terça-feira, 15 de novembro de 2011

Gente e robots

Quando eu era jovenzinha adorava ler ficção científica. 
Tinha toda a colecção argonauta, desde o primeiro volume! Aliás em ficção científica (e não só) sempre preferi ler a ver as mesmas histórias em cinema. Não sei porquê, o futuro em cinema é sempre escuro e deprimente. Em romances não, conheço alguns bem optimistas, onde se fala de sociedades, distantes é claro, quer no espaço quer no tempo, onde a vida é mais justa e mais fácil. Tão bom.
É, aliás, muito interessante ler algumas histórias escritas nos anos 50 ou 60 em que o futuro é muuuito distante, lá para o remoto ano 2.000 ou 2001, onde a vida é tão diferente e pode ser tão boa. Não se imaginou nada do que se passa hoje, mas fantasiou-se outras coisas muito interessantes.
E muitas vezes são histórias com robots, é claro. Não esquecer os robots.
Ora  estes pensamentos estas recordações vieram porque vou sentindo cada vez mais que os seres humanos estão a ser substituídos por robots. Não, não, claro que não são robots em forma de gente, são 'apenas' máquinas, mas vem dar ao mesmo. Quando eu era mais nova ao comprar o que precisava para o dia a dia, ia à mercearia, ao lugar de hortaliça, ao talho. Conversava com quem estava ao balcão que me pesava um quilo de arroz, ia buscar um molho de agriões, ou cortava 4 costeletas. Faziam as contas num papelinho, muitas vezes com a prova dos nove ao lado, recebiam o dinheiro, davam o troco. Havia calor humano, mesmo que demorasse algum tempo a ser atendida. Anos depois abriu um super (hiper?) mercado e era muito engraçado, íamos buscar às prateleiras aquilo que se queria, já pesado e embrulhado, e pagava-se tudo no final à pessoa que estava sentada à caixa registadora. Atendia-se muito mais gente em menos tempo e apenas com um empregado. Achei prático e até gostei.
Quando comecei a trabalhar, uma vez por mês ia ao meu serviço um senhor com uma pasta e muitos envelopes e pagava-nos o ordenado. Eu pegava naquele envelope e ia a correr ao banco depositar o dinheiro. Uns anos depois pediram-me o número da contra e passei a ter o dinheiro lá depositado no dia do pagamento. Muito bom, mais seguro e prático. Gostei.
Para comprar gasolina para o carro, ia até a uma bomba e o senhor que lá estava tratava desse fornecimento, mexia lá numas torneiras, metia a gasolina no depósito e nós pagávamos-lhe. Uns anos mais tarde aprendi, e afinal era fácil, pegar na mangueira indicada e vigiar os litros que iam entrando, depois era só ir à caixa pagar. 
Quando precisava de almoçar fóra de casa sentava-me a uma mesa, o empregado mostrava o menu, escolhia, traziam-me o prato, comia, pagava e saía. Tempos mais tarde apareceram uns locais onde só se precisava de pegar num tabuleiro, seguir junto a um balcão e tirar os pratos que se quisesse e no final pagar na caixa. Mais rápido e prático.
O gás, água, electricidade, vinha todos os meses um empregado à nossa casa que contava o que se tinha gasto e recebia o que devíamos do mês anterior. Perca de tempo. É claro que a contagem podemos fazê-la nós e o pagamento pode ser electrónico, ou até automático.
Tudo isto se foi dando quase sem se dar conta, com pezinhos de lã...  Mas foi crescendo e alastrando. No supermercado, os artigos que ainda têm de ser pesados, já se podem pesar nas caixas. Ou, melhor ainda, nalguns deles somos nós, os compradores que fazemos tudo: pomos no saco, pesamos, colamos a etiqueta com o preço, e vamos pagar à caixa, e temos até já a variante de ser o consumidor que passa o códigos de barras no leitor, espera pelo total, faz o pagamento na máquina e vai-se embora... Que tal? Mais uma vez, prático.
.......................
A verdade é que com este 'truque', fazer com que sejam os consumidores a trabalhar para si próprios, consegue-se maior rapidez sem dúvida, e... poupa-se imenso nos salários! Deixou de haver atendimento por seres humanos, servimo-nos a nós mesmos e a relação que temos é apenas com máquinas que não adoecem, não têm emoções, não têm problemas familiares. Se há algum engano a culpa é nossa, não é? as máquinas não se enganam.
É um clássico afinal - os robots ou os humanos manipuladores, vão expulsando para a marginalidade do desemprego os humanos excedentários.
Nesses romances que eu lia costumava haver um herói.
Onde está? 



