quarta-feira, 14 de maio de 2014

Pôr ou meter?

Este post ainda antes de o escrever já o classifiquei com a etiqueta de "Resmunguices e embirrações" Porque aceito humildemente (humildemente, o caraças!) que seja uma-questão-de-idade. Mas há palavras que levaram uma reviravolta durante a minha existência, e isso faz-me muita impressão, mesmo que seja caso insignificante.
É que não sei que maldição atingiu o pobre do verbo «pôr».
O dicionário quanto a este verbo dá-nos uma lista de dezenas de casos onde o termo se aplica e bem. Incluindo como correcto também
o significado de meter quando acompanhado por 'no' ou 'dentro' [pôr no, ou pôr dentro]
Depois temos a palavra meter também com diversos significados mas nunca se substituindo a pôr. O verbo meter tem em si a noção de introduzir - fechar, esconder, incluir, entrar, etc.
Ou seja, em bom português, o verbo pôr que é muito abrangente pode também querer dizer meter, mas a inversa não é verdadeira.
Tenho uma amiga, pessoa até muito educada, mas que tem uma frase um tanto grosseira referente a esta caso (vou dizer baixinho, que este é também um blog educado) «Só se mete onde há buraco!» e assim arruma com a questão.
Quando nasceu esta moda, já há uns anos, ainda fiz figuras parvas. «Olha, mete aí na mesa!» e eu à procura da gaveta da mesa... Ná, era para colocar em cima da dita. «O vestido é giro mas eu metia-lhe outros botões», e eu a apalpar os bolsos. «Já meti no fogão» e eu a pensar que era um assado no forno, mas afinal tinha posto o tacho ao lume. «Ok. Já meteu o carro» - ah, eu não sabia que tinhas garagem... Nã, nã, tinha-o 'metido' em cima do passeio.
E por aí fora. Mete-se uma música quando se liga o rádio, mete-se um casaco quando está frio, mete-te aí ao lado da tua irmã, mete o acento nessa palavra, meti a mala na cadeira...
Depois habituei-me e já descodifico. É geral. Deve ter sido uma evolução da língua falada, que já está consolidada, vejo pessoas de todas as idades a dizê-lo... 
Tenho de deixar de embirrar, até porque já percebi que não fica bem dizer «pôr». A galinha é que põe um ovo, já ouvi dizer entre risinhos. As pessoas não são galinhas, não põem, metem!

Ah sim????!!!
*keiaurncfsdr....Oawxdhgfadhdvhzd* 
Rabugice.
Tem de me passar. Talvez logo veja um belo meter-do-sol, que o dia está lindo!
*suspiro fundo*

  Sim senhor! Meteu a colher na boca! Certo. ;)

Cereja

terça-feira, 13 de maio de 2014

Só mesmo no twitter eu poderia um dia queixar-me de que me sinto desconfortável quando sou seguido por um ovo.

É um fenómeno impossível de ignorar - as redes sociais.
Há contra-corrente? Pois há. Tenho um ou dois amigos que me falam destas coisas com verdadeiro horror. "Eu???? Nem morta me apanhavam numa dessas coisas" repulsa tão forte que me deixa sempre de boca aberta. Livra! Que medo....
Mas também é certo que "essas coisas" se multiplicam velozmente. Redes sociais? Facebook e twitter como reis, mas também a Google+ e LinkedIn, muito conhecidas e partilhadas. Falo destas em primeiro lugar porque são as que também partilho (?), as duas primeiras e sobretudo mais a primeira.
Mas, claro, há muitas, muitas outras. Flickr, Hi5, MySpace, Netlog, Instagram, e por aí fora...Por vezes descubro que faço parte de uma dessas redes nem sei bem como! Alguém me deve ter enviado um convite, em tempos, e distraidamente devo ter aceite, como o shtyle.fm, e outros que me lembram coisas de vez em quando e nem sei como lá entrei nem sei bem como é que posso sair... Também não me tira o sono, simplesmente não colaboro, pronto.

