do ponto de vista democrático: um deputado vai poder votar por outros e assim assegura que «nunca tem surpresas» como ingenuamente foi explicado.
É evidente que esta esperteza saloia teve repercussões. Anda por aí um burburinho incrível e se calhar ainda é pouco. Mas o que me faz pensar é que estes senhores inventaram esta espantosa ideia sem lhes passar pela cabeça que afinal esta sua maioria de 2 votos pode passar para outras mãos... e aí bem podem espernear e fazer uma grande birra, mas «a outra maioria» que não a deles pode ficar com uma arma na mão.
É anti-democrático? Ah pois é!




Pé-de-Cereja

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ri que logo choras

A Espanha foi a votos.
Sem qualquer surpresa ganhou «a oposição ao governo que lá estava». As coisas andavam mal, portanto tem de se mudar. Faz sentido. Os países que têm estado debaixo do fogo dos «mercados» têm mudado de chefes de governo com eleições ou sem elas (como foi na Itália onde aquele desgraçado devia ter saído há muito mas não para obedecer às 'troikas') É um desabafo que a democracia tem, estes 'portaram-se mal, que venham outros' como já se vislumbra até em França onde o Sarkozy estaria agora periclitante se houvesse eleições.
Portanto os espanhóis votaram, e elegeram o PP para conduzir o país.
Coitadinhos.
............................
É que a gente conhece o filme.
Imagina-se que se está a escolher o mal menor. Claro que nestes casos não há mal menor, e muitas vezes salta-se da frigideira para o lume.
Uma imagem que recordo por vezes é a de uma mulher festejando, radiante, nas nossas últimas eleições a vitória de Passos Coelho. Agitava uma bandeira e toda ela era riso. O repórter apresentou-lhe o microfone e quis saber o que pensava ela daquele resultado e a resposta foi dada num tom de voz eufórico «Agora sim! O meu filho já não precisa de emigrar!!!» Imagino a sua expressão quatro meses mais tarde, quando um próprio membro do governo sugere como uma boa escolha a imigração...
Quem não tinha ilusões, também sofre é evidente.
Mas quem espera que a mudança seja para melhor, sofre duplamente. Pela realidade e pela desilusão.
Coitadinhos dos espanhóis.
do Kaos


Pé-de-Cereja

domingo, 20 de novembro de 2011

Salvem-me das tecnologias!!!

Uma história:
Eu tinha um relógio eléctrico na mesinha de cabeceira.
Já tinha uns anitos. Bom, quero dizer, já tinha mui-tos anos. Muitos, muitos. Um dinossauro dos relógios. Mas funcionava bem e dava-me segurança - durante a noite ao virar-me na cama, mesmo abrindo só um olho, via logo as horas e, tranquilamente, sabendo que ainda faltava bastante para ser manhã, continuava a dormir.
Bom. Tadinho, a semana passada deu-lhe o tranglomango e exalou o seu último suspiro. De velhice, creio eu. Nem pensei que valesse a pena arranjá-lo, se é que aquilo tem tinha arranjo...
Pronto. Tinha a ideia que era um electrodoméstico (?) barato e pus-me em campo para comprar outro. Primeira surpresa, afinal já não é tão barato como aquilo que eu recordava. Houve «a» crise, a subida do iva, e mais isto e mais aquilo e, resumindo, custam mais três vezes do que imaginava. Mas, adiante. Lá fui comprar um, bem bonito, que me seduziu também porque quando o vi na prateleira da loja reparei que a hora se via também projectada no tecto. Prático. Nem precisava de me virar na cama para saber as horas, só abrir meio olho e olhar para cima...
Chego casa, coloco-o na mesa de cabeceira, ligo à corrente e, animada, preparo-me para acertar as horas. Ná! Isso era dantes, agora é tudo automático, há um um sensor (não sei se é assim que se chama) e temos de esperar que esse sensor encontre 'um sinal' dizem que de Grennwich  e depois desata sozinho a procurar a hora certa. Parece que tem vida própria. Ui, que susto. Até me afasto um pouco para o deixar à vontade! Mas não lhe devo ter explicado bem que estava em Portugal e a hora que ele escolheu não era exactamente a hora de Lisboa. Não servia. Só que sua excelência o não-me-toques não aceitava ser accionado à mão. Foi uma luta terrível e acabou por ficar um tanto às 3 pancadas. E ainda por cima, a tal projecção no tecto só consegui que aparecesse se lhe desse uma palmadinha no cucuruto e, claro, para isso tinha de estar acordada. Uma frustração.
No dia seguinte voltei ao lugar da compra. Contei as minhas dificuldades a um vendedor que atenciosamente me explicou os passos necessários (e complicados, continuo a achar) ao bom funcionamento, mas acrescentou que eu tinha um mês para o devolver se o não quisesse. Oooooh! Tinha-me esquecido dessa hipótese.
É que foi logo! De imediato. Saí de lá com o modelo mais simples que encontrei. E, aqui para nós, ainda é demasiado sofisticado, tem várias funcionalidades que não me servem para nada.
Ando cheia de saudades do tal dinossauro que simplesmente marcava as horas e despertava quando eu mandava. Sniff...




