Chamava-se assim uma secção de uma revista que via lá por casa, era eu miúda. Chamava-se "Selecções do Reader's Digest" (chamava-se e ainda se chama apesar de nunca mais ter lido nenhuma). Aliás é estranho esta recordação porque os meus pais não eram pessoas para comprar esse tipo de revista. Seja como for lembro-me bem de «Meu tipo inesquecível» e, é curioso, que essa expressão ainda me ocorre quando quero caracterizar alguém um pouco diferente.
Hoje apetece-me falar de uma pessoa a quem já me referi aqui várias vezes como «fada do lar». Trabalha na minha casa há uns 20 anos. Trabalhou, quero eu dizer. Foi agora de férias e já não volta. Tinha um outro emprego mais seguro do que simples mulher-a-dias, e esse passou a exigir-lhe exclusividade.
Quando há uns 2 meses ela, quase a chorar, me deu a notícia fiquei abalada. Durante estes 20 anos vi a filha-criança crescer, casar, nascer uma neta que também já está crescidinha. E ela também tem acompanhado a minha vida de perto, sabe mais de mim do que algumas amigas...
Demo-nos sempre bem, como gente educada devo dizer. Nem sempre ela estava de acordo com algumas decisões minhas e sorrateiramente lá conseguia levar a dela avante, assim como eu também me irritava com algumas teimosias da F. que conseguia ser casmurra até mais não. Mas éramos amigas.
Gostava muito de conversar. Sempre que me encontrava em casa eu ficava a par das suas histórias familiares com grande cópia de pormenores, das vidas das colegas, punha-me a par das últimas fofocas que tinha ouvido na tv. Reconheço que muitas vezes nem a ouvia bem, mas sentia que ela ficava muito aliviada com aqueles desabafos. E eu até me sentia lisonjeada em parte, afinal era consideração por mim pois até os extractos do banco me vinha mostrar e pedir conselho!
Meia analfabeta, começou a trabalhar quase criança nem tendo completado a 3ª classe, mas um espírito vivo, sabia o suficiente para uma vida activa e desembaraçada. Lia as sms que lhe enviavam mas para responder pedia-me ajuda que aquilo já eram cavalgadas mais exigentes. Profundamente prestável, até era errado pedir-lhe um favor, que por mais transtorno que lhe fizesse ela fazia-o de certeza.
No último dia, decidimos de comum acordo, não nos despedirmos; fiz a contas, dei-lhe uma lembrança e combinámos que ao sair ela deixaria as chaves à vista e fechava a porta. Quando regressei tinha a casa cheia de flores o que me enterneceu mas não espantou, mas fiquei com um nó na garganta - sabendo bem que ela não escrevia - quando encontrei um papelito. Numa letra muito esforçada que se lia com dificuldade e muitos erros ela deixava os seus agradecimentos, a sua saudade e o seu desgosto. Isso sim, foi muito comovente.
Ainda não aceitei bem que não a vou ter agora por cá. Dou por mim a pensar «a F. vai achar graça a isto», e ainda há pouco saiu-me «tenho de mostrar isto à F.»
Vou sentir muito a sua falta.
Que a sua opção resulte bem são os meus desejos mais sinceros.
Pé-de-Cereja