Mas algumas coisas têm graça.
Claro que é sabido que duas das redes mais conhecidas, o facebook e o twitter, tem uns nomes criticáveis (?) para quem está associado entre si e para assinalar quando qualquer coisa é lida. O facebook chama amigos a quem conhecemos ou passamos a conhecer por ela, e o twitter à falta de melhor chama-lhe seguidores. No fb quando se assinala que se leu algo lá publicado, esse click chama-se "like" ou "gosto" em português, o twitter, mais brasileiro, chama-lhe "curtir". Muita gente refila com isso, excesso de afectos nas palavras amigos e gostar, mas são as regras também não faz mal desde que se conheçam e não se levem à letra...
Depois há a questão do bonequinho identificador. Nas duas redes há um espaço para se deixar uma identificação visual, que pode ser ou não preenchida, por uma foto ou um desenho. Para quem não quer dar-se a esse trabalho, esse quadradinho fica preenchido com uma sombra com tronco e cabeça, no face, e com um ovo no twitter. Ora, por vezes a associação das duas coisas, os nomes e os bonecos, dão vontade de rir.
Ontem li no twitter «Só mesmo no twitter eu poderia um dia queixar-me de que me sinto desconfortável quando sou seguido por um ovo»
E não é que é verdade?
Mesmo eu, que tenho poucas ligações, tenho alguns ovos a seguir-me! Nem em banda desenhada!!!!







Cereja

sábado, 10 de maio de 2014

A culpa é daquele menino!

Pela enésima vez, os senhores do governo repetem um truque. Acho-lhes uma graça! Acharia muita graça se não fosse tão sério!
Ora bem:
Vamos imaginar um estádio de futebol repleto de espectadores. Jogo muito importante, muita emoção. Um jogador avançado, pega na bola com as duas mãos e atira-a para a baliza onde entra. Gooooolo! Os jogadores aos pulos, abraçam-se porque ganharam. O árbitro desata a apitar, priiii! priii! não é nada golo, foi com as mãos! Ora, diz o jogador, então não entrou na baliza?! Ganhamos porque a bola está lá dentro, não seja antipático. Não ganharam nada, repete o árbitro. As regras do jogo não são essas. Quero lá saber! vocifera o treinador, mudem mas é as regras, assim não nos deixam ganhar, a culpa desta derrota é do árbitro!
OK.
O árbitro chama-se Tribunal Constitucional. As regras do jogo chamam-se Constituição da República, elaborada por uma Assembleia Constituinte, eleita por sufrágio universal. Quando o governo e os partidos que o sustentam marcam um golo com a mão não é válido, não por birra do árbitro, mas porque não respeitam as regras a que estavam obrigados.
O que faz alguma impressão é que a época já vai adiantada, foram vários os golos anulados por fora de jogo ou não cumprimento das regras, mas o treinador insiste na fórmula tentando que os seus adeptos se ponham todos contra o árbitro.
Para os que conhecem bem as regras do futebol, a coisa não pega. Mas quando a emoção partidária futebolística é grande e a bandeira agita-se tanto na bancada que nem se vê bem o que se passa no campo, então os adeptos quase lincham o árbitro.
A culpa é dele.
Foi ele! Foi aquele menino que é mau.
Buáááá!!!!




