quinta-feira, 30 de junho de 2011

Austeridade


Fui ver ao dicionário que tinha aqui à mão (era o Lello, por acaso) e encontrei:
s.f. Cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência. Severidade, rigor. Qualidade de austero.
Já agora, espreitei austero:
Adv. Que tem austeridade. Rígido, severo. Sério e grave. Penoso.Ríspido. Sombrio, escuro.
.............
A imagem que eu tinha deste termo, lá muito escondida na minha memória do tempo em que a palavra não se usava como agora, era de uma pessoa considerada austera - ou que tinha austeridade - era que tinha uma característica moral que a tornava muito auto-exigente, não gostava de brincadeiras, não se divertia, levava tudo muito a sério, não aproveitava os prazeres deste mundo, uma espécie de anacoreta.
Hoje usa-se como uma ameaça, uma espada sobre a cabeça. «Tens de viver muito mal ou senão...!»
Mas senão quê?
Senão... vive-se muito mal.
Ficamos reféns das agências de rating, parece. E quem manda das tais agências de rating?
Se fosse um romance policial, cabia perguntar «quem beneficia do crime»?

Pé-de-Cereja

terça-feira, 28 de junho de 2011

"Nós somos todos judeus alemães"

........disse Cohn-Bendit. Juntamente com «soyez realistes demandez l'impossible» é uma frase que marcou a minha geração.
Mas talvez apenas a minha geração.
............
Ontem, no facebook, uma amiga (a sério, não amiga faceboqueana) lembrou-se de lançar uma espécie de desafio. Com base no que estamos enjoados de ouvir, ou seja uma desmarcação cerrada da Grécia, afirmado em todos os tons, que não temos nada a ver com ela para escaparmos ao ataque das agências de rating, criou-se uma página a que ela deu o Título «Somos todos gregos». E, à minha conta, reenviei o contacto para quase todos os «amigos facebook», além de imaginar que à sua conta ela também o tivesse feito e por efeito de cadeia, em breve haveria muitas pessoas a partilhar a ideia.
Desapontamento!
A minha primeira surpresa foi tanta gente não entender o título. Recebi algum feed-back nessse sentido, a frase evocava alguma coisa que não se sabia bem o que era. Coisa estranha para mim.
A segunda surpresa, foi que neste momento – fui lá espreitar – e há apenas 15 pessoas que «gostam». Quinze. Quando, a gracinha mais insignificante fácilmente atinge umas dezenas de «likes» no facebook.
Falta alguma coisa. Não devemos dominar ainda a técnica do fb, ou sou muito ambiciosa e desejava uma resposta mais rápida mas isto é normal, ou realmente as pessoas estão de acordo que amigos amigos gregos à parte.
Mas o ser a Grécia não é o que está em causa. Como disse lá essa minha amiga na frase que iniciou esta experiência, e eu transcrevo tal como ela escreveu:
«Quanto mais os "nossos" dirigentes tentam mostrar aos outros que Portugal é diferente da Grécia (admito que seja) mais eu me sinto grega. Não me importaria de encetar um movimento de solidariedade do género 'neste momento somos todos gregos'. ou todos do Sul, ou todos pobres, ou todos indignados, ou todos mal governados, ou todos bem lixados.»
Pois é.


Pé-de-Cereja

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um bom conselho

Calor, muito calor...
Temos de ter cuidado com o sol.
Dantes era assim: o famosíssimo creme!

Clique na imagem para ficar maior

(recebi uma colecção magnífica de imagens umas da minha infância e adolescência,outras mais anteriores ainda; apetece-me partilhá-las aqui convosco, de vez em quando)

Pé-de-Cereja

sábado, 25 de junho de 2011

Vergonha!

