Era eu pequenina, no post-guerra, e tudo se aproveitava. Não
se ouvia tanto a palavra poupar mas sim aproveitar, não desperdiçar nadinha, que
‘desperdiçar’ era então o maior dos pecados e nada se deitava fóra. Tudo se aproveitava, dos papeis velhos
para dar brilho aos vidros ou acender a braseira, às guitas dos embrulhos
com que se faziam pegas para a cozinha em crochet, das cascas da
fruta fazia-se geleia, e a louça rachada levava uns ‘gatos’ para ainda servir
na cozinha… Hoje chamam-lhe reciclagem.
E recordo a minha avó mostrar-me como se fazia manteiga.
Tinha numa tigela as natas que tinha guardado das que tinham ficado no passador
do leite e começou a batê-las com energia. À mão é claro, que não havia nada eléctrico
na cozinha para além da lâmpada da luz! Ao fim de um bom bocado mostrou-me um líquido aguado – era o soro – e umas bolinhas amarelas, a manteiga!
Juntou as bolinhas todas, deitou-lhe uma pedrinha de sal, e barrou uma fatia de
pão para o meu lanche. Fiquei maravilhada, e é uma imagem que ainda recordo. A
manteiga fazia-se assim!
……………..
Desde há uns tempos que se costuma ver nos balcões dos supermercados,
para além de manteiga com sal, sem sal ou de meio-sal, uma
manteiga light ou ‘magra’. Aceito a
existência de produtos leves, com menos gordura do que o habitual. Parece que
andamos a comer gordura, sal e açúcar a mais e uns anjos da guarda desde que paguemos fornecem-nos
a solução - esses tais produtos sem açúcar, sem gordura, etc. Mas estranhei
que um produto que é há milhares de anos conhecido e utilizado por ser uma
gordura agora o não fosse. Então o que é aquilo, para que serve? Andava
intrigada, mas obedientemente comprava dessa manteiga que devia ser melhor.
Ora acontece que entretanto reparei, entre diversa informação, nesta nota: "Aviso: este produto não é indicado para fritar". Fiquei perplexa, então agora não se pode fritar um alimento numa gordura? Que estranho... Mas, como faço muito poucos fritos e nunca em manteiga que é coisa cara, não pensei mais nisso. Até que este fim de semana apeteceram-me uns ovos mexidos, e deitei uma colher de manteiga na frigideira. Surpresa! 'Aquilo' não derreteu como eu esperava, ficou lá um creme amarelo com uma consistência esquisita e os ovos não ficaram com o sabor que esperava. Ooooh! Fui então ler as letras pequeninas. Há lá imensas coisas, até aromas e corantes (?). E a gordura parece ser apenas 39%, quando na verdadeira manteiga é suposto serem uns 80%. Dúvida: então, o que são os outros 41% que estão a encher aquela embalagem??