Cereja


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Distância

Acontece-me de vez em quando.
E, por mais velha que esteja tenho sempre uma reacção infantil de desapontamento. Farto-me de "ensinar" aos outros como devemos saber resistir à frustração, e quando me cai em cima faço beicinho e parece que fico com 5 anos outra vez.
Como toda a gente, ou quase toda a gente, tenho amigas de infância ou quase. Amigas verdadeiras, amigas do coração. Mas que muito, muitíssimo antes desta actual surto migratório por escolhas todas elas diferentes, imigraram, ou mesmo as que estão em Portugal vivem agora tão longe que uma visita é quase ir ao estrangeiro. 
Claro que quando nos encontramos o tempo parece voltar atrás. Os laços são muito fortes e apertados e na maioria das vezes até parece que se continua uma conversa apenas interrompida por instantes.
Mas, de vez em quando, a realidade agarra-me pelos ombros e dá-me um abanão. É claro e previsível, que a distância material e física faz com que pequenas coisas passem a ser mais importantes para uma do que para outra. Que as prioridades não sejam já as mesmas. Que os interesses não coincidam tão exactamente como no passado. Normal.
Mas o que fazer quando reconheço que afinal não posso visitar uma delas como tinha planeado porque ela vai estar ocupada em todas as minhas possíveis datas? Ou quando as dificuldades financeiras de outra são tão diferentes das minhas que já não sentimos o mesmo?  Ou quando há amigos que já não são amigos comuns? Ou...
Distância física que com o tempo se torna distância psicológica. É a vida? Odeio essa frase!!!
 
É certo que há ainda quem resista a essa dupla distância como acabo de confirmar com o telefonema que acabo de receber e isso dá-me ânimo para relativizar tudo.
Amigas para sempre!





Cereja

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O íman das nódoas

Bem, desta vez volto aqui com uma crónica pessoal - a referência à nódoas não tem nada a ver com nenhuma "saída limpa".
Quando eu nasci as 3 fadas do costume deram-me uns dons simpáticos, sou pontual sem dificuldade, sou arrumada, sou poupada, mas a horrível e feia fada má, como lhe compete, veio estragar a harmonia e fadou-me com um azar infernal: sou um íman de nódoas, desde criança até hoje. A sério. Acreditem.
Era bem pequena e lembro-me de ir brincar para casa de uma menina amiga. Quero eu dizer, não era assim muito, muito, muito amiga... Era a filha de uns amigos dos meus pais. E eu tinha em relação àquelas visitas um sentimento ambivalente: por um lado era engraçado ir lá a casa. A família tinha um nível económico superior ao nosso, o pai era médico de sucesso e ela filha única portanto tinha um quarto lindo com muito mais brinquedos do que o meu. Também faziam uns lanches muito diferentes da minha casa o que achava engraçado. E aquele ambiente (que, curiosamente, hoje me parece bem pretensioso) deixava-me fascinada com os cetins  e doirados. Isso por um lado, mas por outro lado, embirrava porque aquela parva parecia saída directamente de As Meninas Exemplares da Condessa de Ségur! Era im-pe-cá-vel, seguia a etiqueta de tudo, muito bem educada, e se vestia um bibe como todas as meninas daquela época quando estavam em casa, era um bibe branco com folhos de bordado inglês!!! Um bibe branco?! Pois era. Branco. E no final da tarde de brincadeiras estava tão limpo e pouco enxovalhado como estava no início... Oh que inveja! Aquilo não era natural.
Porque eu mal vestia fosse o que fosse um minuto depois estava bom para ir para o tanque da roupa... O molho, saltava do prato, a tinta do aparo da caneta, a sopa da colher, para virem enfeitar a saia, a manga, o peitilho, fosse o que fosse que eu vestia. Às vezes até parecia que era magia, que os salpicos sujos atravessavam a sala toda para chegarem onde eu estava.
E a maldição da fada má não é quebrada com o tempo.
Ainda hoje em dia se vou para a cozinha e ponho um avental, é certo e sabido que a sujidade vai aterrar no sítio da minha roupa que não está protegida pelo tal avental, se lavo os dentes a pasta salta da escova para a blusa! É sina, ou maldição já nem sei. Ainda há pouco depois de uma cena dessas relembrei a tal amiga de infância, aquela que se mantinha imaculada junto de mim mascarrada, dedos pegajosos, nódoas na roupa, fita do cabelo às 3 pancadas, e tive a certeza de que a minha capacidade de ser um íman de nódoas foi uma maldição de criança. Só pode ser!!!