Eu entendo que a Segurança Social tenha pouca gente para as encomendas. Era de esperar. desde há muitos anos que de cada duas pessoas que saíam só entrava uma (ficando os que restavam com o dobro do trabalho) e isso, a progressão geométrica,  multiplicado por muitos anos deixa alguns serviços quase vazios.
Portanto, espera-se que o trabalho seja feito pelos utentes, claro. É a lógica do ‘self-service’ que se espalha cada vez mais, as pessoas que ainda há poucos anos atendiam os clientes, são agora máquinas manipuladas pelos próprios, não é? Então, porque não nos serviços públicos?
Ontem, um comentador aqui no blog contou uma situação que este link refere eu confirmo porque se passou exactamente isso com uma prima minha: para se dar baixa quando um idoso morre, espera-se que um familiar peça o subsídio de funeral! Como toda-a-gente-o-pede, a coisa está feita. No caso da minha prima, ela não fez esse pedido porque lhe disseram que não tinha direito, e descobriu que a minúscula reforma da sua mãe estava acumulada há muito tempo numa conta esquecida...
Desta vez, é de revoltar: Pagou-se o abono de família como era habitual. Mas... há casos onde os beneficiários não entregaram a tempo a prova de que os seus filhos são estudantes ou, por pouca sorte, ficaram entretanto desempregados mas o ano passado ainda tinham trabalho e, como entretanto se tinha dado «uma reavaliação extraordinária dos rendimentos», têm de pagar. Se não sabiam que a lei mudou, soubessem. A Segurança Social vai imperturbavelmente pagando, as famílias é que devem conhecer a lei e as tabelas, e devolverem de imediato o que receberam!!!
Brada aos céus.

Isto abrange 258.000 famílias.
Pode ser? Parece que pode.



Pé-de-Cereja

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ena, tantos fantasmas!!!

Quando ontem dei a minha olhadela matinal pelos jornais (na net) encontrei uma quantidade exagerada de burlas. Eu sei que a vigarice é uma das nossas mais florescentes actividades mas, mesmo assim, no mesmo dia ver a) uma história cómica de polícias e ladrões: um sujeito que fugiu há 8 anos da cadeia, vivia como sendo da PJ e até vivia com uma investigadora até ser apanhado!
Ou b) o facto do Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados ter recebido, por acumulação indevida de pensões, quase 60 mil euros em 4 anos e no total, se se confirmar a informação, «terem sido pagos indevidamente mais de 184 600 euros a três membros dessa comissão».
.................
E com esta última, damos o braço à Melinda Gordon, e entramos na série «Ghost Wisperer»-Em Contacto! Porque se estes senhores, apesar de já terem passado ao outro mundo, ainda recebem subsídio de compensação (por já cá não estarem?) d) mais notável ainda é que descobrimos a existência de uma clínica toda ela fantasmagórica. Vejam lá:  Médicos já falecidos que receitam que se fartam, medicamentos para uns pobres de uns doentes que... também já por cá não andam


Já imaginaram? Eu até sinto um arrepio. Receitas passadas por médicos-fantasmas (tadinhos, gostavam tanto de trabalhar que não desapegam, mesmo mortos continuam de estetoscópio ao pescoço a cuidar dos doentinhos) a doentes-fantasmas que também insistem em ser tratados, não acreditam que já deviam ter passado para a luz.
Melinda, S.O.S, fazes muita falta!
Ajuda-os a passar, que eles não conseguem...

Pé-de-Cereja

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O género, importância e gramática

Como já aqui referi, foi eleita Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República, sob aplausos gerais. Acontecimento importante em vários aspectos, e que desencadeou no facebook de amigos meus uma estranha polémica que tenho de transportar aqui para o Cerejas por não conseguir dizer tudo o que queria no espaço do FB.
Como ponto prévio gostaria de esclarecer desde já que nada do que vou dizer tem a ver com o Acordo Ortográfico, sobre o qual tenho muitas dúvidas e ainda não sei bem se estou a favor ou contra. Não, aqui trata-se, a meu ver, apenas de uma questão de gramática.
Dá-se o caso de que na troca de comentários com um grupo de amigos, falei na 'senhora presidenta'. Estava a brincar. Pensei que chamando assim dava um ar de mais popular ou infantil e o tom que eu desejava era esse.
Curiosamente outras pessoas também falaram em 'presidenta' e, quando à noite voltei a ligar ao fb já estava montada uma banca de prós e contras o uso de tal palavra. Sorri e ainda a sorrir fui confirmar ao dicionário priberan mas… afinal aceitam a palavra! A mais inteligente defensora dessa novidade ideia  [pessoa que aliás escreve primorosamente] fá-lo com o argumento de que até agora as mulheres não tinham capacidade de serem presidentes de nada, portanto com o assumir de tal competência seria justo que se 'feminilizasse' a palavra. Como uma honra.
Ideia extraordinária, porque se é certo que Presidente da República ou da Assembleia, em Portugal é novidade, já há milhares de mulheres presidentes de tudo e mais alguma coisa – de Conselhos Directivos, da Comissões de Trabalhadores, de Sindicatos, de Associações... Há imensas mulheres que chefiam. Afinal "presidente" é simplesmente alguém que preside, como residente é alguém que reside ou gerente alguém que gere.
Existem na nossa gramática dezenas de palavras que se usam para os dois géneros, sem que isso ofenda ninguém. Adjectivos «bisexuais» :) encontramos imensos – triste, alegre, doente, importante, contente, infeliz, paciente, irritante, transparente - a maioria dos terminados em e mudo, não tem feminino nem masculino. Então actividades vulgares em homens não seriam 'masculinas', reparem nas palavras terminadas em ista (com um A no fim) onde até ainda há mais homens: futebolista, camionista, maquinista e não futebolisto, ou camionisto ou maquinisto; o Alfredo Marceneiro não era um fadisto, nem Chopin um pianisto. E uma mulher que seja agente de polícia? E o meu dentista?
E também tropeçamos no contrário, palavras onde só se usa o masculino. Uma mulher que deite meias solas num sapato não se chama sapateira, teremos que dizer que trabalha em calçado, assim como a profissão de torneiro não terá feminino, porque torneira é outra coisa. Ou seja, acredito que para um estrangeiro não seja fácil aprender português.
Mas nós aprendemos em pequeninos.
Inventar uma palavra por acreditar que assim se aumenta a dignidade da mulher que exerce o cargo, não me convence.
Mesmo nada!

