sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Os dez mais

De vez em cadeias de mensagens que percorrem a rede ou por fw, ou aqui nos blogs, ou nas redes sociais. Alguém inicia, enviando uma a 10 pessoas e pedindo que a reenviem a outras 10, e é de ver o resultado. Mesmo com baixas pelo caminho, fica uma enorme bola de neve em pouco tempo....
Se a recebo em fw apago, não penso mais no caso. Aqui no blog há muitos anos que não recebo nenhum desses convites - que me deixam embaraçada não pela resposta mas pela dificuldade de reenviar - e no fb  lá recebo de vez em quando uma dessas "coisas". A mais recente era assim: «fazer uma lista com 10 livros (ficção ou não-ficção) que me tenham marcado. A ideia não é gastar muito tempo, nem pensar muito; não precisam de ser grandes obras, apenas que tenham sido importantes para mim. E devem ser marcados 10 amigos para participar na brincadeira».
Ora, para além da parte de mandar aos tais 10 amigos (mais difícil do que pode parecer) encalhei de imediato na escolha, mesmo com o conselho de não-pensar-muito. É que 10 autores encontram-se logo, e claro que os 10 livros também, mas dentro do mesmo autor escolher um livro......hummm... Difícil? Impossível?
A minha lista começou por ser (talvez?) :

1 - Os mandarins
2 - Orlando
3  - As cidades invisíveis
4 - As mil e uma noites
5 - Poesia de Álvaro de Campos
6 - A la recherche du temps perdu
7 - Amadis de Gaula
8 - A Guerra e Paz
9 - As aventuras de Tom Sawyer
10 - D. Quixote

...mas vamos lá a pensar melhor.
1 - "Les mandarins" foi o me ocorreu. Mas se dizem ficção ou não  não precisa ser romance e nesse caso porque não "Le deuxieme sexe"? Ou "Le sang des autres"? Ou... OK, adiante, este fica. Quanto ao 
2 - aqui não tenho dúvidas, gostei imenso do romance, mais do que outros da autora de quem gosto muito. Fácil. Mas agora no 
3 - ocorreu-me aquele, mas o Italo Calvino tem "O Atalho dos Ninhos de Aranha", tem a fabulosa trilogia dos "antepassados" (o visconde, o cavaleiro e o barão) histórias magníficas. Já não sei o que escolher. No
4 - a escolha não dá para dúvidas. Não li a versão de 10 volumes mas li uma  bastante completa e adorei. Quanto ao número 
5 - vivi a minha adolescência com o Pessoa, sabia o Álvaro de Campos de cor. Está escolhido. E o
6 - também foi fácil - quer o autor quer o romance. Mas agora, no 
7 - o que queria mesmo era a "Matéria da Bretanha", mas não dá. Foi mais fácil escolher o Amadis por ter sido o primeiro que li, mas o que queria era o  Ciclo Arturiano esse grupo de lendas que fizerem a minha delícia durante muito tempo. O que escolher? E também para o
8 - escolhi Guerra e Paz, mas eu sei lá... E o Dostoievsky? Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov,... Foram livros inesquecíveis. E depois recordei o
9 - Mark Twain e o Tom Sawyer, mas porque não Huckleberry Finn? E para o 
10 - ... bom foi um grande romance. Importante como pedem.  
Mas fica-me a sensação de estar tudo errado! Dickens? Oscar Wilde? García Márquez talvez não. "Eu, Claudio" e já agora Yourcenar e Memórias de Adriano.  Falta teatro, Hamlet, o Rei Lear, Garcia Lorca; poesia portuguesa, francesa, espanhola; ensaios...
Enfim, escolher 10 livros?!