Cereja

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dia da Mãe e lápis azul

Ontem foi Dia da Mãe.
Dentro dos «dias-de» este é dos mais antigos e mais carinhosos. Claro que como em quase tudo há um aproveitamento comercial, e até parece que não se pode festejar um dia-de sem haver uma prenda comprada numa loja. Mas adiante.
Como é normal, nestas ocasiões relembramos cada um de nós a sua mãe. Aliás ultimamente tenho-me lembrado ainda mais da minha, porque dou comigo a fazer coisas ou a pensar do modo que ela fazia já velhinha e me faziam sorrir com alguma tolerância - grande parva eu! Mais actualizadas, claro, faço paciências no computador quando ela as fazia com umas cartas pequeninas, e eu olhava condescendente, ou vejo uma chachada romântica na tv quando ela lia histórias semelhantes em livro, etc...
Mas o que me fez escrever este post foi ter-me lembrado da vez em que num "Dia da Mãe" fui ler na rádio, uma minha redacção (como se dizia, não se falava ainda em 'textos'!). Teria aí uns 13 ou 14 anos e já não sei porque é que fui escolhida para aquilo, se calhar aquela redacção tinha caído no goto da professora de português... Foi engraçado e um tanto emocionante, a minha primeira vez de falar em público.
Era um texto pequeno, tenho-o aqui escrito à máquina, uma página A4. De grande e emotivo elogio ao papel da mãe, falando do seu apoio, presença constante, reforçando a óptica da adolescente que era dizendo que ela nunca falha quando as amigas falham, o maior dos elogios numa época onde os amigos são tudo!
Depois, como gostava de fazer, passei para o patamar da generalização. E entusiasmada dizia que os conselhos maternos são sempre bons, generosos, altruístas, que se seguíssemos esses conselhos seríamos pessoas excelentes. E, dedução seguinte, se as mães de todo o mundo têm esse ponto em comum, se todos os filhos seguissem os seus conselhos haveria paz, igualdade, bem-estar, justiça, em todo o mundo.
Ora, pouco antes de me sentar em frente do microfone, vi que a última parte tinha sido riscada e substituída por outra frase. Aos meus pais foi dito que... acharam que... parecia socialismo (sic) e portanto a frase foi trocado por "seria então compensada a obra sacrossanta, a devotada missão materna!" 
Nem mais! Honra me seja feita li a horrível frase sem me engasgar.
Era aquilo o lápis azul de que já tinha ouvido falar.



Cereja

domingo, 4 de maio de 2014

Mas então....?!

 Eu ainda pertenço à geração que olha um pouco de lado para a margarina. É uma coisa que é parecida com a manteiga e a pretende imitar, mas...
Claro que se comprava. Era mais barato e pronto! Mas, na minha cabeça, manteiga é manteiga e a margarina seria sempre uma prima bem afastada com muito menos qualidades. Contudo, desde há uns tempos (bastantes!) a margarina sofreu uma ascensão social notável, começou a valer por si mesma, deixou de se lhe chamar margarina e a ser conhecida pelo nome da sua marca e, sobretudo, sofreu uma impressionante subida de preços.
Tão grande essa subida que em muitos casos atingiu o preço da velha e saborosa manteiga. Aliás pelo menos num caso, onde aparece com curiosas propriedades medicinais, até dobra o preço!
Bem sei que o preço é um tanto flutuante, existem muitos e variados tal como existem muitas marcas, contudo frequentemente pego numa embalagem de uma margarina toda vistosa e ao lado um pacote de manteiga e o preço é o mesmo. E tenho ouvido a publicidade a gabar o produto, garantindo que "sabe a manteiga".
Beeeem... Parece aquela anedota, mas então se sabe a manteiga e custa tanto como a manteiga porque é que não comemos manteiga...?!
E, quando estive a fazer uma pesquisa ligeira antes de começar a escrever aqui, encontrei duas informações, uma numa perspectiva mais histórica mas muito bem feita no blog Garfadas, e noutro blog, desta vez espanhol, uma referência um tanto científica que vem ao encontro da minha opinião sobre as diferenças entre a manteiga e a margarina.  Ganha a manteiga!