Pé-de-Cereja

domingo, 13 de novembro de 2011

Sangue do meu sangue

Fui ontem ao cinema com alguma urgência. Receava que o filme saísse do cartaz, uma vez que já só vai num cinema de Lisboa - «Sangue do meu sangue». Esperava ver um bom filme, pesado. Assisti a um excelente filme e um drama talvez menos pesado do que era o meu receio, uma vez que a parte mais dramática era indispensável nesta história.
Um filme sobre o amor, e sobre mulheres. Mulheres que ali têm uma força, uma coragem, uma iniciativa, uma capacidade de trabalho, que me deixa orgulhosa de pertencer ao mesmo género. A vida tão dura mas a que se resiste de uma forma exemplar, vivida num bairro social meio degradado. A promiscuidade a que não se pode fugir pela pequenez das casas de paredes finas, que nos é dada pela banda sonora onde há permanentemente um som de conversas muitas vezes tão alto que o que se conversa no quarto ao lado se ouve melhor do que aquilo que se está a dizer à nossa frente. Esse som permanente, seja da tv a relatar futebol ou noticiário, seja dos vizinhos a berrar uma discussão, seja de crianças a chorar, seja os sons de quem está a fazer amor tão perto que parece estar em cima de nós… Esse é dos efeitos melhor conseguidos, o ruído constante e permanente que tudo invade, que tudo domina.
E, também é claro os espaços de habitação pequeníssimos e superlotados, que levam a que a noção de privacidade (?) seja um luxo impensável.
Mas as mulheres são as grandes estrelas do ‘sangue do meu sangue’
A estrela principal, a mãe. Mãe solteira ainda jovem que aos 42 anos tem uma filha de 21 e um filho de 18. Que criou e educou sozinha. Sabe que o filho não se comporta bem, já esteve ‘num colégio’ por furto mas desconhece que agora se move nas areias movediças da venda de droga. Contudo, mulher inteligente que é, decerto só desconhece porque nem quer encarar essa hipótese que a sua meia irmã, tia do rapaz sabe muito bem. A filha, em quem a mãe deposita muita esperança, é enfermeira e está a estudar. Tem um namorado, vigilante num supermercado que quer casar com ela.
A tia ainda muito nova, cabeleireira, vivendo e trabalhando no mesmo espaço minúsculo, ajudou-a a criar os filhos e mantém uma relação de grande protecção com o rapaz, que tenta auxiliar nos graves sarilhos onde se mete. Ajuda essa que vai até aos últimos limites.
A filha, 21 anos, relativamente independente, deixa-se encantar por um professor, médico, que a seduz com alguma facilidade pois o contraste de linguagem e comportamento é grande em relação ao seu namorado, o vigilante do supermercado.
Estas 3 mulheres, dominam todo o filme. A intensidade do seu amor - pelos filhos, pelo sobrinho, pelo sedutor, é perturbante e dominadora.
Como vi a versão maior, penso que na outra talvez tenham cortado algumas cenas de sexo, para mim excessivas porque não acrescentam nada à história. Assim como também achei demais (mas isso pode ter a ver com o meu feitio e o tipo de educação que tive) o excesso de palavrões, era rara a frase trocada sem um ou dois palavrões…
Mas a avaliação geral é muito elevada.
O realismo muito forte das imagens, a banda sonora que tudo invade e é fundamental, o ritmo especial que nos deixa imaginar que foi filmado em tempo real, a solidão de algumas imagens nocturnas, tornam «O sangue do meu sangue» um filme muito bom em qualquer parte.