Cereja

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domingo, 26 de janeiro de 2014

O fantasma da ópera do facebook

Ando divertida com as discussões que a simples menção da palavra facebook levanta.
Oh céus!!! Até parece um assunto sério.
OK, valha a verdade a maior parte das pessoas com quem falo ou já nos cruzámos, ou ao ouvir 'facebook' sorri, pergunta se também usamos, com que nome, e acabamos a conversa com promessas  de "amizade" facebookeana. Normal. Sensato.
Depois temos os que adoram as redes sociais e à menção desta, tão popular, desatam a falar do que se vê, e o que soube , as pessoas com que fala, os conflitos que teve, a graça deste e daquele, parecendo que a sua vida se passa ali. E se calhar... Estão sempre a espreitar o tablette, o telemóvel, seja qual for a fonte de comunicação que mais usam, e muitas vezes confessam risonhos "Estou mesmo viciado!". É engraçado que actualmente já não são tanto os muito jovens, esses parece estarem a desinteressar-se e procurar outras redes, mas encontro cada vez mais pessoas já de meia idade muito 'apanhadas' .
E depois há outro grupo de pessoas - que não é tão pequeno como isso! -  que quanto ao facebook, não têm, não querem ter e têm raiva a quem tem, como se costuma dizer. Eu fico quase apalermada com a intensidade da resposta e o seu tom violento. Creio que se lhes perguntasse se eram viciados em drogas duras não teriam uma resposta mais indignada. Aquilo é um perigo horroroso. Contam logo de imediato milhares de histórias de pessoas cujos maiores segredos foram divulgados no fb, que se viram metidas em terríveis sarilhos, cuja vida íntima foi devassada ao pormenor, que se viram envolvidas numa teia tenebrosa por terem aderido a esse grande perigo. Que me desculpem mas em certos casos parece uma atitude delirante, uma espécie de paranóia. Não, não é dizer simplesmente "Ná, não me interessa, nessa coisa das redes sociais acabamos por dizer mais do que queremos. E não sinto necessidade, uso o email para os amigos" como algumas pessoas sensatas me respondem. Não, há quem enfie metaforicamente vários colares de alho e agarrem em estacas assim que ouvem mencionar facebook.
Eu mudo logo de conversa, um pouco assustada com a reacção.
Ainda ontem, em conversa com uma amiga, se falou de outra de quem vou sabendo notícias pelo facebook e despreocupada perguntei "Tu tens?" e ouvi em tom assustado "Eu? NÃO!!!!" e acrescentou  "de vez em quando recebo umas mensagens a perguntar 'queres ser minha amiga de facebook' e apago logo depressa" falando como se aquilo fosse um virus assustador. Ai, ai, ai que medo.....
Bem, é claro que através das redes sociais se pode saber muita coisa. Sobretudo se as formos lá contar...não é? Mas para mim tudo o que se faz pela net corre o risco de não ser privado! A net tem muitas vantagens mas será bom sabermos que existem ladrões hackers que podem bisbilhotar o que escrevemos. E não apenas no pobre do facebook!
Há técnicas para se descobrir tudo. Uma tarde destas recebi uma chamada de um escritório de advogados que nem conhecia, à procura de uma familiar minha. Eu de facto tinha o contacto dessa familiar, mas como raio tinham apanhado o meu telefone?? E me tinham encontrado a mim? São coisas... E olhem que a culpa não é do facebook.
Para mim aquilo é uma brincadeira, que uso moderadamente, e me mantém em contacto com pessoas que de outra forma há anos nem sabia delas. E só lá escrevo o que todos podem saber, mainada!


Cereja


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Comparando preços...

Se calhar isto chocou-me mais porque nunca tive o costume de beber água engarrafada. Quando eu era criança punha-se um jarro com água na mesa às refeições, jarro que costumava ficar guardado na cozinha porque era água fervida. Isso fazia-se lá na minha casa e creio que em muitas outras, ferver a água antes de a beber, mas tudo isto foi há anos, e anos, e anos... Porque com o decorrer do tempo a sua qualidade melhorou muito e, pelo menos em Lisboa, somos informados de que ela é boa e eu acredito. Portanto na minha casa não usamos água engarrafada e não fazia ideia do seu preço.
Claro que imaginava que seria mais cara do que a da EPAL claro, tinha de ser, mas... água é água.
Ontem ao embarcar para uma viagem de comboio de cerca de uma hora e lembrei-me que tinha de tomar um medicamento dentro de 30 minutos. A única hipótese era comprar uma garrafinha de água e tomar o comprimido pelo caminho, de modo que antes de subir para a carruagem voltei a um snack e comprei, para levar comigo, a garrafinha mais pequena que tivessem - afinal era só para beber 2 ou 3 goles...  E não era grande, 0,33 l, ou seja um terço de litro.
Dei um euro para pagar e recebi umas moedinhas de troco, o que me fez perguntar desconfiada, "quanto é?!" imaginando que houvesse engano mas o homem respondeu logo "setenta e cinco!" subentendia-se cêntimos, por enquanto.
Fiquei a remoer enquanto subia para o comboio.
Fazendo contas de cabeça, aquilo era o correspondente a 2,40 € o litro. Ora ainda na véspera eu tinha comprado leite no supermercado por menos de 60 cêntimos o litro, ou seja paguei por litro de água o correspondente a 4 litros de leite!!!! Ou, comparando com o vinho, também se pode comprar um litro de vinho por bastante menos.
É um maná este nosso hábito de não beber a água da companhia.
E vá lá que só a usamos para beber, já pensaram o que seria se a usássemos para outros fins? Um duche com esta aguinha só uma vez por semana! Quiçá uma vez por mês, que seria difícil usar menos de 5 litros ... Ui, ui! 
Caso para começar a tomar banho em leite como a Cleópatra.



