sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tem cá uma graça!

Nós usamos a linguagem para comunicar. É um código, é claro. Que se aprende em bebé com a nossa mãe - a tal língua materna. Uma enorme, esmagadora, maioria de pessoas não pensa que a palavra que se diz não é a coisa. A verdade é que a palavra é um conjunto de sons, ou se está escrita um conjunto de letras, que se refere a algo que existe para além dela.
Eu tenho andado a pensar ultimamente que acho bastante graça às reviravoltas que certos conceitos sofreram.
Quando aprendi a falar, a chamar nomes às coisas, existiam «patrões». Durante anos e anos aquilo era claro para mim, um patrão era uma pessoa que contratava outras pessoas para trabalharem para ele e a quem pagava para isso.
A certa altura comecei a notar que isso dos patrões era uma espécie em vias de extinção. Sumiram. Em seu lugar vieram os «empregadores». Diferente, porque os empregadores contratam pessoas para trabalharem para eles e a quem pagam para isso.
Por outro lado, essas pessoas que eram contratadas etc, etc, chamaram-se durante anos e anos trabalhadores. Era o seu nome. Alguns dos patrões, perdão, dos empregadores parece que resmungavam com isso porque como eles, os empregadores, também trabalhavam sentiam-se descriminados.
E assim, o nome mudou. O trabalhador, empregado numa empresa qualquer passou a ser um «colaborador». Lemos em anúncios «precisa-se de 4 colaboradores a tempo parcial» ou «oferece-se colaborador»...
Estranho.
Este não é do âmbito do acordo ortográfico, é adaptação de novos termos a velhos conceitos.
Desde que se continue a saber do que se fala...


Não é nenhum cachimbo, não.
Não pode meter lá dentro tabaco e fumá-lo, que é o que define o cachimbo.
Aquilo é a imagem de um cachimbo.


Pé-de-Cereja

4 comentários:

Joaninha disse...

Hoje apareceste a uma hora diferente e não tenho muito tempo para comentar.
Claro que estou muito de acordo. Imaginam (??) que mudando os nomes mudam os conceitos, mas é um grande engano

BIG MISTAKE!

if disse...

Bem visto, Leonor!
O mundo anda tão acelerado que desaparecem coisas com nome e aparecem outras sem nome. Ficam nomes sem sentido, ficam sentidos sem nome.
Eu ainda sou do tempo dos 'contínuos' das escolas. Nunca fui capaz de - sem sorrir giocondamente - pronunciar 'auxiliares de acção educativa'.
Hoje não sei como se chamam :)

pé-de-cereja disse...

Exactamente, Inês como se mudar o nome fosse suficiente para mudar o conceito... Esse exemplo de que falas é um dos casos onde eu também me engano quase sempre. Aqui há uns anos (muitos, uns 15 ou talvez 20) estive em contacto com a formação profissional para jovens com deficiência. Aprendiam uns ofícios - jardinagem, limpezas, e sapateiro. Quando, inocentemente, falei em «sapateiro» o monitor deu pulos de corça!!! sapateiro????! REPARAÇÃO DE CALÇADO é que era! Tinha de se chamar «Oficina de reparação de calçado» e ele (que era meio analfabeto) era um técnico de reparação de calçado!.... E assim têm ido desaparecendo algumas profissões, não há telefonistas, existem «técnicas de comunicação» etc, etc...

pé-de-cereja disse...

Ontem fui ao PingoDoce e recebi um papelinho que dizia que «Em nome dos mais de 25 mil colaboradores que o Pingo Doce emprega em Portugal,....» etc, etc...
:)
Ora bem. Uma simples substituição de palavras, vêem? Não são trabalhadores, nem sequer empregados (se ele 'emprega' é porque são 'empregados') são colaboradores!
Colaboram em quê?
E colaboram com quem?