Pé-de-Cereja

sábado, 12 de novembro de 2011

Cultura e Filas de espera

Quando muita gente espera por alguma coisa manda a educação que se forme uma fila (*)
Onde se vê isso com mais frequência é nas paragens do autocarro, mas a cortesia ensina que se deve fazer sempre que há várias pessoas à espera e não existam senhas de chegada.
Como moro para esses lados, passei ontem mais uma vez em frente do edifício da Segurança Social no Areeiro. E, também mais uma vez, reparei um pouco distraidamente no enorme comprimento da fila de espera que quase chegava ao Largo do Areeiro, de manhãzinha ainda as portas não tinham sido abertas.
É um espectáculo habitual.
Mas desta vez senti um clic porque de imediato associei a que ainda há uns 15 dias atrás tinha passado por umas outras filas tão grandes ou ainda maiores. Tão grandes, é verdade, que apesar do interesse que eu sentia por entrar nos locais a que essas filas davam acesso desisti sempre porque o tempo que eu tinha era bem curto e assim preferi ver outras coisas que se podiam ver sem ter de esperar.
Refiro-me a uma pequena viagem que fiz a Paris, e as filas a que me refiro eram para entrar em museus, em monumentos, em exposições.
O contraste das duas imagens que sobrepus arrepiava. De um lado a espera alegre para o acesso à cultura, do outro a espera angustiada para ser atendido pela Segurança Social... E o que me deixou a pensar ainda mais no caminho que precisamos de percorrer foi que, mesmo no tempo das vacas 'menos-magras', nunca observei uma grande fila para entrar num museu ou numa exposição. Talvez em concertos de algumas bandas famosas... ou desafios de futebol... e pouco mais. Nem entendo porque é que o Secretário de Estado da Cultura vai cortar com as entradas grátis ao Domingo, assim como assim eles têm tão poucos visitantes, não é com essa mesquinha economia poupança que vai endireitar o orçamento.
[«endireitar» ? ]






*(refiro aqui sempre a palavra fila para uma coisa que 'no meu tempo' se designava em linguagem mais coloquial como 'bicha'; desde alguns anos, por influência do brasileiro creio, esse termo passou a ter exclusivamente outro sentido e passou a chamar-se sempre fila quando nos queremos referir a uma fileira de pessoas umas atrás das outras....)


Pé-de-Cereja

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11-11-11




Muito bem.
Capicua?
Palíndromo? (tchi, que palavra difícil...)
Bolas, às 11 da manhã estava muito entretida a fazer outra coisa e nem dei por esse momento místico passar.
E o coitadinho do  bebé que nasceu às 11 horas e 11 minutos?! Quando ele  fizer 11 anos é que vai ser uma festa


Huummm... Afinal é 11 do 11 de 2011, vem aqui o 2 estragar a simetria, isto não é nada é perfeito.

Assim não brinco!

Pé-de-Cereja

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O óbvio

Sondagens.
Como todos estamos fartinhos de saber, as sondagens servem para muito pouco, para além de dar trabalho a muita gente. Ou dizem uma coisa ao contrário do que nós pensamos (e acha-se logo que foram mal feitas) ou dizem aquilo que também pensamos, e encolhemos os ombros pensando «pois claro!»
Li há momentos mais uma que nos diz uma 'grande novidade': os portugueses mudam os seus hábitos de vida.
Era preciso uma sondagem?
Como é que não se há-de mudar os hábitos de vida? O que me admira nesta sondagem e lança alguma dúvida sobre a quem é que foi aplicada (classe média/alta?) foram as respostas sobre o que é que vamos cortar: os cinco pontos que são focados são coisas que JÁ foram cortadas há bastante tempo. Isto, falando por mim, que há uns tempos estaria na classe 'média/média' :) e já reduzi drasticamente, há bastante algum tempo, todos os itens que ali focam - refeições fóra, divertimentos, vestuário e carro.
Porque aquilo é o óbvio, o que entra pelos olhos dentro. Até me atrevia a dizer que aquilo é em certa medida o supérfluo. É desagradável prescindir, tira-nos qualidade de vida, mas consegue-se viver sem isso - sobretudo se soubéssemos que este furo mais apertado no cinto era para toda a gente, que é o que não sucede e daí a indignação...
Não são esses cortes que me preocupam.
Preocupa-me sim, adiar a visita semestral ao dentista e decidir que só lá vou quando me doer um dente.
Preocupa-me perante uma receita de medicamentos, pensar que alguns «podem esperar» e pedir para aviarem só os indispensáveis.
Preocupa-me ter de reduzir (por enquanto é reduzir) as horas da mulher-a-dias, sabendo bem a falta que lhe vai fazer o dinheiro que lhe pagava.
Preocupa-me ter um electrodoméstico avariado e pensar «deixa lá, não faz assim muita falta» em vez de o mandar arranjar, pelo sentimento de degradação que perante isso eu sinto.
Preocupa-me sobretudo, muito, muitíssimo, o pensar no meu filho e seus amigos sem trabalho, sem estabilidade, sem futuro.
Nesta sondagem mais de metade dos inquiridos falam em imigrar. Muito bem. E... para onde? África??? Brasil???
Parece-me que essa é a questão.