Cereja

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Voltar atrás

É demasiado fácil.

Ultimamente tenho-me tornado preguiçosa.
Mais preguiçosa, porque um nadinha faz parte da minha natureza e não faz mal, mas o que é demais já pode ser chato. E tudo culpa das facilidades que a actual tecnologia nos dá.
No princípio era o verbo 'à mão', fazia-se quase tudo à mão (lavar, coser)  mas estou a pensar é na escrita. Tínhamos de escrever sem erros e com uma caligrafia no mínimo legível! Depois vulgarizou-se a máquina de escrever, e essa parte do legível, já não causava preocupação bastava escrever e mais nada, grande alívio para quem nunca tinha conseguido desenhar as letras com grande perfeição.  E depois, surge o computador! O verbo escrever é trocado por o neologismo teclar. E esta máquina maravilhosa, para além de escrever com uma magnífica 'caligrafia' que até se pode escolher, ainda assinala os nossos erros e os corrige! Melhor não há! Se me engano no que queria dizer, não vou buscar uma borracha de tinta, não escrevo xxxxxx por cima do erro, muito simplesmente volto atrás e escrevo, perdão, teclo de novo. Ma-ra-vi-lha!!!
Noutro campo: nasceu a televisão. Coisa boa, excelente mesmo. Recebo na minha própria casa, sentadinha no sofá, as imagens de tudo o que é cultura - cinema, teatro, bailado, música, exposições, concertos - e desporto, até no minuto exacto em que se passa. E notícias actualizadas e em directo. De início ainda ia ali ao pé do aparelho quando a queria ligar, aumentar o som, ou mudar do 1º para o 2º canal, mas agora há uma coisa que faz tudo isso e muito mais, chama-se comando e nem me levantar preciso. Ena! 
A técnica aumenta, e já nem preciso de me preocupar - se não percebi alguma coisa volto atrás e vejo de novo, e de novo e de novo até ficar esclarecida. Se batem à porta, suspendo o jogo de futebol que está a dar enquanto vou abrir e não perco o golo. Se alguém me diz que o programa ***** foi muito interessante, recuo até esse dia e vejo o dito programa. Fácil.
Estou a habituar-me a "rebobinar" tudo e a não me esforçar por manter a memória activa. E dei comigo, há pouco, ao fazer uma paciência destas de computador perceber que a peça que precisava estava debaixo de outra, a voltar atrás para jogar antes outra peça! Batota virtual??! Oh céus!
É só preguiça, ou isto já é uma doença? Tão fácil desfazer o que fizemos mal, demasiado fácil...




Cereja

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fim do Arrastão - Lamento por uma blogosfera defunta

