terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Manteiga 'magra'?...nã, nã!



Era eu pequenina, no post-guerra, e tudo se aproveitava. Não se ouvia tanto a palavra poupar mas sim aproveitar, não desperdiçar nadinha, que ‘desperdiçar’ era então o maior dos pecados e nada se deitava fóra. Tudo se aproveitava, dos papeis velhos para  dar brilho aos vidros ou acender a braseira, às guitas dos embrulhos com que se faziam pegas para a cozinha em crochet, das cascas da fruta fazia-se geleia, e a louça rachada levava uns ‘gatos’ para ainda servir na cozinha… Hoje chamam-lhe reciclagem.
E recordo a minha avó mostrar-me como se fazia manteiga. Tinha numa tigela as natas que tinha guardado das que tinham ficado no passador do leite e começou a batê-las com energia. À mão é claro, que não havia nada eléctrico na cozinha para além da lâmpada da luz! Ao fim de um bom bocado mostrou-me um líquido aguado – era o soro – e umas bolinhas amarelas, a manteiga! Juntou as bolinhas todas, deitou-lhe uma pedrinha de sal, e barrou uma fatia de pão para o meu lanche. Fiquei maravilhada, e é uma imagem que ainda recordo. A manteiga fazia-se assim!
……………..

Desde há uns tempos que se costuma ver nos balcões dos supermercados, para além de manteiga com sal, sem sal ou de meio-sal, uma manteiga light ou ‘magra’.  Aceito a existência de produtos leves, com menos gordura do que o habitual. Parece que andamos a comer gordura, sal e açúcar a mais e uns anjos da guarda desde que paguemos fornecem-nos a solução - esses tais produtos sem açúcar, sem gordura, etc. Mas estranhei que um produto que é há milhares de anos conhecido e utilizado por ser uma gordura agora o não fosse. Então o que é aquilo, para que serve? Andava intrigada, mas obedientemente comprava dessa manteiga que devia ser melhor.
Ora acontece que entretanto reparei, entre diversa informação, nesta nota: "Aviso: este produto não é indicado para fritar". Fiquei perplexa, então agora não se pode fritar um alimento numa gordura? Que estranho... Mas, como faço muito poucos fritos e nunca em manteiga que é coisa cara, não pensei mais nisso. Até que este fim de semana apeteceram-me uns ovos mexidos, e deitei uma colher de manteiga na frigideira. Surpresa! 'Aquilo' não derreteu como eu esperava, ficou lá um creme amarelo com uma consistência esquisita e os ovos não ficaram com o sabor que esperava. Ooooh! Fui então ler as letras pequeninas. Há lá imensas coisas, até aromas e corantes (?). E a gordura parece ser apenas 39%, quando na verdadeira manteiga  é suposto serem uns 80%. Dúvida: então, o que são os outros  41%  que estão a encher aquela embalagem?? 
Que raio andamos nós a comer?!


Pé-de-Cereja

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O tempo e as modas



Li ontem uma notícia engraçada:
As mulheres residentes em Paris já podem usar calças mesmo sem ser para andar de bicicleta ou a cavalo esclarece o ministério dos Direitos da Mulher francês, afirmando que uma lei do século XIX que o proibia já não tem valor jurídico” porque até agora “qualquer mulher que queira vestir-se como um homem deve apresentar-se perante uma unidade policial para obter uma autorização."
 
Pois claro!!! Há quem esteja esquecido que até há pouco ainda vigorava em França o Código Napoleónico que olhava para as mulheres como animais domésticos, mais ou menos…

E esta coisa das calças caiu mesmo em cima de uma reflexão que estava na altura a fazer. É que, de vez em quando, dá-me para olhar para trás, para o tempo em que…
Eu gostava, e ainda hoje acho alguma graça, à chamada science fiction e imaginar como será o mundo, como será a sociedade, como serão os costumes, daqui a uns tempos. Um exercício de fantasia e imaginação. E um dos aspectos mais pacíficos, é imaginar o vestuário. Como serão os fatos que se vão usar daqui daqui a X anos? E é um jogo interessante, porque a roupa que se veste hoje era inconcebível na minha adolescência. Comprar-se uma peça já com aspecto de velha?! Umas calças desbotadas ou manchadas? Ou até… rotas?! De pro-pó-si-to? Vestir algo de manga curta por cima de manga comprida? Cores que não condigam? Dois padrões diferentes na mesma toilette? Enfim, os erros de vestuário no que seria a visão da minha avó e deviam deixá-la horrorizada.
Mas a grande revolução são as calças!  As calças, senhores, as calças!
Os homens usam calças, as mulheres usam saias. Ponto final. Havia casos, a Marlene Dietrich. Ok, está bem. E as estrangeiras podiam usar calças, já se sabe, mas eram estrangeiras gente um tanto amalucada. Bem, eu que quando era nova era também um tanto amalucada, até me atrevi a andar de calças em Lisboa, apesar de jamais poder entrar na faculdade nesse atavio, que seria uma grande falta de respeito! Mas arrisquei-me a passar pelo Saldanha e ouvi várias gracinhas... em francês porque lá achariam que portuguesa é que eu não era. Muito me ri!
Ora no dia em que reparei nesta notícia, por coincidência tinha-me lembrado desses tempos e tinha-me dado para me pôr a contar (podia ter-me dado para pior!) as mulheres que encontrei na rua a usarem saias. Imaginei os olhos arregalados da minha avó, porque imagine-se que senhoras de idade, nem uma eu vi! As mulheres que encontrei - desde velhinhas bem velhinhas usando calças discretas, a jovens com calças coladas às pernas tipo Leggings, além da uma esmagadora percentagem de jean’s (que não existiam na minha adolescência) - 99% das mulheres com quem me cruzei vestiam calças.  A saia é agora 'especial': vi uma jovem de super-mini saia, 50 pares de calças depois reparei noutra de maxi a arrastar e, eventualmente, apareceu uma senhora aperaltada num saia-e-casaco para uma ocasião especial…
É certo.
A saia passou à história que a roupa agora é unisexo.
E isso era inimaginável nos anos 50, olaré!






Pé-de-Cereja