Pé-de-Cereja

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O presente no passado

Há uns cinquenta anos fiz uma viagem que ainda brilha na minha memória: fui a Paris com o meu pai. Foram uns dias gloriosos. Já estive em vários países da Europa, já estive noutros em África, já estive em mais alguns no Oriente. Mesmo Paris, conheço razoavelmente de várias viagens e uma estadia prolongada de meses. Mas o que mais me marcou foi essa maravilhosa primeira semana em Paris com o meu pai.
Na penúltima semana de Outubro o ciclo fechou-se - voltei lá, desta vez com o meu filho!
Não tinha voltado há mais de 30 anos, e tinha sido repetidamente avisada «vais estranhar muito, está tudo diferente do que era». Bem, nós vemos as coisas com os olhos mas decerto que também com o coração, ou com as emoções. A atitude com que lá cheguei era muito semelhante àquela com que desembarquei noutros tempos, de braço dado com o meu pai - a convicção de que ia ser muito bom.
E foi maravilhoso.
Reencontrei todas as minhas melhores memórias: o céu azul transparente, um cheiro especial, a beleza do Sena, as ruas, as esplanadas, os bouquinistes, as escadinhas, os velhos prédios dos séculos passados com as suas mansardas e multiplas chaminés, os eternos monumentos tão belos como sempre... Surpresa agradável - os parisienses que eu recordava arrogantes, frios, distantes, respondendo com enfado, estavam normalíssimos e simpáticos até!!! Milagre.
Claro que não vou contar aqui no Cerejas a viagem - quem conhece a cidade não precisa disso, e quem ainda não conhece terá relatos melhores. Falo apenas de emoção. Reencontrar os lugares, as pontes, as ruas, os jardins, os bancos, o entardecer, o sol a bater na água do Sena, o céu dos dias de Outono, o perfume do ar...
Tal como da primeira vez, esta vai ser uma recordação que brilha dentro de mim como um sol.

Há 50 anos o meu pai....

O seu neto quase no mesmo sítio

Pé-de-Cereja

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poupar?.....