O futuro?... Ai, ai, ai!

Pé-de-Cereja

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Quando algo corre bem....

Um 'blog' é um diário. Um diário da web, online, mas a base disto é mesmo um diário onde falamos escrevemos sobre o que nos interessa e vier à cabeça. De modo que, como hoje dormi bem e acordei bem disposta por um incidente minúsculo, insignificante e pessoal mas que me soube bem, só me apetece falar sobre isso, partilhar como se diz actualmente. A vida - e então nos dias de hoje!... - anda a correr-nos um tanto mal. Mas, de vez em quando, alguma coisa corre bem. Quando isso acontece sentimos que uma luzinha se acende dentro de nós!
Eu, pelo menos numa coisa, tive sorte na vida: tenho uma profissão de que gosto. É claro que nem sempre me deixa feliz e contente, tenho muitas vezes dias onde não me apetece começar a trabalhar, alguns momentos para esquecer, casos que correm mal, muitas batalhas que perdi. Muitíssimas até, e algumas de que ainda hoje me lembro com amargura. Mas, de um modo geral, o balanço é positivo e creio que se na palma da minha mão para além das linhas da Vida, da Cabeça e do Coração (penso que é assim, não é?) existisse também uma linha do Trabalho ou Profissão ela devia ser vincada.



Comecei a escrever este post porque recebi ontem, ao fim do dia, um telefonema. Era da família de uma menina que me tinha pedido ajuda profissional, a dar notícias. Nem sempre há essa delicadeza, coisa eu não estranho, mas é bom quando tenho feedback do que se passa, é claro. Desta vez recebi um telefonema bastante alegre e que me deixou também muito contente. É impressionante como por vezes uma intervenção relativamente pequena pode funcionar tão bem.
Não, não preciso nem tem interesse explicar o que se passou. Era uma pedrinha, digamos que quase um grão de areia, que consegui retirar de uma máquina que parecia avariada (lá voltamos de novo às máquinas!....) Pa-re-cia. Mas funcionava lindamente! Removendo essa pedrinha, há uma menina mais contente, uma mãe aliviada, uma família mais feliz.
Pudesse tudo ser tão fácil como a remoção daquela pedrinha! 
Não deixo de sorrir, hoje.



Pé-de-Cereja

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Gente e robots

Quando eu era jovenzinha adorava ler ficção científica. 
Tinha toda a colecção argonauta, desde o primeiro volume! Aliás em ficção científica (e não só) sempre preferi ler a ver as mesmas histórias em cinema. Não sei porquê, o futuro em cinema é sempre escuro e deprimente. Em romances não, conheço alguns bem optimistas, onde se fala de sociedades, distantes é claro, quer no espaço quer no tempo, onde a vida é mais justa e mais fácil. Tão bom.
É, aliás, muito interessante ler algumas histórias escritas nos anos 50 ou 60 em que o futuro é muuuito distante, lá para o remoto ano 2.000 ou 2001, onde a vida é tão diferente e pode ser tão boa. Não se imaginou nada do que se passa hoje, mas fantasiou-se outras coisas muito interessantes.
E muitas vezes são histórias com robots, é claro. Não esquecer os robots.
Ora  estes pensamentos estas recordações vieram porque vou sentindo cada vez mais que os seres humanos estão a ser substituídos por robots. Não, não, claro que não são robots em forma de gente, são 'apenas' máquinas, mas vem dar ao mesmo. Quando eu era mais nova ao comprar o que precisava para o dia a dia, ia à mercearia, ao lugar de hortaliça, ao talho. Conversava com quem estava ao balcão que me pesava um quilo de arroz, ia buscar um molho de agriões, ou cortava 4 costeletas. Faziam as contas num papelinho, muitas vezes com a prova dos nove ao lado, recebiam o dinheiro, davam o troco. Havia calor humano, mesmo que demorasse algum tempo a ser atendida. Anos depois abriu um super (hiper?) mercado e era muito engraçado, íamos buscar às prateleiras aquilo que se queria, já pesado e embrulhado, e pagava-se tudo no final à pessoa que estava sentada à caixa registadora. Atendia-se muito mais gente em menos tempo e apenas com um empregado. Achei prático e até gostei.
Quando comecei a trabalhar, uma vez por mês ia ao meu serviço um senhor com uma pasta e muitos envelopes e pagava-nos o ordenado. Eu pegava naquele envelope e ia a correr ao banco depositar o dinheiro. Uns anos depois pediram-me o número da contra e passei a ter o dinheiro lá depositado no dia do pagamento. Muito bom, mais seguro e prático. Gostei.
Para comprar gasolina para o carro, ia até a uma bomba e o senhor que lá estava tratava desse fornecimento, mexia lá numas torneiras, metia a gasolina no depósito e nós pagávamos-lhe. Uns anos mais tarde aprendi, e afinal era fácil, pegar na mangueira indicada e vigiar os litros que iam entrando, depois era só ir à caixa pagar. 
Quando precisava de almoçar fóra de casa sentava-me a uma mesa, o empregado mostrava o menu, escolhia, traziam-me o prato, comia, pagava e saía. Tempos mais tarde apareceram uns locais onde só se precisava de pegar num tabuleiro, seguir junto a um balcão e tirar os pratos que se quisesse e no final pagar na caixa. Mais rápido e prático.
O gás, água, electricidade, vinha todos os meses um empregado à nossa casa que contava o que se tinha gasto e recebia o que devíamos do mês anterior. Perca de tempo. É claro que a contagem podemos fazê-la nós e o pagamento pode ser electrónico, ou até automático.
Tudo isto se foi dando quase sem se dar conta, com pezinhos de lã...  Mas foi crescendo e alastrando. No supermercado, os artigos que ainda têm de ser pesados, já se podem pesar nas caixas. Ou, melhor ainda, nalguns deles somos nós, os compradores que fazemos tudo: pomos no saco, pesamos, colamos a etiqueta com o preço, e vamos pagar à caixa, e temos até já a variante de ser o consumidor que passa o códigos de barras no leitor, espera pelo total, faz o pagamento na máquina e vai-se embora... Que tal? Mais uma vez, prático.
.......................
A verdade é que com este 'truque', fazer com que sejam os consumidores a trabalhar para si próprios, consegue-se maior rapidez sem dúvida, e... poupa-se imenso nos salários! Deixou de haver atendimento por seres humanos, servimo-nos a nós mesmos e a relação que temos é apenas com máquinas que não adoecem, não têm emoções, não têm problemas familiares. Se há algum engano a culpa é nossa, não é? as máquinas não se enganam.
É um clássico afinal - os robots ou os humanos manipuladores, vão expulsando para a marginalidade do desemprego os humanos excedentários.
Nesses romances que eu lia costumava haver um herói.
Onde está? 



