domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma mulher maravilhosa

Coincidências.
Na minha mais recente crise de arrumação enérgica, entre diversas coisas que mudei de lugar estava uma moldura com uma foto - muito boa! - da minha avó. Uma das minhas duas avós, que tive duas como todos nós e felizmente convivi e lembro-me muito bem das duas, mulheres muito diferentes. Mas é àquela de quem mais gostava e com quem mais convivi que me quero referir.
Do local onde escolhi para a foto ficar agora vejo-a quer ao deitar quer ao acordar e foi uma bela ideia, porque ver a sua expressão aquece-me por dentro e dá-me força. Ela foi uma mulher excepcional de quem por mais que me queira distanciar não consigo encontrar defeitos, não se aplica a frase "era assim, mas". Não havia mas. Carinhosa, inteligente, activa, decidida, culta, generosa, alegre, bonita, compreensiva. E não apenas comigo que fui a única neta durante muitos anos, ela era assim com todos. Juntava a bondade (ná, não era boazinha, era boa, generosa) com a inteligência.
A coincidência que me levou a escrever isto é que neste Natal jantámos em casa de uma amiga e vieram à baila recordações, como acontece muito nestas quadras. Perante o olhar admiradíssimo do meu filho, a minha amiga A**** desfiou cenas atrás de cenas da história da sua família, muito tradicional e conservadora, e sobretudo contou atitudes inacreditáveis do seu pai profundamente autoritário. Era um tempo em que uma menina não podia fazer isto e aquilo por ser menina, ou tinha de fazer assim e assado exactamente por ser menina... Rebelde como ela era a sua adolescência foi uma batalha campal!!!
E o seu destino estava traçado pelo pai. Lá pôde estudar, mas na Faculdade de Letras que sempre eram estudos femininos, e tinha uma arca cheia com o enxoval que levaria junto ao dote quando casasse com o rapaz que a família aprovasse,  cujo lar ela iria gerir com tudo o que tinha aprendido das "ciências domésticas", e a quem daria uns bebés de quem já tinha aprendido a cuidar com aulas de puericultura... (não estou a inventar nada, ela contou isto mesmo assim, juro!)
Mas onde entra a coincidência sobre a foto para onde estou agora a olhar, é que às tantas ela diz-me:
- A tua avó era fabulosa!!! Sabes que nunca mais esqueci, quando a conheci e falámos do nosso futuro, em relação a estudos, casamentos, coisas dessas, ela, com aquele arzinho dela, sorriu e disse-me "Para a minha neta, eu quero é que ela seja feliz. Como ela quiser, que faça aquilo que a fizer feliz"
Eu já não recordava tal conversa mas minha amiga não esqueceu, dezenas e dezenas de anos mais tarde, o invulgar respeito da atitude da minha avó. Ela não impunha modelo nenhum, mesmo que pensasse que seria o modelo ideal. Sabia que o ideal dela talvez não o fosse para os outros, e desejava que eu realizasse o meu futuro como eu gostava.
Ela era assim.
Mas o que eu mais gostava era de ter conseguido ser como ela!!!