Dia da Poupança.
Diz o dicionário que poupar é «Gastar com moderação» ou «Não desperdiçar» mas é evidente que qualquer dos conceitos parte da base de que se possui aquilo que não se vai desperdiçar.
"Se não têm pão, que comam brioches" respondeu Marie Antoinette, numa frase célebre. Hoje, em Portugal, ouvindo alguns conselhos de uns senhores importantes, parece-me ouvir uma adaptação como se respondessem  «não comam brioches, comam pão» a quem se queixa de que já tem pouco pão, ou mesmo nenhum. Uma estranha surdez. Aconselham a não se gastar aquilo que já não se pode gastar porque não se tem!
Vi ontem num jornal na net, uma reportagem que me chamou muito a atenção.
Como podem reparar à pergunta «onde é que poupa?» os inquiridos, um tanto atrapalhados, vão enunciando diversos modos de gastar menos: comprar produtos brancos, não procurar divertimentos, não usar o automóvel, etc.
Não estava à espera de encontrar muitas sugestões que me servissem para as minhas poupanças (possíveis...) mas apesar de tudo, pensei que poderia encontrar ali uma ou duas ideias.
Sniff...
As tais poupanças que os inquiridos referem é aquilo que eu venho fazendo há muitos meses, ou até há anos!
Andar de transporte público, é o que faço. Uso o carro (bem velho coitadito) quando não há outra hipótese, em casos onde quem o não tem até chama um táxi.
Comprar preferencialmente produtos brancos, também. Aliás até já sei que mesmo assim devo ver bem os preços porque por vezes há promoções mais baratas do que os produtos brancos. Também já há muito tempo que costumo passar por diversas lojas comprando aquilo que é mais barato em cada uma.
Refeições em restaurante, há muito tempo também que cá por casa não se faz.
Divertimentos culturais, teatro, cinema, concertos, livros novos, reduziu-se drasticamente. Vou relendo os livros que tenho ou os que me emprestam, vejo tv, uso a net. Já não compro jornais, não tomo café na rua a não ser numa excepção ou acompanhada.
.......................
Os meus amigos riam-se dizendo que eu era muuuuito poupadinha. Agora confirmo que sim, mas...
Não chega.
A ganhar menos, a pagar mais impostos, a qualidade de vida tem caído na vertical.
Só tem subido a raiva que sinto ao ouvir os conselhos de quem fala de longe destas situações. Não querem mostrar na prática como se faz?....

Pé-de-Cereja

sábado, 22 de outubro de 2011

De regresso ao... (futuro? passado?)



A actividade deste blog tem sido pouca ultimamente.
A verdade é que o «facebook» tem roubado muitas das coisas que durante anos ia comentado por aqui. As minhas opiniões sobre a situação política ou os acontecimentos que se vai vivendo por aqui ou lá fora, ficam registados lá - é muito fácil e rápido, e a interacção com as pessoas que lêem quase instantânea. Claro que não-é-a-mesma-coisa. Aqui no blog explico-me melhor, os textos são maiores, a apresentação diferente. Mas a verdade é que leva mais tempo a escrever e publicar e tenho-me deixado tentar pela facilidade.
Mas hoje venho avisar que vou estar mesmo ausente quer do FB quer do Cerejas durante cerca de uma semana.
VOU DE VIAGEM!
Um viagem muito desejada e planeada durante a qual vou tentar deixar para trás os problemas actuais.
Não preciso informar onde vou, mas deixo a dica que não vou lá há mais de 30 anos e é uma das cidades mais lindas do Mundo.
Enquanto faço a mala sinto já o coração a bater tão forte como da primeira vez de todas que lá fui. E, recordando os meses gloriosos em que lá vivi, estudei/trabalhei, sabendo bem que as coisas não podem estar «na mesma» sobretudo porque eu própria não estou «na mesma», hesito se vai ser um regresso-ao-passado, um regresso-ao-futuro, ou qualquer coisa de bem diferente.
Até para a semana!



Pé-de-Cereja

domingo, 16 de outubro de 2011

A lata deles!....

 Recebi este mail, que me apetece partilhar aqui:


Estes são alguns dos indivíduos que vão rotineiramente à televisão explicar aos portugueses a necessidade de sacrifícios e de redução de salários...


Administrador não executivo da Sonaecom, da Mota-Engil e do BPI, António Lobo Xavier auferiu 83 mil euros no ano passado (não está contemplado o salário na operadora de telecomunicações, já que não consta do relatório da empresa). Tendo estado presente em 22 encontros dos conselhos de administração destas empresas, o advogado ganhou, por reunião, mais de 3700 euros.

O ex-vice presidente do PSD José Pedro Aguiar-Branco e agora ministro da defesa é outro dos "campeões"dos cargos nas cotadas nacionais. O advogado é presidente da mesa da Semapa (que não divulga o salário do advogado),da Portucel e da Impresa, entre vários outros cargos. Por duas AG em 2009, Aguiar-Branco recebeu 8 080 euros, ou seja, 4 040 por reunião.


Segue-se António Nogueira Leite, que é administrador não executivo na Brisa, EDP Renováveis e Reditus, entre outros cargos. O economista recebeu 193 mil euros, estando presente em 36 encontros destas companhias. O que corresponde a mais de 5 300 euros por reunião.