Pé-de-Cereja

domingo, 13 de novembro de 2011

Sangue do meu sangue

Fui ontem ao cinema com alguma urgência. Receava que o filme saísse do cartaz, uma vez que já só vai num cinema de Lisboa - «Sangue do meu sangue». Esperava ver um bom filme, pesado. Assisti a um excelente filme e um drama talvez menos pesado do que era o meu receio, uma vez que a parte mais dramática era indispensável nesta história.
Um filme sobre o amor, e sobre mulheres. Mulheres que ali têm uma força, uma coragem, uma iniciativa, uma capacidade de trabalho, que me deixa orgulhosa de pertencer ao mesmo género. A vida tão dura mas a que se resiste de uma forma exemplar, vivida num bairro social meio degradado. A promiscuidade a que não se pode fugir pela pequenez das casas de paredes finas, que nos é dada pela banda sonora onde há permanentemente um som de conversas muitas vezes tão alto que o que se conversa no quarto ao lado se ouve melhor do que aquilo que se está a dizer à nossa frente. Esse som permanente, seja da tv a relatar futebol ou noticiário, seja dos vizinhos a berrar uma discussão, seja de crianças a chorar, seja os sons de quem está a fazer amor tão perto que parece estar em cima de nós… Esse é dos efeitos melhor conseguidos, o ruído constante e permanente que tudo invade, que tudo domina.
E, também é claro os espaços de habitação pequeníssimos e superlotados, que levam a que a noção de privacidade (?) seja um luxo impensável.
Mas as mulheres são as grandes estrelas do ‘sangue do meu sangue’
A estrela principal, a mãe. Mãe solteira ainda jovem que aos 42 anos tem uma filha de 21 e um filho de 18. Que criou e educou sozinha. Sabe que o filho não se comporta bem, já esteve ‘num colégio’ por furto mas desconhece que agora se move nas areias movediças da venda de droga. Contudo, mulher inteligente que é, decerto só desconhece porque nem quer encarar essa hipótese que a sua meia irmã, tia do rapaz sabe muito bem. A filha, em quem a mãe deposita muita esperança, é enfermeira e está a estudar. Tem um namorado, vigilante num supermercado que quer casar com ela.
A tia ainda muito nova, cabeleireira, vivendo e trabalhando no mesmo espaço minúsculo, ajudou-a a criar os filhos e mantém uma relação de grande protecção com o rapaz, que tenta auxiliar nos graves sarilhos onde se mete. Ajuda essa que vai até aos últimos limites.
A filha, 21 anos, relativamente independente, deixa-se encantar por um professor, médico, que a seduz com alguma facilidade pois o contraste de linguagem e comportamento é grande em relação ao seu namorado, o vigilante do supermercado.
Estas 3 mulheres, dominam todo o filme. A intensidade do seu amor - pelos filhos, pelo sobrinho, pelo sedutor, é perturbante e dominadora.
Como vi a versão maior, penso que na outra talvez tenham cortado algumas cenas de sexo, para mim excessivas porque não acrescentam nada à história. Assim como também achei demais (mas isso pode ter a ver com o meu feitio e o tipo de educação que tive) o excesso de palavrões, era rara a frase trocada sem um ou dois palavrões…
Mas a avaliação geral é muito elevada.
O realismo muito forte das imagens, a banda sonora que tudo invade e é fundamental, o ritmo especial que nos deixa imaginar que foi filmado em tempo real, a solidão de algumas imagens nocturnas, tornam «O sangue do meu sangue» um filme muito bom em qualquer parte.



