sexta-feira, 14 de abril de 2017

...e o andar ?

Nas cidades deixou-se de andar. A não ser nos ginásios.
Cada vez que constato isso, um botão (ou um clik como se diz hoje) remete-me à infância e juventude o que é irritante porque me sinto velha se pensar «no meu tempo» como modelo, o que não é verdade não era modelo nenhum. Mas em certas coisas os hábitos antigos eram realmente mais saudáveis.
Acabei de ler uma notícia, completamente fait-divers, que informava que uma cadeia de hipermercados estava a expandir-se e a criar também supermercados. Tanto quanto sei, a diferença entre o hiper e o super, é que o primeiro tem uma superfície muito, muito grande, e portanto situa-se ou nas periferias das cidades ou ocupando todo um andar de um Centro Comercial, o outro, o que é super pode funcionar em qualquer bairro porque é proporcionalmente bem mais pequeno. Comércio de proximidade.
Como eu disse a notícia não tem qualquer relevância, gostei apenas porque irá fazer alguma concorrência aos gigantes da espécie  [pingos-doces e mini-preços] o que pode não ser mau. E ia 'sair da notícia' quando olhei para o primeiro comentário que lá vinha e e a crítica era «e o estacionamento???? paga otário!». Nem mais. Como era numa zona de estacionamento pago (como quase toda Lisboa agora...) o leitor saiu-se logo com essa, referindo creio o facto de nos hipers não se pagar estacionamento por terem os seus parques, e ali ia-se pagar esse extra - se houvesse lugar, claro, porque isso é duvidoso.
Parece óbvio que se é um comércio de proximidade é para se ir a pé. Isto pensava eu. Se é no meu bairro, vou e venho às compras simplesmente como a minha mãe ou avó faziam. Aliás, diferentemente das mulheres desse tempo, hoje até temos uns sacos com rodinhas para levar as coisa até casa. Mais fácil.
Mas antigamente era normal a deslocação a pé, até em distâncias que hoje nos parecem enormes. Porque, para quem nasceu no segundo milénio, isso, o 'andar' já é desporto 😊 . Nós 'andamos-a-pé' nas caminhadas, mas vê-se pessoas que se metem no automóvel para ir ao seu ginásio que é bastante perto e lá ficam meia hora a 'andar' na passadeira mecânica. Não é anedocta 😁 !!!
Bom, nas aldeias ou zonas menos citadinas ainda vemos gente a caminhar para chegar a qualquer lado, umas distanciazinhas mais razoáveis. E não precisam que os médicos insistam em que devem andar meia hora por dia, têm mesmo de o fazer... Afinal é o modo mais fácil de «fazer exercício» tão recomendado hoje e por algum motivo o recomendam, é sinal de que usualmente não se faz!
A verdade é que há cem anos não se usava essa expressão, a vida de todos os dias já nos fazia mexer bastante. Uma simples dona de casa andava horas para trás e para a frente a varrer, a limpar, esticava-se em «alongamentos» para lavar os vidros das janelas, para arrumar prateleiras altas, agachava-se, ajoelhava-se para lavar o chão, subia escadas carregada com objectos pesados, fazia movimentos repetitivos com os braços no tanque da roupa, etc, etc. Um ginástica diária.
E as crianças faziam muitíssimos mais jogos onde tinham de se mexer, a sério, não era cá o dedo a deslizar no ecrã de um tablete! Era às escondidas, à apanhada, saltar à corda, a macaca a pé coxinho, tantos jogos onde tínhamos de nos esticar, encolher, equilibrar, correr, saltar, todos os músculos eram treinados. Evidentemente que o espaço era outro, a liberdade também, mas é mais uma questão de mentalidade.
Essa mentalidade que fica bem visível com a pergunta do leitor indignado com a inauguração do supermercado que o obrigava a ir a pé da sua casa até lá por não poder estacionar à porta.....


Cereja








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