O segundo mais bem pago por reunião é João Vieira Castro. O advogado recebeu, em 2009, 45 mil euros por apenas quatro reuniões, já que é presidente da mesa da assembleia geral do BPI, da Jerónimo Martins, da Sonaecom e da Sonae Indústria



Proença de Carvalho é o responsável com mais cargos entre os administradores não executivos das companhias do PSI-20, e também o mais bem pago. O advogado é presidente do conselho de administração da Zon, é membro da comissão de remunerações do BES, vice-presidente da mesa da assembleia geral da CGD e presidente da mesa na Galp Energia. E estes são apenas os cargos em empresas cotadas, já que Proença de Carvalho desempenha funções semelhantes em mais de 30 empresas. Considerando apenas estas quatro empresas (já que só é possível saber a remuneração em empresas cotadas em bolsa), o advogado recebeu 252 mil euros. Tendo em conta que esteve presente em 16 reuniões, Proença de Carvalho recebeu, em média e em 2009, 15,8 mil euros por reunião.
.................
Embora não desempenhem cargos de gestão, os administradores são bem pagos. 
Por cada reunião do conselho de administração das cotadas do PSI--20, os administradores não executivos - ou seja, sem funções de gestão - receberam 7427 euros. Segundo contas feitas pelo DN, tendo em conta os responsáveis que ocupam mais cargos deste tipo, esta foi a média de salário obtido em 2009. Daniel Proença de Carvalho, António Nogueira Leite, José Pedro Aguiar-Branco, António Lobo Xavier e João Vieira Castro são os "campeões" deste tipo de funções nas cotadas, sendo que o salário varia conforme as empresas em que trabalham.


Podemos retirar daqui as conclusões que entendermos. Mas aceitar destes senhores comentadores de tv, que vão lá ganhar (mais) dinheiro para nos convencerem da necessidade de sacrifícios, a nós, quando eles mantêm as mordomias que se estão a ver, isso é demais.
Na manifestação de ontem, entre vários cartazes com muito humor, fixei um sério, muito sério. Dizia mais ou menos «Quando nos tiram tudo e já não temos nada a perder, então tudo é possível»
É nisso que os senhores das Agências e da troika deveriam pensar. Quando se aperta demais, é perigoso para eles, porque se não há nada a perder, então ...

Pé-de-Cereja

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma boa resposta

Helena Matos é jornalista.
Tem um curriculum importante. Actualmente dá a sua opinião no Público, para além do Basfémias. Ela é livre de escrever, assim como nós somos livres de não a ler. Aliás é o que tenho feito desde há algum bastante tempo.
Ontem ela deixou lá a sua opinião de um modo particularmente provocador. Não posso deixar o link porque é para quem paga e não irei pagar para isso... Hoje chegou-me por mão amiga uma resposta que me apetece deixar aqui na íntegra:

Em defesa da democracia indignada: uma réplica a Helena Matos

A dura crítica de Helena Matos ao movimento de ‘indignados’ no Público (13 Out 2011) será certamente tomada por muita gente como apenas mais uma peça de propaganda na luta aguda sobre as saídas da crise actual. É e não é.

Partilho algumas das suas preocupações quanto à ‘democracia genuína’ e a sua valorização da democracia representativa e constitucional. Ela diz basicamente que a democracia legítima deriva das urnas e não da rua. Contudo, o seu argumento parece-me demasiadamente formalista e unilateral.

Em primeiro lugar, há o problema da abstenção nos actos eleitorais. Pode-se afirmar que a abstenção é um exercício consciente expressando uma opção livre de participar ou não e, por isso, não põe um entrave à legitimação das maiorias constituídas nos actos eleitorais. Mas isso é um argumento meramente formal e inválido sociologicamente. Existem dinâmicas de exclusão que produzem uma parte da abstenção e que fazem com que uma parte substantiva dos abstencionistas na nossa sociedade não o seja inteiramente por expressão de livre vontade. Existem dinâmicas de disenfranchisement que operam mesmo sem o exercício de força.