Pé-de-Cereja

sábado, 12 de novembro de 2011

Cultura e Filas de espera

Quando muita gente espera por alguma coisa manda a educação que se forme uma fila (*)
Onde se vê isso com mais frequência é nas paragens do autocarro, mas a cortesia ensina que se deve fazer sempre que há várias pessoas à espera e não existam senhas de chegada.
Como moro para esses lados, passei ontem mais uma vez em frente do edifício da Segurança Social no Areeiro. E, também mais uma vez, reparei um pouco distraidamente no enorme comprimento da fila de espera que quase chegava ao Largo do Areeiro, de manhãzinha ainda as portas não tinham sido abertas.
É um espectáculo habitual.
Mas desta vez senti um clic porque de imediato associei a que ainda há uns 15 dias atrás tinha passado por umas outras filas tão grandes ou ainda maiores. Tão grandes, é verdade, que apesar do interesse que eu sentia por entrar nos locais a que essas filas davam acesso desisti sempre porque o tempo que eu tinha era bem curto e assim preferi ver outras coisas que se podiam ver sem ter de esperar.
Refiro-me a uma pequena viagem que fiz a Paris, e as filas a que me refiro eram para entrar em museus, em monumentos, em exposições.
O contraste das duas imagens que sobrepus arrepiava. De um lado a espera alegre para o acesso à cultura, do outro a espera angustiada para ser atendido pela Segurança Social... E o que me deixou a pensar ainda mais no caminho que precisamos de percorrer foi que, mesmo no tempo das vacas 'menos-magras', nunca observei uma grande fila para entrar num museu ou numa exposição. Talvez em concertos de algumas bandas famosas... ou desafios de futebol... e pouco mais. Nem entendo porque é que o Secretário de Estado da Cultura vai cortar com as entradas grátis ao Domingo, assim como assim eles têm tão poucos visitantes, não é com essa mesquinha economia poupança que vai endireitar o orçamento.
[«endireitar» ? ]






*(refiro aqui sempre a palavra fila para uma coisa que 'no meu tempo' se designava em linguagem mais coloquial como 'bicha'; desde alguns anos, por influência do brasileiro creio, esse termo passou a ter exclusivamente outro sentido e passou a chamar-se sempre fila quando nos queremos referir a uma fileira de pessoas umas atrás das outras....)


Pé-de-Cereja

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11-11-11




Muito bem.
Capicua?
Palíndromo? (tchi, que palavra difícil...)
Bolas, às 11 da manhã estava muito entretida a fazer outra coisa e nem dei por esse momento místico passar.
E o coitadinho do  bebé que nasceu às 11 horas e 11 minutos?! Quando ele  fizer 11 anos é que vai ser uma festa


Huummm... Afinal é 11 do 11 de 2011, vem aqui o 2 estragar a simetria, isto não é nada é perfeito.

Assim não brinco!

Pé-de-Cereja

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O óbvio

Sondagens.
Como todos estamos fartinhos de saber, as sondagens servem para muito pouco, para além de dar trabalho a muita gente. Ou dizem uma coisa ao contrário do que nós pensamos (e acha-se logo que foram mal feitas) ou dizem aquilo que também pensamos, e encolhemos os ombros pensando «pois claro!»
Li há momentos mais uma que nos diz uma 'grande novidade': os portugueses mudam os seus hábitos de vida.
Era preciso uma sondagem?
Como é que não se há-de mudar os hábitos de vida? O que me admira nesta sondagem e lança alguma dúvida sobre a quem é que foi aplicada (classe média/alta?) foram as respostas sobre o que é que vamos cortar: os cinco pontos que são focados são coisas que foram cortadas há bastante tempo. Isto, falando por mim, que há uns tempos estaria na classe 'média/média' :) e já reduzi drasticamente, há bastante algum tempo, todos os itens que ali focam - refeições fóra, divertimentos, vestuário e carro.
Porque aquilo é o óbvio, o que entra pelos olhos dentro. Até me atrevia a dizer que aquilo é em certa medida o supérfluo. É desagradável prescindir, tira-nos qualidade de vida, mas consegue-se viver sem isso - sobretudo se soubéssemos que este furo mais apertado no cinto era para toda a gente, que é o que não sucede e daí a indignação...
Não são esses cortes que me preocupam.
Preocupa-me sim, adiar a visita semestral ao dentista e decidir que só lá vou quando me doer um dente.
Preocupa-me perante uma receita de medicamentos, pensar que alguns «podem esperar» e pedir para aviarem só os indispensáveis.
Preocupa-me ter de reduzir (por enquanto é reduzir) as horas da mulher-a-dias, sabendo bem a falta que lhe vai fazer o dinheiro que lhe pagava.
Preocupa-me ter um electrodoméstico avariado e pensar «deixa lá, não faz assim muita falta» em vez de o mandar arranjar, pelo sentimento de degradação que perante isso eu sinto.
Preocupa-me sobretudo, muito, muitíssimo, o pensar no meu filho e seus amigos sem trabalho, sem estabilidade, sem futuro.
Nesta sondagem mais de metade dos inquiridos falam em imigrar. Muito bem. E... para onde? África??? Brasil???
Parece-me que essa é a questão.