Pois é.
Cá por mim, não em grande quantidade que os alimentos devem ser consumidos com moderação, todos eles, mas se preciso de uma gordura ainda prefiro a velhinha manteiga.



Cereja

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador


Dia do Trabalhador.
Era de esperar que este governo não medalhasse nenhum trabalhador, (embora fosse bonito uma medalha a um anónimo, à imagem do soldado desconhecido escolher-se um qualquer 'trabalhador desconhecido' como exemplo) mas já se fica um tanto de cara à banda por ver que, na véspera do dia do trabalho decidiram medalhar uns senhores patrões. Entre o Trabalho e o Capital vê-se bem o que é verdadeiramente importante.
Mas adiante.
Ao assinalar este 1º de Maio o primeiro ministro declara que o modelo assente em salários baixos não interessa a Portugal Olha que bom. Então afinal já  começam a pensar ao contrário do que mandam os senhores do FMI e da troika, para se começar a exportar e melhorar a economia não é através do baixo custo de mão de obra que se pode competir. Boa! Mas, como a nossa experiência já é grande, sabemos que o mundo onde os senhores do poder vivem rodopia a uma grande velocidade. A verdade de hoje já não é a de amanhã, o melhor é aceitar como provável aquilo que essa tal experiência nos ensina. Ah! Afinal não é bem assim. O nosso smn continua a ser chocantemente baixo, os impostos esmagadores, e quem paga de facto esta crise é o trabalho. Mas alteraram alguma coisa: aumenta-se o IVA e a TSU com a simpática (?) justificação de que assim não se baixa ainda mais as reformas.
Estava eu a pensar nisto quando li esta espantosa frase "São boas notícias para pensionistas e funcionários públicos, más notícias para trabalhadores e consumidores"  Com isto, este senhor  informa-nos que nem funcionários públicos nem pensionistas são consumidores - já se sabe que vivem em cavernas, bebem água da chuva, comem ervas bravias, e andam nus ou vestem peles de animais - além de destilar o habitual veneno quando sugere também que um funcionário público não é um trabalhador. No  mesmo jornal podemos ler que os funcionários públicos têm tido salários cortados durante 8 anos, o que quem trabalha na função pública já tinha reparado! Imagino que alguns funcionários das finanças ao receberem as declarações de IRS fiquem a pensar que aquele impresso está mal preenchido. O filho de uma minha amiga, a trabalhar na função pública e a ganhar menos do que há 10 anos, porque o ordenado é o mesmo e os impostos maiores, mostrou-me a sua declaração: salário 650 €, renda de casa 500 €. Números que não se podem falsear....
E.... e... e....

Bem.
É já tempo de ir à rua desabafar. gritar.

VIVA O 1º DE MAIO!!!


