quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Casa onde não há pão

Ontem, ainda quase não me tinha levantado, recebo um telefonema de uma amiga muitos assustada. «-Como estás? - perguntou cortesmente; e de imediato: - Já ouviste a Lei das Rendas?»
Eu tinha ouvido qualquer coisa na véspera e nesse dia de manhã, mas ainda não estava bem informada. Ela que, como eu, tem uma renda 'antiga', estava em pânico. Uma actualização pura e dura, de repente, era o caos! Vou-me informar melhor e vejo que nem inquilinos nem senhorios estão felizes.



Senhorios: Sabemos ser verdade - existem senhorios que, apesar de possuidores de prédios, vivem muito pior do que os seus inquilinos. Prédios que foram herdados já habitados por inquilinos que pagam rendas de 20 ou 30 euros (ou até menos ainda....) não são nenhuma fonte de rendimento, pelo contrário. Tenho amigos e amigas nessas condições, onde é impossível fazer as obras necessárias e para pagar os impostos é uma dificuldade. E, ainda por cima, como é evidente, são prédios velhos que precisam de facto de ser conservados... Mas a proposta de lei é que os inquilinos façam uma proposta de renda e se os senhorios não concordarem com ela podem despejar os inquilinos desde que lhe paguem 60 meses da renda (+ ou - uns 5 anos) o que os senhorios acham uma exorbitância. Mas, a verdade é que se as rendas forem minúsculas, um ano corresponde aí a um mês da renda nova. Vale a pena para os senhorios.
Inquilinos: Mesmo os que são da classe média (cada vez menos «média») têm o seu orçamento organizado para a renda que estão a pagar. Um aumento relativo, uns-tantos-por-cento, será possível mesmo que calhe muito mal, mas uma «renda actual» é IMPOSSÍVEL! Corresponde a perder de um mês para o outro metade do ordenado ou quase!!!
Mas, como sabemos, nos últimos anos foi muito incentivada a compra de casa para habitação. Isto é uma bola de neve.... As rendas antigas estavam congeladas de forma que os senhorios pediam rendas bem altas para não ficarem «presos» a uma renda pequena em que não podiam mexer. Ora assim as rendas novas eram tão altas que mais valia pagar pela mesma quantia um empréstimo bancário. Quem queria uma casa nos últimos 10 ou 20 anos, quase sempre procurava comprar, portanto esta nova lei talvez não apanhe tanta gente como seria o caso em que o arrendamento fosse normal. Mesmo assim, as pessoas que arrendaram a casa «no antigamente» ainda são imensas e pelo que entendi estão em pânico.
Enfim, vamos ver o que vai de facto ser aprovado e como se pode regular esta coisa.
Mas já dá para entender que ninguém está satisfeito.




Pé-de-Cereja

8 comentários:

pé-de-cereja disse...

Queria acrescentar uma coisa, e o melhor é deixá-la como comentário:
Não podemos esquecer que nas casas de rendas mais moderadas habitadas pela tal «antiga classe média» todos os benefícios da habitação têm sido suportados pelos inquilinos. E enormes tantas vezes! Paredes pintadas e restauradas, canalizações novas, janelas novas e portas novas, chão afagado e envernizado, casa de banho moderna, cozinha moderna... etc. Tenho amigos que se fossem obrigados a sair este mês de casa o senhoria a alugaria sem gastar um euro a mais; em contraste com outro amigo cuja casa depois de habitada um ano por um inquilino precisaria de obras pelas quais pediram 5 mil euros!!!!

Anónimo disse...

Muito oportuno este post!
O importante é mesmo aquilo a que chamas a atenção: para além de gente muito pobre que vive em casas degradadíssimas mas para as quais os senhorio nunca poderia pedir uma renda decente sem investir em obras caríssimas, quem vive em casas alugadas de «renda económica» é gente de classe média baixa com mais de 50 anos - antes da moda da compra da casa.
Muitos fizerem obras, como dizes, mas compensou. Agora o sensato de lado a lado era fazer acordos entre senhorio e inquilino.

Joaninha disse...

Concordo muito com o King e queria escrever um comentário mas agora estou cheia de pressa. Até já!

Joaninha disse...

Já cá posso voltar com mais calma...
Queria acrescentar alguma coisa na mesma linha do teu comentário:
É mesmo verdade que alguns de nós que vivem em casas com rendas antigas investimos imenso nessas casas. Também tenho ouvido pessoas que dizem que não, que é 'fazer filhos à mulher do outro' (expressão detestável, entre parêntesis) e preferem viver menos bem do que investir numa coisa que é do senhorio. Eu, e muitos dos meus amigos não pensamos assim. Na minha casa a porta da rua, blindada, fui eu que paguei, as janelas novas de vidros duplos, fui eu que paguei, os roupeiros de parede, fui eu que paguei, os novos sanitários, azulejos, torneiras, chão, da casa de banho fui eu que paguei, e a cozinha moderna, fui eu que paguei.
Para além do chão afagado e envernizado e das paredes pintadas com tinta muito boa.
O senhorio só tem de se ralar com a parede exterior do prédio.

sem-nick disse...

O boneco da balança é muito expressivo. é mesmo isso, difícil de ver onde está o equilíbrio...

Zorro disse...

Pois é.
Como dizes, e é o caso de familiares próximos, muitas vezes há senhorios a viver bem pior do que os seus inquilinos, em casas péssimas mas não podem ocupar o seu bem legítimo porque afinal eles têm casa! Muitas vezes (enfim ALGUMAS vezes) esses inquilinos estão a viver na terra noutras moradias, mas querem manter a casa em Lisboa, just in case...

pé-de-cereja disse...

Olha tanta gente a passar por aqui!... :D
Sabes Zorro, essa é bem vista. Por acaso no meu prédio que nem é grande, tenho 3 vizinhos que na verdade residem na terra, no campo, e só vêm muito de vez em quando a esta casa para «a manter». É um caso onde é importante o facto de a renda não ser alta.

sem-nick disse...

Li hoje em qualquer lado que a proposta era que a tal indemnização que o senhorio pagaria para se ver livre do inquilino era multiplicada pelo valor da renda PROPOSTA POR ELE. Isso é completamente diferente e também não me parece justo... ia querer dizer que durante 5 anos esse senhorio não ia ter o menor lucro dessa sua casa.