terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Miséria, ignorância e preconceito de género

A história arrepia qualquer um.
E depois do arrepio de horror, faz pensar. Em poucas palavras um homem deitou o corpo de um bebé, embrulhado em papel, num contentor de lixo . Não é uma ideia parva de um filme de terror, é uma realidade, filmada e tudo. Havia uma câmara de vigilância no local para azar dele.
Acrescente-se que «o embrulho» foi achado com rapidez por uma velhota que o aqueceu e levou ao hospital, e anunciam que 'está bem de saúde'.
No decorrer da história informam-nos que esse homem era o pai da criança, que tinha nascido em casa, com 8 meses, a mãe não tinha feito nenhuma consulta durante a gravidez, nasceu com uma cor estranha, roxa, o que fez os pais pensarem que tinha uma doença grave e fatal e nem valia a pena levá-la ao hospital.
Ah, tudo isto se passa na China. Evidentemente que só sei o que li nos jornais que não é mais do que isto, mas um deles fala em filha, e menina. 
De qualquer modo não se pode ter dúvida de que estes pai e mãe vivem com pobreza, até usaria a expressão na miséria, e têm pouca educação, poucos conhecimentos. E não compreendem o horror do gesto por isso explicam, com aparente ingenuidade, o que fizeram e porquê. Como se fosse um animal, só que hoje em terras do primeiro mundo já não se fazia assim com um animal de estimação que tem direitos por lei... A criança nasceu antes do tempo, pareceu-lhes estranha como receavam e portanto deitaram-na fora, a amostra de ser humano não era viável.
Imagino portanto que fossem pessoas bastante pobres (o nunca terem ido ao um médico é um indicador) e bastante incultas. Contudo, por aquilo que sei do povo chinês, é de uma forma geral pelo contrário, um povo que gosta de crianças, até muito. 
Então como se rejeita um filho, sem tentar nada para o salvar?!
Porque o recém nascido não era um menino, era uma menina. Simples.
Já há alguns anos, falando com uma mulher chinesa muito chorosa por causa do filho, repetiu-me várias vezes a sua pouca sorte porque ele era filho único. Aquele casal só tinha um filho, e ele tinha dificuldades, que desespero. Já no fim da conversa, deixa cair que as irmãs eram espertíssimas. «Irmãs?» perguntei eu «disse que era filho único». Pois era. Rapaz era só ele, o filho, embora também tivesse raparigas explicou-me de modo indiferente.
Esse preconceito de género, que se vê atenuar em países do Primeiro Mundo, é fortíssimo na Ásia. Talvez nos ajude a entender como é possível «deitar-se fóra» uma menina que parece estragada.




Cereja

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Supernanny

Tem agitado espectadores, a Comunicação Social e as nossas Redes Sociais. Muita gente que não viu o tal programa, como eu, dá a sua opinião porque este é um caso que não nos pode deixar indiferente. Muito raramente dou opinião sobre uma coisa que não vi, este caso é excepção, apesar de poder 'voltar atrás' e rever o programa não o quis fazer porque a Estação decerto conta as visitas e não quero aumentar esse número que é decerto enorme.
O nome, quando o li, levou-me a pensar na Nanny PcPhee um filme engraçado, onde realmente existe uma ama disciplinadora com bastante sucesso, ideia confirmada pela imagem da ama com o guarda-chuva. E julguei que seria uma série imaginada, com personagens fictícios, onde diversas situações com crianças rebeldes eram analisadas. Podia ser interessante, vem ao encontro de muitas das minhas preocupações sobre educação.
Mas ao ler alguns comentários percebi que afinal era um modelo ao vivo, tipo reality show. Como??? Um reality show com crianças? A portarem-se mal e serem reeducadas com milhares de pessoas a assistir? Não podia ser, era engano.
Era verdade, afinal. Com argumentos de que os-outros-países-também-fazem, e há anos. Parece que sim, infelizmente. E pelo que li, igualmente criticados. Em Portugal muita gente se manifestou escandalizada, li a opinião do blog Aventar que linka um programa radiofónico de Bruno Nogueira e também a opinião da Ana Sousa Dias e imensos outros, nem vale a pena referir tudo. Contudo, a SIC garante que 80% dos espectadores gostaram 😡
Entre os que gostavam li nas caixas de comentários dos jornais o mesmo argumento: se as crianças entram em programas como Master Chef Junior, telenovelas, anúncios, que mal tem este? Para além de tudo o que é referido estar errado, sem dúvida, sobretudo concursos onde a frustração é horrível, e devia ser também completamente proibido, o foco é o oposto. Uma criança que é exposta por ter uma habilidade especial, aparece porque é melhor, ou assim a consideram. É um elogio. Pode sentir-se bem, importante. Pode ser olhada na rua, invejada na escola, é o centro da atenção por ser boa. Claro que isso está mal mas a própria criança pode senti-lo assim. Nesta caso, é apontada a dedo por ser pior. Serve de modelo para o que não deve ser! Vai ser envergonhada se for reconhecida na rua, e gozada na escola. Isto é um bulling de uma estação televisiva!
E a «nanny» é uma psicóloga. Incrível. Um psicólogo a trabalhar em directo numa tv. Em directo. Nem sei como classificar aquilo, felizmente que existe uma Ordem e uma carteira profissional que pode ser retirada.
Um psicólogo pode ser muito útil a aconselhar pais de crianças rebeldes, indisciplinadas, sem regras, sem controlo. Pode e deve aconselhar primeiro os pais, observar e ouvir a criança, assistir à interacção pais/filho, até pode fazer uma visita a casa para ver como as coisas acontecem - aliás hoje há meios para se filmar umas horas da vida familiar sem mais ninguém a assistir. O que nunca pode é fazê-lo em público. Nunca, isso é o rigoroso oposto do seu trabalho que é confidencial.
Tenho pena dos meninos assim expostos, dos pais aflitos que caíram nesta armadilha, mas uma grande raiva de quem teve esta ideia sinistra e maldosa, e quem vai lucrar economicamente com ela.
Será que a onda de indignação pode travar o programa?
Tenho bem receio de que não. O valor do dinheiro é mais forte do que a sensibilidade.
Que vergonha!
Não da criança mas de quem assim procede.