Cereja

domingo, 22 de dezembro de 2013

A festa de Natal

Chegada esta altura do ano erguem-se dois grandes grupos em confronto: os que questionam toda-esta-palermice-das-festas-obrigatórias-e-consumistas e os que se integram num movimento geral, e espalhado por todo o mundo, de celebrar estas datas.
Compreendendo a posição dos primeiros, integro-me nos segundos. Não quer dizer que vá sinceramente festejar o nascimento de um chefe de uma religião, uma vez que não tenho um pingo de sentimento religioso, assim como o equinócio não me diz lá muito... Mas sinto que as sociedades humanas têm de  devem ter momentos de festa colectiva e esta data assim como o fim-do-ano são as mais fáceis de 'colectivizar'
Por outro lado há as recordações de infância. Pelo meu lado são muito doces e com imenso afecto e ternura. Os meus "natais passados" só me trazem boas recordações, a família no que tinha de melhor. E não, não recordo especialmente as prendas, coisa que nunca foi primária lá em casa nem recordo que se fizessem muitas compras nessa altura, o importante para mim era o ambiente de festa, a casa enfeitada, a mesa onde nos reuníamos todos, os doces típicos, primos que vinham de longe, e uma grande animação. Até me deitava mais tarde e tudo! E recordo os cheiros, os risos, os sabores, as cores, a casa muito mais agitada e alegre. Era Natal!
Com o uso do alargamento de presentes para além das crianças e adultos da família mais próxima - como era nesse tempo -  à família mais afastada, a amigos, filhos de amigos, colegas, etc, nasceu uma onda de gastos e preocupações que transformou o espírito que eu gostava. Tornou-se uma obrigação, um frete... Oiço pessoas a lamentar-se do tempo e dinheiro que gastam nesse ritual que perdeu o sentido original. E, aí, já entendo a embirração do tal grupo que detesta esta época do ano, e que  se vai alargando a olhos vistos ( três das minhas amigas que aceitavam calmamente esta época passaram para o grupo "anti" com um radicalismo que me surpreendeu). E um efeitos positivo da crise económica (?!) talvez tenha sido o reduzir esse círculo das "prendas obrigatórias" socialmente para o que seria normal, apenas a família próxima!
Mas quanto à Festa de Natal, eu cá gosto dela.
Gosto de fazer os doces tradicionais.
Gosto de enfeitar a casa.
Gosto das luzes, das cores, dos cheiros, da música, da animação.
.... e daqui a uns dias acaba tudo e só nos fica a recordação.
E gosto de recordar, mesmo que sejam imagens de velhos cromos.




gifs e recados animados - animakut.com



Cerejas

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Querido, arrumei a casa!"

Tenho um defeito uma característica: gosto de coisas arrumadas. Ná, não chega ainda a ser obsessão. Um pouquinho de desarrumação à vista não me perturba nada e até dá um ar cosy e confortável ao ambiente. Mesmo um quarto de hotel, quando o habito, gosto de lhe dar um aspecto um pouco desarrumado para parecer 'habitado'. Mas...
Abrir uma gaveta ou um armário e encontrar tudo amontoado de qualquer maneira, olhar para uma mesa ou um sofá e ver jornais, roupa, medicamentos, chávenas e copos usados, cds, carregador de telemóvel, canetas, tudo ao monte deixa-me muito desconfortável! Já passei pela vergonha de dar comigo, distraidamente, a fazer montinhos pondo as coisas numa certa ordem, na mesa do centro em casa de amigos!
Mas, a razão de estar a escrever isto, é que na minha casa de vez em quando dá-me um vaipe (este fim-de-semana por exemplo) e dá-me para despejar algumas cómodas ou armários e arrumar tudo melhor!!! E querem saber? Fica mesmo melhor! Porque como ela é pequena, se as coisas ficarem bem empilhadas, ou umas dentro das outras, ganha-se espaço e "espaço é ouro" nestes casos. Claro que para isso resultar melhor convém reconhecer que as coisas que se foram guardando porque-podem-vir-a-servir não vão servir mais e dar-lhe outro destino. Recordo uma vez onde uma amiga se queixava de não ter dispensa. Como a cozinha dela era maior do que a minha não percebi porque lhe fazia tanta falta a dispensa e fomos ver como ela tinha gerido o espaço, e descobri que um armário inteiro estava ocupado com caixas de plástico. Despejando aquilo, guardando apenas as que tinham tampa a condizer, e encaixando as pequenas dentro das grandes ela de repente ganhou 3/4 desse armário que já chegou para arrumar as mercearias todas!
E também se torna mais fácil e rápido ir buscar seja o que for porque sabemos exactamente onde está. Uma vida mais descomplicada...
Ando agora a pensar se não poderia oferecer os meus serviços às pessoas que não têm tempo e paciência para arrumar seja o que for. Na linha do "Querido, mudei a casa!"
Podia chamar-lhe "Querido, arrumei a casa!" e se calhar ia ter saída.


Cereja



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Acho-lhes uma graça!