Vi ontem.
O Arrastão vai fechar o estaminé. Dizem que já ia fazer 8 anos, o que ajuda a entender que afinal não é assim tão rápido como me parecia este estertor da blogosfera, mas que está comprovado já nem é discutível...
Olho para a coluna da direita, onde arrumei os "blogues que convém ir lendo" e confirmo que mesmo tendo já apagado os que fecharam definitivamente (apesar de os ter deixado ficar bastante tempo com o rip escrito à frente) a maioria está parada, deixando cair um post de mês a mês... Sobrevivem os que fazem militância política, sobretudo quando são colectivos ( Jugular, 5 dias, Ladrões de Bicicletas...) mas os blogues pessoais de quando comecei a escrever por aqui desaparecerem todos quase todos. Aliás quando os procurei para escrever este texto até mesmo o link já desapareceu! O  Ai o Camandro!, Farinha AmparoTroll UrbanoHistórias de Embrulhar Castanhas, Sociedade Anónima, Renas e Veados, ainda consegui chegar lá através da coluna do velho Pópulo mesmo que estejam já parados ou fechados há que tempos, mas o "Barnabé", ou o "Blog de Esquerda", ou o "Ruínas Circulares", ou o "Afixe", ou "Enresinados", ou "Sem Destino", ou... ou... isso já não encontro nada.
Outros tempos, outras formas de comunicar.
Temos o twitter, temos o facebook. E também nós também envelhecemos, temos outras ocupações, o tempo falta e a comunicação pelas actuais redes sociais é muito mais rápida.
Mas o que falta aqui na área dos blogues é o feed-back que tínhamos há anos. Quando 'fundei' aqui o Cerejas chamei-lhe assim porque tal como a-conversa-é-como-as-cerejas eu esperava que aqui o blog fosse um encadeado de comentários. E tinha alguma razão para o pensar, porque nos meus blogues anteriores as caixas de comentários pareciam chats! E eu adorava isso. Acho que ainda no Afixe escrevi uma vez um post que quase chegou (ou chegou mesmo!) aos 100 comentários. E mesmo quando não se comentava, as visitas contavam, o medidor de visitas ia registando centenas, milhares até! Era muito engraçado, era isso que dava animação aos blogues.
Hoje vejo que quase não tenho comentários e quase não tenho visitas. E não sou apenas eu, os 2 ou 3 companheiros que ainda resistem desses tempos passados também não estão em melhor estado. Estamos a escrever para um grupo de meia dúzia de amigos, bem menos do que os que deixam cair um "like" no facebook.
Eu ainda luto e vou insistindo. Escrever aqui é diferente. É mais calmo, mais pensado, e até mais privado. Gosto de escolher um desenho para ilustrar o que digo (creio que é a minha imagem de marca, ter sempre uma ilustração)  gosto de deixar links, gosto de poder escrever antecipadamente, gosto de poder voltar a ler meses depois o que escrevi, e isso é mais difícil nas redes sociais.
Mas sei que é uma guerra antecipadamente perdida. A energia desapareceu. Escrevia há anos dois ou três posts cada dia, actualmente escrevo um post cada três dias.... 
Tudo tem o seu tempo e este está a acabar.


Cereja

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Algemas


É um símbolo também.
E quanto a isso não tenho nada a objectar. A linguagem figurada é coisa bonita. Quer quando a referência é agradável (estou nas nuvens, senti-me no céu) quer quando é violenta ou feia ( ele esfolou-a viva, arrastou-o pela lama) afinal são metáforas, são palavras. E a "algema" em sentido figurado não tem nada de mal, significa estar preso e estar bem preso. Mas quando o instrumento é real já dá que pensar que se use de um modo tão... psicologicamente violento.
Li há pouco uma história, toda ela estranha e exagerada, de uma prisão efectuada com o uso de algemas. Também recordamos ainda as imagens do Strauss-Kahn algemado no aeroporto. Mas, é claro, que não é por nestes casos serem pessoas "importantes" que me choca, incomoda-me igualmente ver como já vi, no outro extremo da escala social, um preso à espera no corredor de um tribunal, algemado. E incomoda-me  porque me parece não existir a menor necessidade: daquele sítio já é difícil encontrar a saida normalmente quem está livre, quanto mais com um guarda de cada lado...
Para mim, já o algemar é uma pequena violência.E nem tão pequena como isso, porque quando as mãos ficam algemadas atrás das costas se o preso cair cai desamparado, não pode atenuar a queda. E é curioso ver os 'protocolos' - por um lado prendem as mãos mas por outro ao metê-lo no carro põem-lhe uma mão na cabeça para não se magoar na porta!!!! Vê-se isso em todos os filmes e séries policiais.
Bem, não sei se me estou a explicar como deve ser... Quando se está a lidar com alguém violento, faz sentido que enquanto existir perigo de agressão ele seja dominado de modo a não agredir, isso creio ser indiscutível. Mas já me choca usar um instrumento desses como rotina num acto de prisão. É humilhante, vexatório, desnecessário.
Para mim entra no campo dos castigos corporais que se usavam nos séculos passados e hoje já não se imaginam numa sociedade civilizada. Fica pelo menos a marca psicológica. E se a pessoa detida provar estar completamente inocente? Como 'se apaga' essa recordação que decerto a vai marcar?