Pé-de-Cereja

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O presente no passado

Há uns cinquenta anos fiz uma viagem que ainda brilha na minha memória: fui a Paris com o meu pai. Foram uns dias gloriosos. Já estive em vários países da Europa, já estive noutros em África, já estive em mais alguns no Oriente. Mesmo Paris, conheço razoavelmente de várias viagens e uma estadia prolongada de meses. Mas o que mais me marcou foi essa maravilhosa primeira semana em Paris com o meu pai.
Na penúltima semana de Outubro o ciclo fechou-se - voltei lá, desta vez com o meu filho!
Não tinha voltado há mais de 30 anos, e tinha sido repetidamente avisada «vais estranhar muito, está tudo diferente do que era». Bem, nós vemos as coisas com os olhos mas decerto que também com o coração, ou com as emoções. A atitude com que lá cheguei era muito semelhante àquela com que desembarquei noutros tempos, de braço dado com o meu pai - a convicção de que ia ser muito bom.
E foi maravilhoso.
Reencontrei todas as minhas melhores memórias: o céu azul transparente, um cheiro especial, a beleza do Sena, as ruas, as esplanadas, os bouquinistes, as escadinhas, os velhos prédios dos séculos passados com as suas mansardas e multiplas chaminés, os eternos monumentos tão belos como sempre... Surpresa agradável - os parisienses que eu recordava arrogantes, frios, distantes, respondendo com enfado, estavam normalíssimos e simpáticos até!!! Milagre.
Claro que não vou contar aqui no Cerejas a viagem - quem conhece a cidade não precisa disso, e quem ainda não conhece terá relatos melhores. Falo apenas de emoção. Reencontrar os lugares, as pontes, as ruas, os jardins, os bancos, o entardecer, o sol a bater na água do Sena, o céu dos dias de Outono, o perfume do ar...
Tal como da primeira vez, esta vai ser uma recordação que brilha dentro de mim como um sol.

Há 50 anos o meu pai....

O seu neto quase no mesmo sítio

Pé-de-Cereja

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poupar?.....


Dia da Poupança.
Diz o dicionário que poupar é «Gastar com moderação» ou «Não desperdiçar» mas é evidente que qualquer dos conceitos parte da base de que se possui aquilo que não se vai desperdiçar.
"Se não têm pão, que comam brioches" respondeu Marie Antoinette, numa frase célebre. Hoje, em Portugal, ouvindo alguns conselhos de uns senhores importantes, parece-me ouvir uma adaptação como se respondessem  «não comam brioches, comam pão» a quem se queixa de que já tem pouco pão, ou mesmo nenhum. Uma estranha surdez. Aconselham a não se gastar aquilo que já não se pode gastar porque não se tem!
Vi ontem num jornal na net, uma reportagem que me chamou muito a atenção.
Como podem reparar à pergunta «onde é que poupa?» os inquiridos, um tanto atrapalhados, vão enunciando diversos modos de gastar menos: comprar produtos brancos, não procurar divertimentos, não usar o automóvel, etc.
Não estava à espera de encontrar muitas sugestões que me servissem para as minhas poupanças (possíveis...) mas apesar de tudo, pensei que poderia encontrar ali uma ou duas ideias.
Sniff...
As tais poupanças que os inquiridos referem é aquilo que eu venho fazendo há muitos meses, ou até há anos!
Andar de transporte público, é o que faço. Uso o carro (bem velho coitadito) quando não há outra hipótese, em casos onde quem o não tem até chama um táxi.
Comprar preferencialmente produtos brancos, também. Aliás até já sei que mesmo assim devo ver bem os preços porque por vezes há promoções mais baratas do que os produtos brancos. Também já há muito tempo que costumo passar por diversas lojas comprando aquilo que é mais barato em cada uma.
Refeições em restaurante, há muito tempo também que cá por casa não se faz.
Divertimentos culturais, teatro, cinema, concertos, livros novos, reduziu-se drasticamente. Vou relendo os livros que tenho ou os que me emprestam, vejo tv, uso a net. Já não compro jornais, não tomo café na rua a não ser numa excepção ou acompanhada.
.......................
Os meus amigos riam-se dizendo que eu era muuuuito poupadinha. Agora confirmo que sim, mas...
Não chega.
A ganhar menos, a pagar mais impostos, a qualidade de vida tem caído na vertical.
Só tem subido a raiva que sinto ao ouvir os conselhos de quem fala de longe destas situações. Não querem mostrar na prática como se faz?....

Pé-de-Cereja

sábado, 22 de outubro de 2011

De regresso ao... (futuro? passado?)