A porcaria do estado a que já chegámos, economicamente falando, faz com que se tornem gritantes as dificuldades de quem tem ainda menos do que nós, e parte-se-nos o coração ver a miséria que por aí anda. E, é claro, que cada um à sua maneira vai ajudando no que pode e conforme pode (às vezes até nem se nota, porque pode ser simplesmente não diminuir as horas da mulher-a-dias mesmo que  o nosso salário a nossa reforma tenha baixado bastante)
Mas toda a gente sabe o que fazer se quiser ajudar. Não acredito que seja quem for fique embaraçado ao desejar dar seja o que for por não-saber-como-fazer! Por isso me irritam um pouco as campanhas que aparecem por todo o lado a proporem generosamente "canalizarem" os nossos donativos. Isso é geral, é internacional, viajei de avião na semana do tufão nas Filipinas e às tantas fomos informados que iria passar pelo corredor um dos assistentes de voo com um saco para deixarmos lá ficar o dinheiro que nós quiséssemos dar para eles enviarem para lá!
E agora é por todo o lado. Uma cadeia de supermercados que pergunta se "queremos arredondar" quando chegamos à caixa, e esse "arredondamento" é para eles oferecerem às pessoas que precisam. O metro - e os outros transportes creio eu - propõem agora recolher roupas e alimentos que os utentes queiram deixar ficar para eles os enviarem a necessitados.  Para não falar no famoso Banco Alimentar que periodicamente nos apanha à saída dos supermercados e nos faz sentir envergonhados se, para além dos produtos de que necessitamos, não pagamos mais um quilo de arroz, uma lata de salsichas e uma garrafa de azeite aumentando as vendas e o lucro desses supermercados. 
E por aí fóra. 
A proposta é: "dê-me a mim que eu dou aos outros".
Uma espécie de grandes empresas distribuidoras de caridade.

Mas por alma de quem?! 

Cereja

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O elogio da paciência





Acabo de ler um anúncio - um daqueles anúncios "tapa-texto" que gostemos ou não temos de suportar se quisermos ler um jornal on line... -  que oferece: "Para os que não aguentam esperar" etc, etc.
Se a publicidade, que sabe muito bem o que faz, escolhe um texto onde apela a "quem não aguenta esperar", é porque vai tocar numa corda importante. (recordo-me de outro anúncio, há alguns anos, que dizia "Querer é Ter", era de um Banco, claro!) É porque há uma enorme percentagem de consumidores que reconhecem que "não-aguentam-esperar". Pois há!
As pessoas que andam à volta das questões da psicologia sabem que "a satisfação do prazer imediato" é, ou pode ser, mau. Desejar seja o que for, e obtê-la de imediato, dá gosto é verdade, mas um "gosto pequenino", que se desfaz num ápice como o algodão-doce com que nos lambuzávamos na nossa infância. E que cria um hábito ou uma expectativa que vai contaminar os outros desejos, cada vez mais se vai querer que diminua o tempo entre o 'querer' e o 'ter'! E a frustração cresce a um ritmo alucinante... Quantas vezes ouvimos "se não é para agora também não quero!" na queixa de uma criança ou na resmungadela de adulto...?
A frase daquele anúncio deixou-me a pensar porque ainda este fim-de-semana eu e uns amigos falámos da galopante incapacidade de esperar que a nossa sociedade anda a promover, e como isso ataca a educação das crianças assim como a capacidade de resistência à frustração. A necessidade de ter "tudo e já!" que agora parece estar a ter uma quebra graças (?) à crise económica.
Que me perdoem a heresia, mas esse aspecto é o único que vejo como "fogo amigo" do pesadelo desta crise - o reaprender-se a valorizar a espera, assim como aproveitar-se tudo como faziam os nossos pais.
Quando se deseja alguma coisa, o 'tempo de espera' entre a ideia nos ter ocorrido e a sua concretização é um tempo privilegiado. É o sonho. Desejo um brinquedo e imagino como vai ser, o que vou sentir quando o tiver nas mãos, como vou brincar com ele, saboreio tudo na minha imaginação. Gostava de fazer uma viagem, e penso que transporte é possível, onde vou ficar, o que vou ver, que tempo fará, planeio-a... Preciso de um móvel para casa, e vejo em várias lojas, imagino onde o vou pôr, talvez até mude o local dos outros, sonho com isso.
Essa emoção intermediária entre o desejo e a sua concretização, o saborear antecipadamente o prazer, é excelente. Nem todos o vivemos do mesmo modo, e as crianças devem ser ensinadas a aprender o gosto disso, mas acreditem que vale a pena.
E os pais que ingenuamente oferecem de imediato aquilo que os filhos pedem sem os ensinar a esperar, sem lhes mostrar como é bom ter paciência, não entenderam que lhes estão a roubar um importante direito - o direito ao sonho!