Cereja


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Não se lhe chama corrupção

Se há assunto sobre o qual toda a gente tenha opinião é sobre os gastos com a Função Pública e qual a responsabilidade desse factor na actual crise financeira. Com violentos ataques e violentas defesas. E, na enorme maioria dos casos, ouvindo apenas aquilo que lhes soa melhor ou generalizando a partir de dois ou três casos que conhece de perto. Mesmo quem trabalha ou tem familiares que trabalham no sector público, usa esse método da generalização do todo a partir do muito particular que conhece.
Primeiro dizia-se que em Portugal existia um número exageradíssimo de gente a trabalhar para a Função Pública,  o que não é verdade como sabemos. Mas esse pressuposto já há muito tempo que leva a que as saídas do activo por força da idade não sejam compensadas por entradas que refresquem o quadro de trabalhadores. Já há uns 10 anos que quem sai não é substituído o que decerto que emagrece esse "grande volume" de trabalhadores. Agora, esquecendo como começou a crise financeira porque já passou algum tempo e a memória é curta, a mensagem que circula é que "esta crise resulta dum Estado Social insustentável que levou a défices e dívidas públicas incontroláveis"
E muita gente engole o isco, o anzol, e linha e até a cana....
Que o Estado gasta muito dinheiro com salários...? Hummm... Talvez. Mas não com quem fez toda a tarimba e carreira percorrendo as diversas letras do quadro. Pois é, vejam o enxame de assessores xptl que atafulham os gabinetes de Ministros e Secretários de Estado. E não, não são bons técnicos que tivessem sido destacados do seu serviço habitual para aquelas funções, vêm do sector privado, alguns deles jovens com o canudo acabado de imprimir e que são considerados "especialistas". São verbas impressionantes.
E depois há a prestação de serviços por empresas privadas, nunca entendi a que título. As grandes firmas de advogados que dão pareceres com custos milionários. Mas porquê?! Não era natural que isso fosse observado internamente? Técnicos ou de finanças, ou de transportes, ou de saúde, ou de gestão, ou... a quem se pede pareceres sobre o funcionamento de sectores do Estado. Nunca entendi isso e acho até achincalhante, vir uma entidade de fóra e talvez com interesses privados, dar uma opinião - e porque não chamar pessoas de outra área dentro da função pública?
E, este sistema abre as portas a compadrios e corrupção, como é natural. Nos últimos dias soube-se da demissão de uma chefe de gabinete de um ministro dona de uma empresa escolhida para assessoria (por acaso noutro ministério)  onde receberia 74 mil euros. É um caso. Mas esse conflito de interesses a que nem sempre se chama corrupção, está sempre a acontecer. 
E aí sim, aí é uma sangria de dinheiro que o Estado gasta e mal gasto. 

Cereja
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A linguagem também é entoação



Alguns tipos de personalidade são irritantes.

Falo por mim, já se vê.  Mas não suporto o estilo “choradinho”. A pessoa que tudo o que diz é uma lamúria, um queixume permanente. A sua vida parece uma série contínua de desgraças e infelicidades e, claro!, sem ela ter a menor das responsabilidades nisso. É um estilo feminino (gulp!) ou infantil, tenho de reconhecer que não se vê aí muitos homens a usar essa forma de comunicar… Quando ainda são crianças talvez resulte o dar-lhe para trás. “Mas porque é que estás a falar assim? Não gosto nada!” e talvez, se aquele estilo não for reforçado com o adulto parecer preocupar-se mais com eles quando falam daquela forma, possam ainda corrigir-se. Mas com um adulto não se pode usar essa frase, até por boa educação do nosso lado…

Mas há um outro tipo de modo de falar, que também me custa a suportar, o oposto, os que falam sempre num tom de acusação. Tal como no primeiro caso, não é o que dizem mas sim como dizem. Quer o “lamúrias” quer o “sete-pedras-na-mão” se só comunicassem por escrito eram perfeitos. Cá está um caso onde era de apoiar o uso de sms, sempre a coisa passava…

