quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um fenómeno cada vez mais vulgar II) a frustração

Frustração. É uma palavra desagradável  para uma emoção negativa. Refere-se a um sentimento misto de tristeza e raiva por não se conseguir algo que se deseja. Falamos muito disso actualmente, não era noção que eu ouvisse muito em criança nem o lemos com frequência em romances do século passado, mesmo se o sentimento em si é tão antigo como o homem! A vida, e sobretudo a vida em sociedade implica frustração. A vida em grupo implica um 'toma-lá-dá-cá' e o "dá cá" nem sempre acontece como e quando se deseja. O resistir convenientemente à frustração aprende-se e é difícil.
E essa lacuna, o não ensinar desde muito pequeno como se resiste à frustração, é dos erros mais graves que os jovens pais podem cometer. A imensa ternura que sentem por aquele pedacinho de gente que depende tanto deles, faz com que lhes adivinhem os desejos e os satisfaçam de imediato. Há desejos que são também necessidades, sono, fralda limpa, fome, e devem ser resolvidos com brevidade. Mas esforçar-se por chegar a um brinquedo, ou esperar um pouco por que lhe peguem ao colo, só faz bem à criança, acreditem. Assim como encontrar por si mesmo soluções para o que quer: agarra a fralda ou o peluche para adormecer sozinho e isso aumenta a sua autonomia. Mas muitos pais vêm um serzinho tão frágil, que facilitam tudo. "Vai ter tempo de sofrer, quando for crescido!" é o pensamento. E vai-se evitando tudo o que o posso frustrar, à menor ameaça de beicinho tudo se resolve.
Erro grave. O que não se aprende em pequeno é muito mais difícil de aprender mais tarde. A intolerância às pequenas frustrações vai ser uma bola de neve, aumenta com a idade de um modo assustador, vamos ver uma criança sempre zangada, um adolescente insuportável, uns jovens a quem nada satisfaz.
Claro que a sociedade tem culpa. Há multinacionais de brinquedos, de roupas, de móveis para crianças. E que se esforçam por vender. São mesmo especialistas no assunto com técnicos que sabem bem como se faz: um brinquedo engraçado que a criança deseja, a mãe dá, mas no dia seguinte aparece outro e a criança quer o novo, e no dia seguinte lança-se um diferente, e o mecanismo cria o seu monstro - o importante não é brincar com o brinquedo é a chegada de um novo! Quem não conhece estes casos? A exigência constante, mais, mais, mais, a birra, a chantagem, e a escalada que se segue.
Vemos crianças destas constantemente. Que querem (exigem!) um bolo e depois de uma dentada displicente o deitam fóra. Que querem sempre outra coisa daquilo que lhes é oferecido - um passeio se lhe propõem cinema, o campo lhe lhes oferecem praia, ficar em casa em vez do zoo... Querem mostrar que elas é que decidem.
E num tom e postura de completa arrogância, o que seé "quem manda sou eu!» frase que até às vezes dizem com convicção. Frequentemente funciona a chantagem "não gosto de ti!" ou "só gosto se me deres o chocolate!" e incrivelmente o esquema funciona. Conheço crianças que antes de dar um beijo à mãe  quando chegam ao pé dela, vão à carteira ver o que lhes trouxe. E outras que ao ver uma prenda protestam "isto?! mas que porcaria!". São meninos mal-educados? Pois são. E são sobretudo crianças infelizes, que não dominam a frustração, e que vão tornar quem com elas convive também infeliz.
Cuidado!



 Cereja

4 comentários:

Joaninha disse...

Eu também conheço!
São meninos completamente insuportáveis para quem lida com eles, nem imagino como sejam na escola! Conheço uma senhora que todos os dias (mas mesmo todos os dias ) leva uma prenda ao filho. Uma espécie de "desculpa" por ter de trabalhar e não estar ao pé dele. E o miúdo tem uma arrogância que apetece dar-lhe um par de estalos! (gulp, eu não escrevi isto... :)))) )

King disse...

Uma coisa de que aqui falas e a mim me deixa irritadíssimo é o tom desabrido com que muitos desses meninos respondem, seja aos pais, seja aos avós. Tenho assistido a cenas que me deixam mesmo incomodado, e os pais a sorrir e até a achar graça, às vezes! Com uma desculpa sempre, até parece que nós somos uns carrascos por não deixar os nossos filhos fazer tudo o que lhes passe pela cabeça!

King disse...

Só mais uma coisa: continua esta série. Tou a gostar!

cereja disse...

Olá Joaninha e King, visitantes de sempre e cheios de paciência para os meus humores, porque o tempo em que escrevia todos os dias e várias vezes já lá vai há muito!!! O que dizia aqui digo agora no famigerado FB... :)
Mas este tema diz-me muito.
E vou mesmo continuar a "série" como diz o King. Obviamente que a maioria das crianças não são assim. Umas mais rebeldes outras mais pacatas não são os tiranos de que falam os títulos dos livros que citei. Contudo, vai alastrando de um modo preocupante para mim, de meninos ou adolescentes que não conhecem limites. É muito mau. Para eles e para nós.