Cereja




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Até sempre!

Por todo o Mundo, toda a comunicação social, todas as redes sociais, toda a gente em suma, fala hoje de Nelson Mandela. Finalmente uma maravilhosa unanimidade num tema positivo - uma vida que marcou a diferença no mundo.
Este Homem veio mostrar que afinal o que se julgaria um sonho é possível.
O Luther King teve um também, e muito lutou por ele mas não chegou a vê-lo realizar-se.
Mandela também lutou imenso, e ele sim, conseguiu viver até ver o seu sonho.
......................
Nos anos 50 vivi em Moçambique. Ali, paredes meias com a África do Sul. Assisti ao violento racismo dos afrikanders. Nojento, revoltante. Quando à saída do comboio já se era seleccionado, nós devíamos  passar por uma porta que dizia "white" e todos os outros pela que dizia "non white". E essa porta de entrada nesse mundo de profunda segregação era também simbólica, entrava-se num inferno onde a mistura era proibida e punida. E a arrogância era tal que se varria para o mesmo monte tudo o que não fosse branco, com 4 avós brancos. Negro, indiano, chinês, e todos os possíveis cruzamentos, iam para a mesma porta.
O que depois queria dizer para um mundo diferente.Transportes diferentes, escolas diferentes, cinemas diferentes, jardins diferentes, bairros diferentes (claro!!!) hospitais diferentes, lojas diferentes. Bom, escuso de dizer que a diferença era para pior, claro!
Nesses anos, era muito nova mas acreditava no que ouvia os meus pais dizerem: um dia aquele sistema vai rebentar e num banho de sangue. Era o corolário óbvio: impossível viver-se tanto tempo debaixo de um tal desprezo sem que a tampa da raiva salte com enorme violência.
E afinal os milagres acontecem.
A força e o carisma deste homem conseguiram-no. 
Madiba, o líder incontestável com a sua grande força, aguentou aquela gente e o país renasceu.
Merece tudo o que dizem dele.
Merece o respeito e admiração de todo o Mundo.
Como escreveu um amigo no facebook:
 "Adeus Madiba, até um dia destes!"


Cereja

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Brinquedos

Tenho andado a coleccionar os antigos "Jogos Majora", que o Correio da Manhã num momento de inspiração decidiu publicar. Talvez seja saudosismo, mas aqueles jogos de tabuleiro têm o condão de me reconduzir à infância de um modo mágico. São duas coisas que me avivam a memória de um modo fantástico: os cheiros e os brinquedos.
Quando era criança havia muitíssimo menos brinquedos pré-fabricados. Menos?! Que parva! Hoje há, podemos dizer, brinquedos-que-se-compram, mas quando eu era pequenita não. A boneca vinha da loja mas todos os seus vestidos e adereços eram feitos em casa. Davam-me uma ou duas panelinhas, mas o fogão era feito com umas caixas, o jantarinho  umas ervas que descobria no quintal, a toalha da mesa um lenço. Brincava às escolas sentando as bonecas no chão, e apanhando folhas de papel já usado para fazer de caderno. Etc. Eu tinha brinquedos sim, até achava que tinha muitos, mas grande parte eram inventados feitos por mim. E via os rapazes fazerem corridas de carros ou jogos de futebol com caricas, que guardavam numa caixa de sapatos.
Mas havia também os jogos de tabuleiro, uns com caixa e dados e peões, outros tipo dominó, outros com perguntas. E guardava-se com cuidado, fechava-se bem a caixa, e duravam anos e anos...
Ok, ok, agora é diferente. Ouvi há pouco uma conversa sobre um brinquedo chamado playstation (uma "estação de brincar")  que custa quase, quase, o salário mínimo nacional... E até dizem que com aquilo se pode brincar sozinho.
Tempos diferentes, é claro. 
Tempos onde para além de se comprar tudo já feito, se dá um valor enorme ao preço. Há uns meses entrei numa loja de brinquedos, a Toy's R Us creio. Sabia o que queria, despachei-me depressa, mas depois sou abordada por uma senhora de meia idade, muito atrapalhada. Pediu-me conselho sobre o que devia levar. Era para um menino de pouco mais de um ano, e acentuou que era rapaz. Olhei à volta com boa vontade, vi um expositor cheio de bolas e aconselhei "Olhe, leve uma bola! As crianças gostam de bolas, empurram-na, correm atrás dela, e ele daqui a pouco já sabe dar pontapés!" Ainda por cima ela acentuou bem que era rapaz o que encaixava no estereotipo. Ná! Viu o preço (era barato!) e queixou-se que era demasiado simples... e lá ficou, perdida no meio das prateleiras.
Mas digo uma coisa, também convivo com crianças e sei muito bem a graça que acham aos jogos antigos que eu tenho, iguaizinhos a estes reeditados da Majora, que estou a coleccionar.