Tenho uma amiga, boa rapariga em tudo o mais, mas que quando fala está sempre zangada. É uma canseira… De um modo geral vou dando o desconto, “feitios…” penso, mas há dias em que é demais. Uma pessoa que esteja em permanente guerra com o mundo, mesmo que muitas vezes tenha razão, é fatigante para quem ouve. E um boomerang nas suas relações sociais: há pouco tocou o telefone e quando vi quem estava a ligar, pensei “fulana? Ná, agora não, não estou com paciência para ir para a guerra…” e não atendi.
Uma defesa, claro está, mas não a ajuda a corrigir o tom, coisa que já desisti de fazer. 


Cereja

* Uma  nota escrita já depois de ter publicado, quando reli aqui o post. Acho que o que me irrita é que nos dois casos, apesar de aparentemente opostos, há um ponto comum: elas não fazem parte do mundo, não se põem em causa, não há uma auto-crítica. O mundo é o inimigo, como algo completamente estranho. E quem fala está completamente inocente. Deve ser isso que não gosto.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"Só a mim é que isto assusta?" Afinal não é.

Há muitos anos li um romance de Azimov na Colecção Argonauta, chamado, talvez (?), "A Ameaça dos Robots", história interessante. (eu achava muita graça à FC antiga, os primeiros romances que foram publicados na Argonauta eram muito giros, mas pela actual já não sinto o mesmo...) Lembro-me bem de se passava num planeta habitado por muito pouca gente. Por motivos que já não recordo, eles precisavam de tomar conta de áreas muito vastas e como eram poucos espalhavam-se por todo aquele mundo mantendo o contacto apenas virtualmente. Mas esse contacto era muito bom, para histórias imaginadas por quem nasceu na década de 20 era mesmo fabuloso! Eles estavam sempre a visitar-se por imagem tridimensional, almoçavam juntos (cada um no seu sítio, juntando a imagem da mesa), conversavam, jogavam, bebiam, até em grupos alargados (cada um na sua casa e na sua poltrona), etc. Depois deu-se um crime, aparentemente impossível porque para isso tinha de ter havido contacto directo, coisa que os deixava horrorizados.
Bem, ao ler aquilo tínhamos a noção de que havia uma perturbação, uma patologia. Era essa a ideia.
Ocorreu-me essa memória por ter encontrado uma palavra: phubbing
Nem sabia que havia nome! Mas às vezes dar o nome à coisa, dá para a 'oficializar', ela passa a existir no real e não apenas na nossa imaginação. Porque isso do phubbing é a primeira fase da tal doença que existia no planeta do Azimov. Parece que a palavra vem de phone e snubbin, ou seja rejeição-por-quem-não-está-ao-telefone. A ligação virtual é tão forte e desejada, que a real passa para segundo plano. É o que se nota quando várias pessoas num grupo em vez de interagirem entre si, se divertem a olhar e escrever no telemóvel!
Tenho já notado que embora as pessoas da minha geração ainda prefiram dar um recado por telemóvel simplesmente falando, os mais jovens preferem escrever a mensagem. Mesmo que isso implique uma resposta também escrita, que por sua vez leve a outra mensagem que traz resposta, etc, etc.  Pode não ser prático. Lá isso... Nem se ouve a entoação que evita alguns mal-entendidos, mas por outro lado permite enviar bonecos  [ficava bem um smile aqui ]
Isto andava a preocupar-me. 
Achava que, psicologicamente, não era saudável porque evitava o contacto físico, directo, olhos nos olhos, parecia-me uma certa fobia. O que tinha começado por ser uma coisa excelente do ponto de vista do relacionamento porque facilitava o contacto com quem estava longe, perversamente tornava-se um impedimento ao relacionamento com quem... está perto!
Mas quando percebi que o fenómeno tinha nome, fiquei aliviada. Não sou só eu que ando "a imaginar coisas", há mesmo qualquer coisa que não está bem. E qual o antídoto???