A actividade deste blog tem sido pouca ultimamente.
A verdade é que o «facebook» tem roubado muitas das coisas que durante anos ia comentado por aqui. As minhas opiniões sobre a situação política ou os acontecimentos que se vai vivendo por aqui ou lá fora, ficam registados lá - é muito fácil e rápido, e a interacção com as pessoas que lêem quase instantânea. Claro que não-é-a-mesma-coisa. Aqui no blog explico-me melhor, os textos são maiores, a apresentação diferente. Mas a verdade é que leva mais tempo a escrever e publicar e tenho-me deixado tentar pela facilidade.
Mas hoje venho avisar que vou estar mesmo ausente quer do FB quer do Cerejas durante cerca de uma semana.
VOU DE VIAGEM!
Um viagem muito desejada e planeada durante a qual vou tentar deixar para trás os problemas actuais.
Não preciso informar onde vou, mas deixo a dica que não vou lá há mais de 30 anos e é uma das cidades mais lindas do Mundo.
Enquanto faço a mala sinto já o coração a bater tão forte como da primeira vez de todas que lá fui. E, recordando os meses gloriosos em que lá vivi, estudei/trabalhei, sabendo bem que as coisas não podem estar «na mesma» sobretudo porque eu própria não estou «na mesma», hesito se vai ser um regresso-ao-passado, um regresso-ao-futuro, ou qualquer coisa de bem diferente.
Até para a semana!



Pé-de-Cereja

domingo, 16 de outubro de 2011

A lata deles!....

 Recebi este mail, que me apetece partilhar aqui:


Estes são alguns dos indivíduos que vão rotineiramente à televisão explicar aos portugueses a necessidade de sacrifícios e de redução de salários...


Administrador não executivo da Sonaecom, da Mota-Engil e do BPI, António Lobo Xavier auferiu 83 mil euros no ano passado (não está contemplado o salário na operadora de telecomunicações, já que não consta do relatório da empresa). Tendo estado presente em 22 encontros dos conselhos de administração destas empresas, o advogado ganhou, por reunião, mais de 3700 euros.

O ex-vice presidente do PSD José Pedro Aguiar-Branco e agora ministro da defesa é outro dos "campeões"dos cargos nas cotadas nacionais. O advogado é presidente da mesa da Semapa (que não divulga o salário do advogado),da Portucel e da Impresa, entre vários outros cargos. Por duas AG em 2009, Aguiar-Branco recebeu 8 080 euros, ou seja, 4 040 por reunião.


Segue-se António Nogueira Leite, que é administrador não executivo na Brisa, EDP Renováveis e Reditus, entre outros cargos. O economista recebeu 193 mil euros, estando presente em 36 encontros destas companhias. O que corresponde a mais de 5 300 euros por reunião.


O segundo mais bem pago por reunião é João Vieira Castro. O advogado recebeu, em 2009, 45 mil euros por apenas quatro reuniões, já que é presidente da mesa da assembleia geral do BPI, da Jerónimo Martins, da Sonaecom e da Sonae Indústria



Proença de Carvalho é o responsável com mais cargos entre os administradores não executivos das companhias do PSI-20, e também o mais bem pago. O advogado é presidente do conselho de administração da Zon, é membro da comissão de remunerações do BES, vice-presidente da mesa da assembleia geral da CGD e presidente da mesa na Galp Energia. E estes são apenas os cargos em empresas cotadas, já que Proença de Carvalho desempenha funções semelhantes em mais de 30 empresas. Considerando apenas estas quatro empresas (já que só é possível saber a remuneração em empresas cotadas em bolsa), o advogado recebeu 252 mil euros. Tendo em conta que esteve presente em 16 reuniões, Proença de Carvalho recebeu, em média e em 2009, 15,8 mil euros por reunião.
.................
Embora não desempenhem cargos de gestão, os administradores são bem pagos. 
Por cada reunião do conselho de administração das cotadas do PSI--20, os administradores não executivos - ou seja, sem funções de gestão - receberam 7427 euros. Segundo contas feitas pelo DN, tendo em conta os responsáveis que ocupam mais cargos deste tipo, esta foi a média de salário obtido em 2009. Daniel Proença de Carvalho, António Nogueira Leite, José Pedro Aguiar-Branco, António Lobo Xavier e João Vieira Castro são os "campeões" deste tipo de funções nas cotadas, sendo que o salário varia conforme as empresas em que trabalham.


Podemos retirar daqui as conclusões que entendermos. Mas aceitar destes senhores comentadores de tv, que vão lá ganhar (mais) dinheiro para nos convencerem da necessidade de sacrifícios, a nós, quando eles mantêm as mordomias que se estão a ver, isso é demais.
Na manifestação de ontem, entre vários cartazes com muito humor, fixei um sério, muito sério. Dizia mais ou menos «Quando nos tiram tudo e já não temos nada a perder, então tudo é possível»
É nisso que os senhores das Agências e da troika deveriam pensar. Quando se aperta demais, é perigoso para eles, porque se não há nada a perder, então ...

Pé-de-Cereja

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma boa resposta

Helena Matos é jornalista.
Tem um curriculum importante. Actualmente dá a sua opinião no Público, para além do Basfémias. Ela é livre de escrever, assim como nós somos livres de não a ler. Aliás é o que tenho feito desde há algum bastante tempo.
Ontem ela deixou lá a sua opinião de um modo particularmente provocador. Não posso deixar o link porque é para quem paga e não irei pagar para isso... Hoje chegou-me por mão amiga uma resposta que me apetece deixar aqui na íntegra:

Em defesa da democracia indignada: uma réplica a Helena Matos

A dura crítica de Helena Matos ao movimento de ‘indignados’ no Público (13 Out 2011) será certamente tomada por muita gente como apenas mais uma peça de propaganda na luta aguda sobre as saídas da crise actual. É e não é.

