segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Taxas "moderadoras"

Quando se fala em «taxas moderadoras» está implícito que é na saúde. 
(antes de vir escrever este post fui googlar a expressão obtive 1.300.000 resultados e, apesar de não os ver todos, pesquisei muitas páginas sem ver qualquer referência a uma 'taxa moderadora' aplicada a outra coisa - a saúde é que convém moderar)
Um dos malefícios do excesso de séries norte-americanas que a nossa tv transmite é o começarmos a aceitar com naturalidade o modelo de saúde existente por lá. Saem frequentemente do nosso pequeno ecrã situações de famílias desesperadas porque o seguro que tinham não cobria aquela doença da mãe, ou do filho, ou do irmão... Vemos médicos consternados a explicar às família que não podem salvar doentes porque o seguro não cobre aquela doença. Ou então porque são pobres e nem seguro têm. Uma série chamada em português Jogo de Audazes é baseada exactamente nesta ideia: «um homem trabalhava para uma companhia de seguros que recusou pagar um tratamento para o seu filho que por isso morreu» . Ele então decidiu então «roubar os ladrões».
E assim vamos, paulatinamente, aceitando que é normal não se ser tratado quando não se tem dinheiro.
Nós por cá nunca tivemos essa experiência, de um modo tão radical. E com a criação do SNS qualquer cidadão tinha acesso à saúde, e até saúde de qualidade - quem desejasse um atendimento mais rápido ou mais atencioso tinha o privado que sempre existiu. Há 20 anos Cavaco Silva lembrou-se de criar as «taxas moderadoras». O termo sempre me incomodou. Se procurarmos a definição de moderar, lemos que é «conter-se, não se deixar levar pelas próprias paixões ou apetites» Ah, sim? Então convém não nos deixarmos levar pela paixão e apetite de ter saúde?... De facto, olhem que ideia essa heim?! Essas hordas esfomeadas a exigirem saúde têm de ter tento, calma aí, nada de exageros. Moderem-se, que diabo!
E, agora, descobriu-se que o Ministério da Saúde deve imenso dinheiro, não por má gestão decerto, coitados,  mas porque os gulosos dos utentes exageraram nas consultas a que recorriam (quando não sabiam como passar o tempo iam a uma consulta ao hospital só para ver se estavam bem ). Portanto, vamos mas é aumentar o preço dessas consultas para ver se conseguimos mais algum direirito e já agora abrir caminho aos doentes para o universo dos seguros de saúde, que o senhor ministro conhece tão bem.
Num artigo de opinião o José Manuel Pureza diz que ouviu em tempo a frase "Melhor negócio que a saúde só mesmo a indústria de armamento!"
Mas os clientes de metralhadoras e bombas não estão a ser moderados.
A moderação exige-se a quem sofre e está aflito.
Assim vai o nosso Natal, assim se apresenta o ano que aí vem.




Pé-de-cereja

8 comentários:

mary disse...

Está duro este post, mas correcto.
Não tinha pensado que realmente o modelo americano (que aliás o Obama tem em vista alterar) faz com que se aceite menos mal o andarem a impingir-nos os seguros de saúde...

sem-nick disse...

Muito bom este post! Bravo, Cereja, é isso mesmo. MODERAR?!

Saltapocinhas disse...

também não acho grande piada ao nome, mas concordo que se pague.
há muita gente que vai passear ao hospital, pode ser que esses pensem 2 vezes.
depois, os tratamentos esses sim, devem ser completamente gratuitos para todos.

pé-de-cereja disse...

Querida Saltapocinhas, gosto muito de ti e numa esmagadora maioria das vezes concordo inteiramente com as tuas opiniões. Desta vez nem a entendo bem, deves ter umas experiências estranhíssimas... Ou as minhas é que são estranhas, talvez.
O que eu sei é que se vai a um hospital ou para uma consulta ou a uma urgência. As consultas, na minha prespectiva demoram meses e meses. Não vejo como é que se programa «um passeio» para 10 de Abril às 10 horas. Não tenho que fazer nesse dia?! As urgências, que conheço um pouco melhor por acompanhamento de doentes, fazem um rastreio e quem não prova ser urgente recebe uma senha verde o que lhe «permite» esperar 7, 8, 10 horas por ser atendido no meio de gritos, choros e ais. Que raio de modo-de-passar-o-tempo.
(mas aceito que a tua experiência seja completa e totalmente diferente da minha)

fj disse...

salpocinhas:não me parece que haja assim tanta gente que va passear ao hospital´È mais habitual nos Centros Comerciais.
Porque se há-de pagar ao ir ao Hospital? o que interessa é o tratamento e 20 euros ainda é dinheiro para muita gente! E especislmemte não havendo alternativa.´
É uma discordância ligeira mas gostava de saber os teus argumentos.

Zorro disse...

A nossa Saltapocinhas tinha prevenido no Fábulas «vão-me bater, mas...» Eu li e achei graça. Aqui a Emiéle respondeu um tanto ao post dela, acho eu. E, como acabou de dizer aqui o FJ, não se entende bem a ideia do «passeio» ao hospital em alternância ao Colombo...
:)
Mas estou como os outros, simpatizo tanto com a blogger em questão, que penso que ela deve ter umas razões que não estou a ver.

Joaninha disse...

Aparentemente está cada vez pior...
A saltapocinhas tem alguma razão (não no passear) afinal 5 euros é o preço de um cinema. O impressionante é a subida galopante, de 5 para 10, de 10 para 20.
E, claro que os tratamentos em si, não são nada gratuitos, como sabemos. Mas deviam ser, como sugere a saltapocinhas.

Joaninha disse...

Ainda dentro do tema, e atrás do comentário 'provocador' da saltapocinhas, temos o caso dos medicamentos. Aí sim, sei de vários casos onde pessoas com poucos meios e ideias confusas, recusam ou têm medo de tomar genéricos porque «se é mais barato não deve fazer bem». E tomamos por vezes coisas não necessárias porque houve quem nos recomendasse... (ão falo de médicos, claro está)