Cereja

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Hoax / Hocus pocus

Como a minha cultura das coisas da net é fraquinha, nem sabia o nome que isto tinha. Aprendi agora, chama-se "hoax" a histórias falsas recebidas pela net, vem aqui bem explicado. Dizem que a palavra vem de hocus pocus  (??!) [o que é engraçado e daria para algumas considerações, mas não quero irritar os crentes que me estejam a ler...] Eu chamava-lhes 'melgas electrónicas' por serem muitos repetitivas, picarem e fazerem comichão.
Talvez seja particularmente desconfiada, mas é frequente ao receber emails ou ler coisas no facebook que me pedem para 'partilhar'  ficar de pedra no sapato ou por me parecer um completo disparate, ou demasiado comovente para ser exactamente assim, ou até, mesmo quando vem ao encontro do que penso, ser demasiado conveniente. E há muitos anos que isto acontece, mesmo há muitos, ainda nem havia facebook nem as actuais redes sociais. Recordo ainda 2 casos de há uns 15 ou 20 anos que me dei ao trabalho de investigar na altura e, bastante irritada, confirmei que eram mentira...
Pelo que entendo a intenção de quem cria estas cadeias, se pode ser apenas um espírito de humor um tanto parvo, fazem uma montagem com o fotoshop e acham-se muito engraçados, pode ser mais maléfico, o famoso phishing para entrar na nossa casa sorrateiramente, ou na mesma onda maldosa convencerem um grande número de pessoas de qualquer coisas que serve as suas convicções mesmo que aquilo que contam seja uma completa mentira, ou uma semi-verdade distorcida.
O "rabo de fóra" destes gatos escondidos quase sempre está nas datas originais. Há histórias que até começaram por ser verdadeiras... há 10 anos! Nunca vos aconteceu lerem uma coisa e ficarem com a sensação do "dejá-entendu"? Pois. Quase sempre é porque de facto já o ouviram. E é melhor não ficarem indignados a pensar "outra vez! mas este tipo não tem vergonha??!" mas verem se afinal não é simplesmente o mesmo facto que foi pescado de uma velhíssima notícia.
A mim, cá por coisas, aborrece-me especialmente quando esta manipulação falsamente ingénua (??) vem da ala política com que simpatizo mais. Leio muitas vezes no facebook notícias escritas com muitas maiúsculas e salpicadas de pontos de exclamação, relatando situações da Assembleia da República, erros de deputados, histórias de gente com relevo na cena política, que em pouco tempo se tornam virais, mas já foram desmentidas ou se devidamente contextualizadas se tornam muito diferentes. Não, não é nada assim, sabemos nós. Mas... o desmentido não se torna viral, e o que vai ficar é a ideia de que o A, ou B ou X, cometeu determinado erro da palmatória. 
Não gosto.
Não gosto nada. 
Para atingir um fim importante não se podem usar todos os meios, pelo menos segundo o meu ponto de vista. E não desisto de quando leio algo que me pareça estranho, deixar em comentário "tens a certeza de que é verdade? como te chegou a informação?" Pode não travar a difusão da mentira, mas alguma dúvida pode ficar...








Estes são para o phishing, avisam-para-avisarmos-os-amigos para terem cuidado, o que tem graça porque esse tal "aviso" é o veículo de difusão... :)

 Cereja 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Avesso e direito, prós e contras, a bela e o senão...