Partilho algumas das suas preocupações quanto à ‘democracia genuína’ e a sua valorização da democracia representativa e constitucional. Ela diz basicamente que a democracia legítima deriva das urnas e não da rua. Contudo, o seu argumento parece-me demasiadamente formalista e unilateral.

Em primeiro lugar, há o problema da abstenção nos actos eleitorais. Pode-se afirmar que a abstenção é um exercício consciente expressando uma opção livre de participar ou não e, por isso, não põe um entrave à legitimação das maiorias constituídas nos actos eleitorais. Mas isso é um argumento meramente formal e inválido sociologicamente. Existem dinâmicas de exclusão que produzem uma parte da abstenção e que fazem com que uma parte substantiva dos abstencionistas na nossa sociedade não o seja inteiramente por expressão de livre vontade. Existem dinâmicas de disenfranchisement que operam mesmo sem o exercício de força.

Assim, em determinados momentos a participação na vida política do país ocupa outros palcos e arenas. Isto é sobretudo o caso de situações em que as clivagens de luta social são definidas não apenas por programas partidários elaborados para efeitos eleitorais mas por movimentos de protesto contra poderes instituídos.

Na conjuntura actual de crise do sistema económico e financeiro e da implementação de programas de austeridade, os próprios poderes instituídos – os poderes reais e não apenas formalmente constituídos – não possuem mais legitimidade democrática do que os movimentos de protesto. Não é preciso ser ‘marxista’ e ‘esquerdista’, como insinua Helena Matos, para avançar um argumento sério de que o poder real, que está a definir a crise da enorme maioria da nossa população, é o poder invisível do sistema financeiro capitalista globalizado e o poder visível dos homens que controlam as suas instituições e beneficiam da nossa miséria e insegurança.

Numa situação de crise como a actual, a democracia representativa e constitucional não tem respostas adequadas para largas camadas da população e até cristaliza alianças políticas de interesses que actuam com o intuito de resolver a crise em conformidade com as suas preferências. Estamos numa situação única, de crise do sistema socioeconómico que está a produzir um conflito profundo entre camadas da população.

Seria desejável que a crise pudesse ser resolvida pelo funcionamento normal das instituições da democracia representativa e constitucional. O problema é que os mandatos que emergem de um acto eleitoral podem não ter legitimidade efectiva e absoluta durante todo o prazo da sua vigência e podem nem sequer ser explícitos no seu conteúdo. Isso é de facto o caso de todos os últimos governos – que foram eleitos com base em programas eleitorais que foram contraditos praticamente no dia a seguir a sua tomada de posse. A nossa democracia representativa e constitucional simplesmente não é transparente. E na situação actual qual é o mandato que o nosso Governo está a traduzir nas suas políticas concretas: o mandato dos eleitores ou o entendimento com a troika constituída por entidades alheias e não eleitas? E, enquanto o Governo procura impor as reivindicações da CIP/AIP e os interesses privados esfomeados pelas migalhas do estado social – fazendo da concertação um palco para a exibição da sua prepotência anti laboral e anti-social, aonde poderemos encontrar a legitimidade democrática?

Helena Matos reflecte com bastante razão sobre os riscos envolvidos em situações em que existem reclamações antagónicas quanto à legitimidade do poder político em nome da democracia ‘genuína’. As suas observações com base na história do PREC são relevantes – mas não neste contexto politico. As clivagens sociais e lutas produzidas pela crise actual não são bem equivalentes às clivagens ideológicas e políticas do PREC.

É evidente que as manifestações internacionais e no nosso pais foram organizadas por gente ‘radical’ – entre a qual muitos eventualmente negariam a legitimidade da democracia representativa e constitucional em detrimento da mobilização da rua. Mas então? Isso é inteiramente normal – massas de pessoas não convergem espontaneamente a uma hora e num local sem o apelo de alguém. Todavia, o que caracteriza – pelo menos potencialmente – as manifestações dos ‘indignados’ e de ‘Occupy Wall St.’, nos EUA, é que, apesar do ‘radicalismo’ dos protagonista e das suas palavras de ordem, elas têm encontrado eco e recepção positiva em grandes massas de pessoas – muitas das quais levadas à politica pela primeira vez, ou seja, pessoas normalmente passivas e abstencionistas. É o efeito inevitável desta crise histórica e do transparente desequilíbrio de poder real entre os detentores do capital financeiro e os seus agentes e a enorme massa da população.

Teremos que ver quem se manifesta no Sábado. Quem serão eles e elas? Serão apenas os radicais? Duvido. Irei e não me acho assim tão radical! Mas já agora, acho que os protagonistas radicais destas movimentações estão a fazer um grande serviço à democracia – sejam quais forem os seus motivos ideológicos (e espero que não imponham as suas perspectivas sobre os outros participantes). É que a democracia representativa e constitucional tende a esvaziar-se em tempos de crise se for apenas um palco de legitimação dos interesses do capital financeiro globalizado e precisa necessariamente da inflexão da luta social.