Cereja

sábado, 30 de novembro de 2013

Os "outros" e a auto-estima

A velha ideia do Sartre, posta em cena em Huis-Clos, de que "o inferno são os outros" (o que aliás dito assim é uma redução errada, do que ele nos fala é do olhar dos outros, coisa diferente) está constantemente a ser provada. Viver-se em sociedade, como tem de ser, implica que estamos sempre em maior ou menos escala a interagir, e as nossas emoções mais básicas dependem de como reagimos perante o aplauso ou censura implícitos na enorme maioria das interacções sociais.
A auto-estima, por exemplo, de que se tem actualmente mais consciência constrói-se desde pequenino mas continua a ser reforçada ou diminuída até sermos velhos.
Claro que nestas coisas só posso falar por mim, e sei que sou muito demasiado sensível talvez ao modo como me tratam - um sorriso e uma frase simpática abrem uma clareira azul num céu nublado e uma resposta seca ou agressiva podem estragar-me o dia. E há profissões que para além da competência técnica deviam treinar o seu relacionamento. Estou a pensar nos médicos.
Quem procura uma opinião médica está numa situação de dependência e fragilidade. Oiço de vez em quando a frase "eu não gosto de médicos!" que só pode significar isso, não gostar de se sentir indefeso e dependente. E a verdade é que o modo como o médico se relaciona com o doente pode ser responsável por parte do sucesso ou insucesso de um tratamento.
Há poucos meses precisei de recorrer a um especialista que não consultava há anos. Não tinha sentido urgência e as consultas eram carotas, mas daquela vez teve de ser. Saí do consultório a sorrir porque já me tinha esquecido que simpático ele era. Valorizou tudo o que eu contei, recebeu-me como se tivesse todo o tempo para mim, e até criou um clima de cumplicidade com base na idade que os dois tínhamos. Aquela meia hora foi como se tivesse também sido agradável para ele...
Ontem tive a experiência oposta. Uma consulta no Centro de Saúde com uma médica que no relacionamento era a versão feminina do Dr. House mas sem nos dar a sensação de competência dele... A minha queixa foi recebida de um modo desdenhoso, e as perguntas que me fez pareciam querer apanhar-me em contradição. Só olhava para mim quando tinha mesmo de ser. No final da consulta tive de perguntar se já podia sair porque como nem olhava para mim nem dizia nada fiquei ali embaraçada... E note-se que a sala de espera estava vazia, nem havia a pressão do tempo!!!
Se se fizesse um gráfico, a minha auto estima à saída do primeiro médico de que falei estava bem acima da linha da média, ontem estava bem no fundo a sentir-me estúpida e ignorante...
O modo como nos olham faz toda a diferença, sim, Jean-Paul!





Cereja

  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ganda roubo!!!

 Não me costumo deter em fait-divers, mas este merece reflexão.