Cereja

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Uma profissão delicada

 Uma noticiazinha tão palerma que nem merecia dois minutos de leitura, referindo que no XXXV Congresso Português de Cardiologia um tema foi «Os desafio da "e-saúde"» e se falou num código de conduta no facebook. Dizia a repórter, talvez já brincando, imagine que no dia em que acorda para ser operado descobre numa rede social como o Facebook que na noite anterior o seu médico ficou acordado até às duas da manhã e até bebeu uns copos.  
Uma parvoíce, é claro, porque posto daquela maneira parecia que o grave era o tal médico ter confidenciado isso publicamente e não o tê-lo feito. E não é apenas o médico que deveria ter cautela com o que escreve se estiver aberto ao público em geral, toda a gente devia ter esse cuidado e mais ainda, obviamente, as profissões baseadas em relacionamento humano.
Ora a medicina deve ser das profissões mais antigas e mais globais do mundo. Tratar da saúde do seu semelhante, até nas cavernas dos homens primitivos e nas ilhas mais remotas da Polinésia, se encontra ou encontrou quem o faça. É um trabalho importantíssimo e de prestígio social.  É verdade que de vez em quando ouvimos dizer "eu não gosto de médicos!" (o mais comum é "eu não gosto de hospitais!") uma declaração que me faz sorrir porque o que essas pessoas não gostam é de estar doentes. E, claro, também não gostam de se sentir dependentes do saber de outrem, mas duvido imenso que depois de adoecerem não gostem de ser tratadas!!! Era cá um raio de um masoquismo....
Mas, voltando ao facebook, por acaso já me aconteceu ter uma consulta marcada para uma primeira vez e ir espreitar se esse médico tinha facebook. A sério! Via a cara dele, a idade, de onde era, por acréscimo se era casado e tinha filhos, e até talvez o seu clube de futebol... Vantagens? A humanização.
De vez em quando volto ao mesmo, mas para mim é importante. Exactamente porque estamos inquietos com a nossa saúde, sentimos que vamos expor-nos num momento de fragilidade. É importante ter a sensação que à nossa frente está alguém que nos vai entender, um ser humano.
Já me tem acontecido (poucas vezes, graças aos céus!) estar à frente de alguém que faz perguntas mecanicamente e no fim me estende um papel. Como gosto de ficção científica, imagino nessas alturas um self-service de saúde: uma cabine, e folhas de papel, não não! um monitor com perguntas onde ia clicando um sim ou não, e minutos depois um diagnóstico aparecia no ecrã e saia uma palete de comprimidos de uma ranhura. Rápido e asseado.
Como por enquanto a relação ainda faz parte do processo, gosto de saber com quem estou a falar, é bem mais agradável. E, quando estou doente os casos onde tenho recuperações mais espectaculares são sempre quando sinto a empatia do médico.
Portanto, para mim as redes sociais são tal e qual como um medicamento - fazem bem se não abusar, tomar com cautela, e não esquecer os efeitos secundários (privacidade)
Afinal uma simples questão de Bom Senso.



Cereja

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Liberdade a sério"

Hoje acordei bem disposta.
O dia desta vez estava bonito, um pouco fresco mas havia sol, e eu sou estupidamente influenciada por estas flutuações sol/chuva. É véspera do 25 de Abril, e desde há 40 anos o dia que era importante para mim por motivos pessoais, deixou de ser uma data 'caseira' e passou a ser «O» 25 de Abril. E este ano, não por ser um número redondo mas devido à conjuntura, apetecia-me comemorar sobretudo na rua, com a multidão que acredito (acreditava?) sentir o mesmo que eu.
Precisei de ir à farmácia logo de manhã cedo.
Já havia vários clientes, idosos, com ar resignado. Uma senhora de aspecto simpático, refilava com a senha que tinha tirado, que de facto não estava na sequência devida, mistérios das máquinas que às vezes têm caprichos. Trocámos sorrisos. Ela entretanto encontrou uma conhecida e falou-se que amanhã era feriado. E rebentou o dique - que para ela não devia ser feriado, que hoje se devia chamar dia da saudade, que dantes era bem melhor, e ia repetindo "temos liberdade, isso é, mas é só isso" e pouco depois voltava "só ganhamos a liberdade" e em seguida "tirando a liberdade estamos pior em tudo"... etc. E ninguém se lhe opunha.
Depois disso precisei de ir comprar fruta e pão e enquanto esperava na bicha da caixa ouvi o eco da conversa da farmácia. Tal e qual. "Ganhamos a liberdade, mas para que serve?" Duas pessoas primeiro e outras depois, dizendo quase o mesmo - o único lucro da revolução dos cravos era a liberdade, mas isso não se come nem paga a renda da casa.
É verdade, agora já chove de novo, talvez por isso perdi a animação com que acordei.
Mas o que devia ser explicado, e eu por timidez não consegui dizê-lo àquelas pessoas, é o que nos disse o Sérgio há muitos anos - não há Liberdade a sério sem justiça social, sem as condições básicas de vida garantidas.
Por isso há tanto desânimo. Falta tudo quase tudo o que garante a verdadeira liberdade.




Cereja