Assim, em determinados momentos a participação na vida política do país ocupa outros palcos e arenas. Isto é sobretudo o caso de situações em que as clivagens de luta social são definidas não apenas por programas partidários elaborados para efeitos eleitorais mas por movimentos de protesto contra poderes instituídos.

Na conjuntura actual de crise do sistema económico e financeiro e da implementação de programas de austeridade, os próprios poderes instituídos – os poderes reais e não apenas formalmente constituídos – não possuem mais legitimidade democrática do que os movimentos de protesto. Não é preciso ser ‘marxista’ e ‘esquerdista’, como insinua Helena Matos, para avançar um argumento sério de que o poder real, que está a definir a crise da enorme maioria da nossa população, é o poder invisível do sistema financeiro capitalista globalizado e o poder visível dos homens que controlam as suas instituições e beneficiam da nossa miséria e insegurança.

Numa situação de crise como a actual, a democracia representativa e constitucional não tem respostas adequadas para largas camadas da população e até cristaliza alianças políticas de interesses que actuam com o intuito de resolver a crise em conformidade com as suas preferências. Estamos numa situação única, de crise do sistema socioeconómico que está a produzir um conflito profundo entre camadas da população.

Seria desejável que a crise pudesse ser resolvida pelo funcionamento normal das instituições da democracia representativa e constitucional. O problema é que os mandatos que emergem de um acto eleitoral podem não ter legitimidade efectiva e absoluta durante todo o prazo da sua vigência e podem nem sequer ser explícitos no seu conteúdo. Isso é de facto o caso de todos os últimos governos – que foram eleitos com base em programas eleitorais que foram contraditos praticamente no dia a seguir a sua tomada de posse. A nossa democracia representativa e constitucional simplesmente não é transparente. E na situação actual qual é o mandato que o nosso Governo está a traduzir nas suas políticas concretas: o mandato dos eleitores ou o entendimento com a troika constituída por entidades alheias e não eleitas? E, enquanto o Governo procura impor as reivindicações da CIP/AIP e os interesses privados esfomeados pelas migalhas do estado social – fazendo da concertação um palco para a exibição da sua prepotência anti laboral e anti-social, aonde poderemos encontrar a legitimidade democrática?

Helena Matos reflecte com bastante razão sobre os riscos envolvidos em situações em que existem reclamações antagónicas quanto à legitimidade do poder político em nome da democracia ‘genuína’. As suas observações com base na história do PREC são relevantes – mas não neste contexto politico. As clivagens sociais e lutas produzidas pela crise actual não são bem equivalentes às clivagens ideológicas e políticas do PREC.

É evidente que as manifestações internacionais e no nosso pais foram organizadas por gente ‘radical’ – entre a qual muitos eventualmente negariam a legitimidade da democracia representativa e constitucional em detrimento da mobilização da rua. Mas então? Isso é inteiramente normal – massas de pessoas não convergem espontaneamente a uma hora e num local sem o apelo de alguém. Todavia, o que caracteriza – pelo menos potencialmente – as manifestações dos ‘indignados’ e de ‘Occupy Wall St.’, nos EUA, é que, apesar do ‘radicalismo’ dos protagonista e das suas palavras de ordem, elas têm encontrado eco e recepção positiva em grandes massas de pessoas – muitas das quais levadas à politica pela primeira vez, ou seja, pessoas normalmente passivas e abstencionistas. É o efeito inevitável desta crise histórica e do transparente desequilíbrio de poder real entre os detentores do capital financeiro e os seus agentes e a enorme massa da população.

Teremos que ver quem se manifesta no Sábado. Quem serão eles e elas? Serão apenas os radicais? Duvido. Irei e não me acho assim tão radical! Mas já agora, acho que os protagonistas radicais destas movimentações estão a fazer um grande serviço à democracia – sejam quais forem os seus motivos ideológicos (e espero que não imponham as suas perspectivas sobre os outros participantes). É que a democracia representativa e constitucional tende a esvaziar-se em tempos de crise se for apenas um palco de legitimação dos interesses do capital financeiro globalizado e precisa necessariamente da inflexão da luta social.

Alan Stoleroff

 Subscrevo:
Pé-de-Cereja