quarta-feira, 23 de novembro de 2011

No lugar do outro

Havia uma historiazinha que ouvi contar quando era pequena e a que sempre achei graça por ser muito clara. Tratava-se de dois irmãos que andavam à bulha, ciumentos, queixando-se de que ao dividir um doce cada um deles se sentia prejudicado em benefício do irmão. O pai, zangado, tomou uma decisão um tanto 'salomónica' - a partir daí, um deles ficava com a faca para cortar o bolo e o outro escolhia primeiro o bocado que queria... Imagina-se que dali em diante os bocados eram o mais iguais que era possível.
Esta história ingénua ocorre-me muitas vezes quando vejo a dificuldade que existe em nos conseguirmos colocar no lugar do outro, em imaginar que a vida dê uma cambalhota e haja uma alteração de papeis. Claro que é preciso imaginação em certos casos, mas não muita.
Impacientes na bicha de um supermercado e a achar que a menina da caixa é uma atarantada e não despacha o serviço. E, se por um truque de magia, aparecêssemos sentados atrás de um tapete cheio de produtos, a deslizar rapidamente, e a olhar para uma colecção de clientes mal-encarados e cheios de pressa?... Ah, que nervos. Ou, a nossa chefe mudou a hora de uma reunião o que nos faz diferença e consideramos isso uma prepotência e ela uma bruxa malvada. Se, magicamente, mudássemos de lugar, talvez olhássemos para a sua nossa agenda vendo que as pessoas que coordenávamos (nós afinal) se tinham atrasado a fornecer uns dados indispensáveis. Que raiva, a reunião vai ter de ser mais tarde!
Onde essa troca de papeis é mais evidente e devia ser mais fácil até, é em certas decisões políticas. Como se sabe o regime democrático ensina-nos que o poder é transitório. Quem o assume é porque recebeu mais votos, mas nada diz (até pelo contrário) que da próxima vez não seja o seu adversário a ganhar e quem tem o poder no momento não se veja relegado para a oposição dentro de algum tempo. Ou seja, teria toda a vantagem em cortar o bolo direitinho como o irmão da história.
O parlamento madeirense tomou uma decisão assombrosa do ponto de vista democrático: um deputado vai poder votar por outros e assim assegura que «nunca tem surpresas» como ingenuamente foi explicado.
É evidente que esta esperteza saloia teve repercussões. Anda por aí um burburinho incrível e se calhar ainda é pouco. Mas o que me faz pensar é que estes senhores inventaram esta espantosa ideia sem lhes passar pela cabeça que afinal esta sua maioria de 2 votos pode passar para outras mãos... e aí bem podem espernear e fazer uma grande birra, mas «a outra maioria» que não a deles pode ficar com uma arma na mão.
É anti-democrático? Ah pois é!




Pé-de-Cereja

7 comentários:

José Palmeiro disse...

Leonor, quando comecei a ler a tua "salomónica" historieta longe estava do caminho que ela iria tomar.
Jardim e os seus apaniguados continuam a ser uma "caixinha de surpresas". A peregrina ideia que tiveram em, num ápice, transformarem a democracia em ditadura, estou convencido que nem Hitler a teria.
Como também facilmente constatamos, não vejo, nos tempos mais próximos, saírem de cena. Quatro anos pelo menos!!! Não podem de forma alguma continuar e se os que estão acima deles nada fizerem, há que tomar medidas que, de imediato, os apeie do poder.
Talvez como a imagem que nos ofereces sugere, AFUNDÁ-LOS!!!
De preferência com todo o betão utilizado e não usado, atado à cintura.

Juvenal Amado disse...

Decididamente a democracia não está em boas mãos.
A Madeira é a face mais visível dessa situação.
Mas a cima de tudo, esta crónica está deliciosa e como disse o amigo acima quem suspeitaria do caminho que a estória iria levar.

Parabéns

pé-de-cereja disse...

Olá amigos!
Que bom terem passado por cá. De uma modo geral eu tenho uns leitores que «fizeram assinatura» aqui do blog e passam sempre por cá faça sol ou faça chuva. O Zé Palmeiro sabe, não é?
Desta vez, surpreendentemente, não apareceu nenhum dos 'habituais' e apareceram vocês dois! Surpresa.
:)
Pois foi, apeteceu-me chamar a atenção desta forma. Mas fui muito sincera - em muitas situações esquecem-se não apenas que há telhados de vidro, como sobretudo que há atitudes que são boomerangs, mais tarde ou mais cedo vão apanhar com elas em cima.

Anónimo disse...

Isso mesmo.
É difícil para caraças trocarmos de pele. É mais fácil colocar os maus de um lado e os bons do outro. Claro que nestas coisas de partidos nem lhes passará nunca pela cabeça que se pode virar o bico ao prego!

Joaninha disse...

Realmente até me sinto envergonhada... Fui de férias, estive uma semana longe e vejo que neste post quem comentou é quem menos passa por cá, e eu, o Zoprro e o King (os 3 da vida airada...) nenhum de nós disse nada :(
Ainda por cima tem que dizer! tal como o palmeiro e o Juvenal disseram, que bem que articulaste as 2 histórias. Essa ideia de um partir e o outro escolher é fenomenal! Quem diz partir o bolo diz qualquer outra coisa - comprar 2 brinquedos por exemplo, não pode ser um muito melhor do que o outro ou arrisca-se a que o irmão escolha ... o melhor!

pé-de-cereja disse...

Olha, afinal os meus visitantes habituais também cá vieram... Olá amigos!
Boas férias, afinal. E aproveitem hoje que para o ano não há...

Zorro disse...

Gira a parábola...