ai quem ma dera na minha mão
não passar nunca da mesma idade
dos 25 do quarteirão»
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Pois é. Hoje, esta visão romântica de felicidade que nos deixou o António Nobre, seria muito estranha. Quando me lembrei destes versos achei até, tenho de o dizer, um tanto reaccionária a poesia :) Esta simplicidade, salazarista antes de Salazar, era o ideal de felicidade? Mas afinal o que é isso da felicidade? Como é que se mede?
Estes pensamentos ocorrem-me porque ontem foi «o dia Mundial da Felicidade» coisa que levantou alguma surpresa e comentários nas redes sociais. Felicidade? Parece que o tal Direito, que faz parte da Constituição dos EUA, como direito é "à procura da Felicidade". E agora em Portugal até temos um índice de bem-estar que avalia se estamos felizes ou infelizes. [aposto que já sabemos a resposta]
Ora o que eu penso é que essa coisa da «felicidade» é muitíssimo subjectivo, depende do feitio de cada um, da capacidade de sentir como bom ou positivo aspectos da nossa vida. Por vezes coisas de uma enorme simplicidade.
Por exemplo, um fait divers pessoal:
Fui ontem às compras "do mês", como costumo fazer no dia em que recebo. Faço isso porque sendo uma grande quantia posso mandar levar a casa sem mais custos e ao comprar tudo de uma vez evito algumas idas ao supermercado - de cada vez que lá vou trago mais alguma coisa. Esta é uma medida económica.
Ora - e cá está como os olhos com que se olha podem fazer variar o 'sentimento de infelicidade ou felicidade' - desde há uns meses que em vez de arrumar logo tudo nos sítios, passei a alinhar o conteúdo dos sacos pela bancada da cozinha.
É uma brincadeira, é claro. Aquilo fica em exposição uma meia hora: arroz, farinha, massa, açúcar, chá, café, conservas, azeite, manteiga, queijo, batatas, cebolas, leite, vinho, e ainda detergentes, sabonetes, champô, dentífrico, papel higiénico... e estou a sintetizar mas é uma grande batelada de produtos. E espalhado parece imenso! A verdadeira imagem da abundância. Uau!!!
É um truque, dizem-me vocês.
Pois é.
Mas o sentimento não é pessoal e subjectivo? Durante aquela meia hora tempo sinto a abundância. A abundância hoje não existe, ou existe de forma muito diferente. A minha, que é pequenina, deixa-me consolada uma vez por mês com aquela imagem. Fácil.
Pé-de-Cereja