Pé-de-Cereja

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Reinvenção da democracia


Há coisas engraçadas. 
Por exemplo, a tal “escrita por linhas tortas” que nos dizem que a divindade aprecia (às vezes não lhe faria mal escrever também pelas linhas direitas...)
Se calhar, se não tivesse existido o episódio trágico-cómico do senhor-que-abominava-os-políticos-mas-queria-estar-na-política-à-força ter sido rejeitado duas vezes para o cargo de Presidente da Assembleia da República, teríamos apanhado com mais um bonzo como seria previsto.
Mas... surpresa!
Uma lufada de ar fresco, e vamos ter uma mulher de competência e firmeza como segunda figura do país. Ouvimos um coro de concordância como há tempos não se ouvia, e creio que muito justamente.
Quando no seu discurso falou na “reinvenção da democracia” senti-me identificada. É isso, exactamente isso, que nos anda a fazer falta. «Esta» democracia anda doente, mas a democracia faz-nos falta, assim como nos faz falta um pouco de imaginação.
Vamos reinventar a democracia, Senhora Presidente!
Um passado de competência, uma mulher ainda nova que nos diz

Bem vinda!

Pé-de-cereja

terça-feira, 21 de junho de 2011

Verão

(por favor cliquem 2 vezes na imagem)



Começa hoje.
O calor já se sente, esperemos que não venha a ser demais.
É uma estação belíssima, que nos permite a vida ao ar livre o que eu adoro.
(desculpem, este está a ser o post-rei dos lugares comuns, mas reconheço que é isso que me ocorre neste momento...)

É engraçado o 'cabeçalho' que a Google encontrou para hoje:



Um tanto violenta a imagem, não é?
Mas talvez o Verão seja mesmo violento. Havia o 
« winter of our discontent
Made glorious summer by this son of York», 
dizia Shakespeare, será que por cá o verão também vai ser glorioso?...
Huuuummm... Atenção aos fogos.

