Diz-se que a Natureza tem horror ao vácuo: quando há ameaça de tal suceder, ela muito despachada, vai logo preencher esse 'buraco'. Hoje, a sociedade moderna tem horror ao silêncio tanto quanto constato.
Aí pela semana passada deixei uma nota no facebook, onde dizia que mesmo correndo o risco de me considerarem a perfeita anormal achava que ouvir música debaixo de água era para mim um disparate completo. Uma aberração!!! Vá lá, vá lá que não me bateram muito. :)
E, assim, volto de novo à carga aqui mais no aconchego do meu blog:
Ontem levantei-me de manhã e enquanto me arranjava, banho e pequeno almoço, liguei o rádio que me foi dando notícias e música. Agradável.
Antes de sair precisei de fazer um telefonema que demorou muito mais do que calculava e, enquanto esperei, foram passando música. Enfim...
Saí, e no caminho para o metro, fui atrás de um adolescente que ouvia música no mp3 com o som tão alto que me obrigava a partilhar os seus gostos musicais. Ai, ai, ai...
No cais do metro, fui presenteada com as escolhas musicais que o chefe da estação devia apreciar. Já chega!
Entrei em lojas, para as compras de que precisava, ao som de um conjunto de músicas 'para dar ambiente'.
Depois precisei de ir a uma empresa e no elevador fui ouvindo a música a condizer.
Chegada ao andar tive de ir para a sala de espera onde esperei ao som de música.
Atendida e despachada voltei a descer com o tal acompanhamento musical e esperei um autocarro onde viajei sentada ao lado de uma senhora que também tinha o seu mp3 ligado de forma a que todos podíamos partilhar os seus gostos.
Ainda entrei num Centro Comercial para procurar um produto, sempre acompanhada de música, e aproveitei para ir à casa de banho com mais música.
Por fim fui almoçar com uns amigos a um restaurante que generosamente nos oferecia «música ambiente».
Ou seja, uma pessoa que viva em sociedade nos dias de hoje tem de ter os seus ouvidos permanentemente «tapados». No caso que me entretive a contar eram sobretudo músicas mas, por exemplo, em qualquer sala de espera se não há música há uma tv ligada. E a lista de locais «com música» é infindável: cabeleireiros, vários transportes públicos, garagens, consultórios, são poucos os locais que escapam.
É certo que numa cidade é raro haver silêncio. Mas esta obsessão de ocultar os sons naturais com os sons artísticos para mim é um pouco como ter a cara suja e por-lhe pó-de-arroz.
Há muita, muitíssima coisa, dos hábitos actuais que partilho com prazer e gosto.
Mas este não!
É que já começo a embirrar a música com tanta música...
Por favor, podem ficar caladinhos, siiiim?
Pé-de-Cereja