Há coisas que têm podem ter duas leituras, quase contraditórias. Vendo primeiro por um lado a nossa opinião até é uma, mas... por um ângulo diferente se calhar a opinião já é a oposta. Ai, ai, ai, a coerência... :(
Desde há uns anos que, paulatinamente, se nota que a gestão de muitas empresas vai implementando o uso do self-service, ou seja os seus clientes servem-se a si mesmos sem o notar. 
Se bem se lembram antigamente os eléctricos e autocarros tinham dois empregados em cada veículo. O condutor, guarda-freio dizia-se, e o "pica-bilhetes" que circulava no carro vendendo os bilhetes. Hoje basta uma pessoa, porque o cliente mostra o bilhete a uma máquina que o regista, e é porque ainda não se lembraram que o último cliente a entrar conduzisse o carro até à paragem seguinte que aí poupavam logo mais um salário.
Antes do advento dos multi-bancos, quem precisava de levantar ou depositar dinheiro, pagar contas, depositar cheques, tinha de ir a uma agência, a um balcão do seu Banco. Hoje essas funções fazem-se 24 horas por dia nos milhares de máquinas espalhadas por esse país.
Quando eu era nova, para comprar qualquer produto que precisasse teria de ser atendida numa loja por um caixeiro que o iria buscar ao interior, pesava, media, embrulhava e recebia o pagamento. Hoje escolhemos directamente o que desejamos, que está marcado com o preço e embalado, e o único contacto é com quem está na caixa para receber o pagamento.
A primeira parte destas observações é o "direito", ou o "pró", ou a "bela", o politicamente correcto no verdadeiro sentido da palavra,  e a segunda parte será o "avesso", o "contra", o "senão". Porque, temos de o reconhecer, para o utente apressado o que se faz hoje é muito mais prático e rápido! Note-se que eu até gosto de 'fazer-conversa' e no meu bairro muitas vezes vou ao lugar da esquina em vez do Pingo Doce, por esse belo aspecto humano!
Mas...
As chamadas "compras do mês", as que faço só uma vez por mês de mercearias, drogaria, leites, vinhos, congelados, faço num hiper que depois me envia tudo a casa. Neste hiper onde vou (se calhar nos outros também...) , são os clientes que pesam os produtos depois de os meter nos sacos. Cada produto avulso tem um número, na balança carregamos nas teclas com essa indicação e sai uma etiqueta com código de barras. O que quer dizer que a única intervenção sem ser minha é na caixa onde a operadora passa os produtos e dá a factura.
Hoje experimentei um processo, que ando há uns tempos para fazer,  onde até isso é ultrapassado! Os clientes podem usar um leitor de código de barras portátil. Na passagem da prateleira, ou da balança, para o carrinho de compras o código era lido e registado. Quando as compras estavam feitas e o carro cheiínho, foi só chegar ao pé de uma menina com o tal aparelho e o meu cartão, dar a minha morada, e vir-me embora!!!
Menos de uma hora e só preciso de repetir a operação para o mês que vem!
Eu sei, eu sei, pode ser politicamente incorrecto mas é muito prático! Estou aqui repimpada a ler um livro e todas as compras feitas.
Aaaaaah.....


Cereja

sábado, 4 de janeiro de 2014

Insiste, insiste....

Lembro-me de uma famosa cena cómica de um antigo filme português, O Pai Tirano, onde um casal velhote antes de assistir a um espectáculo vai ao bar do teatro e ela pede "dois pastelinhos de camarão" . O empregado responde-lhes que pastelinhos de camarão não tem, e então  olham um para o outro e em alternativa lá bebem dois copinhos de vinho branco, repetindo de seguida o pedido com croquetes,  com rissóis, e como não há nada disso continuam a beber os tais copinhos de vinho branco  ....
É uma cena que ficou na nossa memória.
Lembro-me disto pelas opções que os economistas do governo vêm escolhendo sobre o modo como querem aumentar as receitas. Lembraram-se de cortar nas despesas, o que é uma opção embora se saiba que não é a única. Mas as despesas que eles querem cortar são sempre as mesmas, as referentes às reformas e a salários de quem trabalha para si. Da primeira vez explicaram-lhe que isso é descriminar trabalhadores, e portanto é ilegal, a Constituição não permite.
- Ah é? Então vamos cortar só parte do que ganham.
- Não, é o mesmo, estão a descriminar.
- Oh! Então vamos cortar parte das pensões.
- Não, continua a ser ilegal.
- Então vamos cortar os subsídios.
- Não! É o mesmo.
E, como o casal dos velhotes do filme, (embora nessa história antiga ela procurasse um pretexto para se embriagar...) vão sugerindo variações do mesmo tema que só pode ter uma resposta.
E a "culpa" é do empregado que não lhes serve os pastelinhos de bacalhau/croquetes/rissóis/pataniscas etc, porque se assim fosse já não pediam os copinhos de vinho branco!
Fico aqui a pensar quando oiço que um importante deputado considera que  o Tribunal é um problema... 
Ah, pois é! E o caixa do Banco que nos recusa um cheque de um valor superior ao nosso saldo. E o porteiro do cinema que exige que tenhamos bilhete para entrar. E o polícia de trânsito que apita se passamos com um sinal vermelho. São cá cada problema, com a mania que se devem cumprir as as regras e as leis.
Que grandes chatos!


 
Cereja