Sabemos todos, muitos de nós por experiência directa, como os tribunais estão super-lotados. Sem falar nos grandes processos que de tão pesados parece não andarem e após anos e anos acabam em prescrição, nas nossas queixas de todos os dias é sabido que tudo se arrasta um tempo sem fim, com a justificação de que há muito trabalho e os tribunais não despacham as coisas depressa. 
Daí que tenha ficado pasmada quando li uma história de pasmar.
Um "colectivo de juízes das Varas Criminais de Lisboa" reúne-se para decidir sobre este caso:
a) Alguém ligou para uma casa de venda de pizzas e encomendou 3 pizzas, mais uns sumos e uns gelados. O que dava uma conta carota, que 35 euros já dinheiro! Mas o entregador de pizzas ao chegar à morada, antes de sair da mota apanha com alguém que lhe diz: "Passa para cá as pizzas!" e zás, foge com elas. Outro "alguém" segura a mota para dar tempo ao fugitivo de escapar com o petisco, e depois desaparece também.
b) Depois de apuradas e difíceis diligências, é detido o criminoso que só-podia-ser o rapaz que encomendou as pizzas... Fácil, não? (eu, que leio Agatha Cristie, Ellery Queen, Standley Garden, S.S. Van Dine desde pequena ocorrem-me ideias muito originais e extravagantes  tais como dois amigos que iam a passar e ao ver um entregador de pizzas parar decidem o arrojado assalto)
c) O facínora detido, de 16 anos, nega. Mas acaba por ser identificado numa fila com mais 3 homens, por acaso bastante mais velhos. O "assaltado" diz que lhe parece que é aquele que o agarrou, até porque, refere ingenuamente, os outros eram "adultos e muito diferentes" e portanto "daqueles 3 só podia ser o arguido"
Já está! O caso vai a tribunal e o Ministério Público em voz grossa decide:
"Vivemos num país civilizado e este tipo de brincadeiras não se pode aceitar". Assim sendo pede a condenação do rapaz de 16 anos que se dizia inocente, mas com estas terríveis provas ficava esmagado.
Mas ainda ficamos em suspence mais umas semanas que o colectivo de juízes vais reunir de novo. Oooooh! O que irão estas almas decidir de um caso tão complexo e grave. 
Talvez pedir ajuda ao CSI?



Cereja



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Violência sem travões

Não é de hoje, já sabemos. 
«Maria! Não me mates que sou tua mãe!» escrevia o Camilo e a história dizem que era verdadeira - não só a rapariga matou a mãe como lhe cortou a cabeça! É claro que o ser humano é agressivo e violento, e nos séculos passados via-se isso bem com guerras terríveis onde proporcionalmente se matava imensa gente, mas, enfim matava-se um a um que uma espada só apanha uma pessoa de cada vez...
A mim, talvez influenciada por andar nos últimos tempos a comprar o Correio da Manhã para completar a colecção dos jogos da Majora, parece-me que ultimamente a violência anda desenfreada. Até porque os jornais deste tipo não inventam, apenas dão mais relevo ao que já existe. E são casos uns a seguir aos outros: assassínios, suicídios, acidentes estranhos, roubos com violência, atropelamentos, raptos, terminando este enumerado com a terrível violência doméstica que nos dá o número assustador de mais de 3 mulheres mortas por mês pelos seus companheiros.
Como já disse, é claro que sempre houve violência ( o que não consola nada!) mas não me recordo de tanta em tão pouco tempo. Possivelmente as coisas estariam mais escondidas quando eu era criança e adolescente, talvez houvesse mais pudor em se falar nestes assuntos... 
E é esse pensamento que me fez escrever isto hoje. Claro que pode ser hipocrisia não falar dos assuntos, como se diz varrer-o-lixo-para-debaixo-do-tapete. Não é por a comunicação social não falar que as coisas não sucedem, é claro.
Mas o que me preocupa e sobretudo quando penso na educação das crianças, é na banalização desta agressividade. É claro que os desenhos do Walt Disney também eram violentos. Eu tinha 4 ou 5 anos quando vi o Bambi e chorei com grandes soluços, e as bruxas, madrastas, fadas más eram terríveis, isso nem se discute. Mas comecei a franzir o sobrolho há 20 anos com o Dragonball, já não gostei dos mortos a ressuscitar, aqueles monstros, e a facilidade com que se exterminava os adversários. Hummm....
Mas hoje isso já parece ingénuo. Há os vampiros, os mortos-vivos, lobisomens, zombies de diversos formatos e as crianças trocam cromos e riem-se de imagens que podiam arrepiar mas pelos vistos até são divertidas. Os filmes de terror é que estão a dar. É bom sentir medo. É engraçado. Ver a imagem de um ser humano (ou que não seja humano!) estripado, com os miolos de fora, com os membros cortados,  sem cabeça, faz rir muitas vezes.
Bom, eu não acho natural. 
Para mim o excesso de proximidade com imagens de enorme violência, desvaloriza-as, banaliza-as, e pode (digo apenas que pode...!) não se vir a  reconhece-la no mundo real como ela é. O miúdo que há pouco tempo esfaqueou uns colegas numa escola tinha dito pouco tempo antes "Era formidável fazer um massacre! " e dizia ter um plano para matar 60 pessoas. Para se divertir.