Alan Stoleroff

 Subscrevo:
Pé-de-Cereja

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A «casa da Mariquinhas»

As lojas de penhores são, infelizmente, uma 'instituição'. Sempre ouvi referência a isso, de um modo discreto ou por meias palavras que as pessoas tinham vergonha. E os prestamistas, usurários, eram olhados de lado. 

«Entrei e onde era a sala agora está
À secretária um sujeito que é lingrinhas», 

«....às tantas
Vai parar ao "invejoso"... »
Ora bem, nessas alturas de vacas magras - porque elas só engordaram ligeiramente após o 25 de Abril - tudo servia para os penhores. Tudo, mas tudo o que existia numa casa podia ser empenhado. Roupas, móveis, objectos decorativos, louças, tinham um valor e quem estava habituado já sabia quanto é que ia receber pela bengala do avô, pelo serviço de chá da tia, pelo binóculo do tio-avô marinheiro. Recebia-se «uma cautela», e quando se tivesse dinheiro para resgatar o objecto, ele voltava a casa. Ou não, é claro...
Desde há alguns meses têm aparecido que nem cogumelos num bosque húmido, dezenas de lojas com letreiros «COMPRA-SE OURO». Assim, sem mais.
Algumas acrescentam «ouro usado», outras especificam que «pagam a pronto», e há quem explique que «paga a dinheiro». Já não é a versão de penhores, é mesmo puro e duro, a compra de bens.
É um grande barómetro. Referido assim, como «o seu ouro», fala-se da reserva bancária das pessoas mais simples. Ainda pouca gente tinha conta no banco, e já se passava de avós para netas um cordão de ouro, a herança da família. Essas jóias, brincos, pulseiras, medalhas e sobretudo cordões, eram divididas pela família quando falecia uma avó. Ou eram recebidas em datas importantes, casamentos, baptizados.
Quando hoje vejo rua sim, rua não, balcões onde se «compra ouro» sinto um nó no estômago. Não, eu não tenho «ouro» para vender, dois ou três anéis com mais de 100 anos, se têm um enormíssimo valor sentimental vendidos a peso é menos que nada. Não falo por mim. Mas se essas lojas abriram é porque lhes vale a pena pagarem o espaço. É porque existe quem esteja em desespero a vender aquilo que os avós lhes deixaram com tanto amor.
Sinto um grande peso no estômago sim.



Pé-de-Cereja

domingo, 9 de outubro de 2011

«...e o povo não aguenta»

A palavra de ordem é antiga. Quem se lembra de ouvir:
«O custo de vida aumenta
o povo não aguenta” ?
Afinal esta recordação antiga vem relembrar que temos andado desde há muito tempo a sentir apertar cada vez mais o famoso cinto. Claro que quando se cantava esta palavra de ordem, há muitos muitos anos, nem se imaginava que íamos aguentar aquilo que se está a aguentar hoje! Temos aguentado mais, e mais, e mais, com protestos é natural, com desabafos, mas... vamos aguentando surpreendentemente.
Enquanto por muitos países se vai vendo a indignação manifestar-se com maior ou menos veemência, nas ruas, em abaixo-assinados, em movimentos de cidadãos, a revolta vai crescendo como é notório, nós protestamos baixinho.
Não apenas protestamos baixinho como nos auto-punimos. Que a crise tenha esta ou aquela origem, que a gigantesca manipulação das super-poderosas agências de rating seja indesmentível, o cidadão que lê os títulos dos jornais e escuta a primeira notícia do telejornal, sabe logo que «a culpa é nossa»
Porque gastámos mal. Porque a corrupção invade tudo. Porque os gestores são uma lástima. Porque somos preguiçosos. Porque o governo é um capacho da troika. Porque o governo anterior foi uma nódoa.
E é verdade. Infelizmente todas estas acusações são verdade (tirando essa coisa da preguiça, que é muito discutível) e talvez ainda mais um punhado de outras. Em nome da dignidade seria bom que se corrigisse tudo isto. Mas...
...mas o que se passa com as dívidas dos outros países? Deixando de lado os países europeus que estão a cair como pedras de dominó, o que se passa com os EUA?! Não é só agora que eles têm uma enorme dívida soberana, pois não? E no Japão? Grandes países com grandes economias estão a tremelicar como gelatina. Há qualquer coisa de muito errado na estrutura neoliberal.
Contudo o que me levou hoje a escrever aqui no Cerejas foi o reparar no jeitinho que tem a nossa (e não apenas a nossa) comunicação social em assobiar para o ar.
Este fim-de-semana falámos de futebol.
Não acho mal. Quando se anda muito desmoralizado, haver algo que corre melhor é bom. Também fiquei contente com o resultado da Selecção. Mas, valha-me Deus, quando existem  manifestações em Wall Street há uma semana, quando essa onda transborda de Nova York para Washington e Los Angeles, as nossas primeiras páginas falam-nos de politiquices e faits-divers... Aquela imagem podia dar ideias à nossa gente tão ordeira, e desatar a «incendiar as ruas» (??!) como teme o primeiro ministro.
Haja paciência? Ná! Já houve paciência a mais!!!!




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Pé-de-Cereja