Pé-de-Cereja

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dificuldades previstas

Estou a tentar não desatar a criticar os senhores do governo ainda eles não tomaram posse. Um dos bonecos do Bartoon no Público aconselha «Não devemos começar já a criticar o governo» e o outro pergunta «Já? 10 segundos chega?» (mais ou menos isto)
Contudo, o passado das pessoas e as ideias que até hoje defenderam permitem alguns receios.
Ainda por cima há 2 ministérios terríveis, muito pesados e quase ingovernáveis: Saúde e Educação.
Quanto à Saúde há motivos para preocupação, sem dúvida.
E na Educação dá para prever que as coisas não se apresentem melhores.
O Ministro Nuno Crato é conhecido por posições 'conservadoras'. É um opositor ao eduquês. Há muita gente que também o é, e por bons motivos. Mas se há exageros grandes quanto a algumas posições pedagógicas um tanto laxistas, seria um erro bem grave esquecer o que de muito sério se tem construído no campo do ensino desde há dezenas de anos. E, por aquilo que tenho lido, é essa a posição do ministro nomeado.
Exageros. No que diz respeito à intervenção dos pais nas escolas, há coisas estranhíssimas. A ser verdade o título (e texto) deste artigo, tem de se pôr limites a certas coisas. «Pais têm de autorizar chumbo dos filhos»?! Qualquer coisa soa mal, não é?
O aluno tem ou não condições para mudar de ano, e isso é uma competência da escola, só pode ser. Agora que se anda a valorizar tanto o ensino privado, gostaria de ver essas escolas que batem no topo dos rankings perguntando aos pais dos maus alunos se os podem reprovar ou não...
Depois, ainda antes de ter iniciado funções, ele já vai enfrentar a questão das avaliações. Complicado, porque o seu partido na ânsia de combater Sócrates apoiou a contestação dos professores, mas agora vai apanhar essa batata quente ter de resolver a questão.
Em relação ao trabalho dos professores, eu conheço alguns e de variados graus de ensino. Posso dizer que praticamente todos se queixam sobretudo de uma coisa: excesso de burocracia. Oiço uma queixa de todos os quadrantes de ensino, mais de metade do seu tempo de trabalho não é a dar ou preparar aulas mas às voltas com papeis, muitas e muitas vezes repetidos ou com reuniões que não adiantam nada.
Será que o senhor ministro vai levar isso em conta? Agilizar essa burocracia?
Não me parece que seja sensível a isso.
Mas o panorama vai ser complicado uma vez que, devido à crise há cada vez mais alunos de colégios privados a pedir transferência para o público. De acentuar «devido à crise», porque isso diz-nos que não é por opção positiva, por considerarem que esse ensino seja melhor, o que é logo uma posição negativa à partida.
OK, vamos ver.
Os elefantes brancos nem nos jardins zoológicos. Dão trabalho demais!



Pé-de-Cereja

domingo, 19 de junho de 2011

«Não tenho nada p'ra fazer!»

Hoje comecei o dia deixando este boneco no meu facebook, com o título «o que acontece a muita gente; um conselho, leiam mais».
Uns segundos depois vi que era um tanto antipática, e estupidamente paternalista, e lá expliquei em comentário, que era dedicado às pessoas que estando em férias se aborrecem por não ter que fazer se não têm amigos ao pé.
Agora senti necessidade de explicar melhor este desabafo.
Eu sinto que saber ler é um (será sexto? sétimo?) sentido a mais que nós temos. Ver e ouvir são mais importantes, mas dos outros 3, trocava um deles se fosse necessário, pela capacidade de ler.
Lembro-me como se fosse hoje do deslumbramento de ter começado a ler o meu primeiro livro sozinha. Senti-me como se tivesse entrado num mundo encantado, um mundo mágico. E até hoje esse sentimento nunca se desvaneceu completamente.
Quando era gaiata, adolescente, ia naturalmente de férias com os meus pais. Sozinhos, nós os três, que sou filha única. Fazia parte da minha bagagem, um monte de livros (os livros 'para férias') que empilhava junto da minha cama-de-férias e ia devorando ao longo dos dias. Sentia-me maravilhosamente.
Muito bem, reconheço que talvez eu fosse um pouco 'bicho-do-mato' e não me teria feito mal conviver com mais gente nesse período de férias. Contudo no resto do tempo até tinha grandes e bons amigos - pelo menos uma delas, muitas dezenas de anos depois, ainda é uma das minhas maiores amigas...
Não estou aqui a citar-me como modelo de coisa nenhuma, mas apenas para reflectir como é estranho falar com um jovem (ou dois, ou três, ou quatro!) e ouvir «que seca! agora nas férias nem tenho nada para fazer, os meus amigos vão todos para fóra e eu nem sei como ocupar o tempo»
Que estranho.
Sabem todos ler e escrever, vejo que passam parte do dia a mandarem mensagens no telemóvel ou agarrados ao "messenger" na net. Então porque raio não pegam num livro?! Aceito, de boamente, que não gostem de um tipo ou outro de literatura. Mas entre tantos e tantos tipos de leitura de algum deviam gostar, a não ser ( e a hipótese é muito plausível) que nunca tenham adquirido esse prazer da leitura de que comecei por falar.
Mas que pena.
Nem sabem o que perdem.
E ainda por cima um livro não precisa de se ligar à corrente, nem de carregar a bateria, só se gasta dinheiro no momento da compra, é leve, pode levar-se no bolso, não se parte, e faz tanta companhia!

Pé-de-Cereja