Cereja

domingo, 24 de novembro de 2013

A questão da Saúde

Quando li ontem a exigência orwelliana acerca do controlo de quem fuma   mais do que indignada, fiquei chocada. É uma exigência que visa certamente condicionar nalguns casos o acesso pleno à saúde, coisa que me custa compreender.

De vez em quando dá-me para explicar alguns dos meus sentimentos actuais pelo meu passado. Não sou só eu que penso assim, claro, creio que toda a gente é em parte fruto das suas experiências no início de vida. Ora a minha vida em criança baseava-se em pontos que considerava inquestionáveis. Nascida em pleno salazarismo, numa família classe média a sofrer fortemente pelo seu anti-fascismo, cresci num ambiente de grande contenção económica. Muito poucos vestidos, feitos em casa ou herdados de outras pessoas para além de andar sempre de bibe, os sapatos compravam-se no número acima para durarem mais tempo (punha-se algodão na biqueira...), comia-se bem mas só produtos de época e tudo se aproveitava, as distracções dos adultos para além da leitura, eram visitas aos amigos ou passeios a pé.  Havia um rádio, é verdade, mas sobretudo para ouvir notícias.
Mas para a Cultura, Educação ou Saúde não sentia tanto a restrição. A biblioteca lá de casa sempre foi grande, e aumentada permanentemente com ofertas de autores ou editoras, empréstimos, trocas, e algumas compras é claro. Os pais eram amigos de bons pintores e as nossas paredes eram uma mini-galeria. Tinham também amigos no teatro e iam ver muita coisa com bilhetes de oferta. Eu vivia mergulhada num ambiente de grande cultura por "culpa" das amizades dos meus pais e não percebia que aquilo se comprava...
O mesmo com a Educação. Andei sempre no ensino público, tinha a noção de que se pagava pouco por isso, os livros eram herdados de primos mais velhos que os estimavam como eu estimei, o gasto era de artigos de papelaria mas eram poucos. Nunca senti que isso fosse um peso na minha família.
E depois a Saúde. Os meus pais tinham vários amigos médicos, além de um primo direito (mas a quem se recorria pouco) e lá nas brumas de infância nem me recordo de ir a um consultório eram eles que vinham a casa... Assim como os meus pais, não ouvia entre várias queixas nenhuma sobre questões de saúde por dificuldade de acesso. Mesmo medicamentos, creio que esses amigos traziam muitas amostras mas quando era preciso ir à farmácia não recordo que fossem contas muito grandes.
E o tempo foi passando e o meu modelo a manter-se. Mesmo na adolescência e princípio da idade adulta, com essa rede-de-amigos-médicos, a resposta fácil da Saúde sempre foi um dado adquirido.
É certo que já adulta, o conhecimento do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra era um modelo a desejar, mas por ser nova e ter saúde não estava entre as minhas maiores preocupações.
...............
Talvez por isso o acordar para a realidade tenha sido tão complicado. O perceber que a qualidade da resposta neste campo depende do dinheiro que se tem, foi para mim como um choque eléctrico.Não estava preparada, imagine-se! Era algo inconcebível até há pouco adiar uma consulta até receber o ordenado/reforma...???
Só posso sentir que tive uma vida muito mimada e que a força das redes de amizade era bem maior do que eu julgava. E este extraordinário controlo dos fumadores (e eu não sou fumadora!!!) através do Boletim de Saúde dos filhos visando claramente uma maior economia da resposta veio chamar-me a atenção para a distância que me separa dos dias da minha infância.



Cereja

PS - Já tinha publicado este post quando li o desmentido do Ministério da Saúde. Não sei se foi excesso de zelo da jornalista, se o Ministério se explicou mal, se... Mas de qualquer modo ainda bem.