(já depois de ter escrito este post soube que a SIC pôs no ar outra dose do mesmo, mesmo que os pais já estivessem arrependidos e pedissem que não fosse emitido o programa. E vemos que mais peritos estão de acordo em condenar o formato e dizem-no. Mas, claro, quanto mais se falar mais audiências...)


Cereja

domingo, 21 de janeiro de 2018

recordações

Deixei ontem no FB uma nota motivada por uma referência à Pastelaria Bernard mas o formato facebook é muito mais restritivo do que o blog de modo que venho espraiar-me por aqui, mais a minha casa...😉
A evolução do comportamento infantil da minha infância até a actualidade é impressionante. Claro que uma criança é uma criança, o que mudou radicalmente foi a sociedade. (ainda vou falar no «supernanny» mas não hoje)
Na década de 40 para uma criança como eu, era uma festa ir lanchar à Baixa. Não acontecia muitas vezes, os meus pais trabalhavam durante a semana e não nadavam em dinheiro, e as avós também não eram muito de sair... Mas havia um casal amigo dos meus pais, que vivia perto de nós, a casa de quem eu ia brincar, com a filha. 
A boa educação, algo rígida, reinava naquela casa que eu achava muito chic, com cortinas de veludo e cetim, móveis super-envernizados e bastantes dourados, duas criadas de farda e crista. A minha amiga era tipo menina exemplar. Todos usávamos bibe em casa nessa época, mas os meus eram aos quadradinhos, ou xadrez, para disfarçar as nódoas que eu lhe punha, enquanto o bibe da Milu era de piquet branco, com folhos e não se sujava!! Ela sabia as etiquetas sociais todas, e eu não. Numa das primeiras saídas que fizemos as 3 - a Milu, eu e a mãe dela, fui chamada à atenção porque balançava os braços a andar. Fica mal. Uma menina não anda assim, mantêm os braços junto ao corpo. Ui... Na vez seguinte a mãe dela ofereceu-me uma carteira pequenina mas como a das senhoras, para eu levar na mão e andar direitinha como-deve-ser.
Ora, neste ambiente, uma tarde fomos lanchar à Baixa! Estava radiante! A Pastelaria ou talvez Salão de Chá, era no Rossio creio, mas não era a Suiça. Depois de entrar descíamos uma escada muito elegante, o salão era em baixo e todo forrado a espelhos cor-de-rosa! Aaaaah! Lindo de morrer! Sentámo-nos a uma mesa, com toalha branca, e cheia de utensílios de prata (?) achava eu, chávenas de porcelana, tudo lindo. Fez-se o pedido, chá para a senhora e chocolate quente para as crianças, e um prato com bolos.
Era assim nessa altura, pedia-se bolos e vinha um prato com doçaria variada. O inconveniente é que como eram todos diferentes quem escolhia primeiro ficava em vantagem, mas é claro que se podia pedir ao empregado que trouxesse outro bolo... Já não sei se escolhi ou me calhou uma «tíbia», um bolo tipo eclair mas com uma ou duas bolas (cheias de creme, é claro) no extremo. Um belo aspecto, muito apetitoso. Lá comecei a manobrar o garfinho para cortar o bolo e a esforçar-me por fazer boa figura. Nota importante, eu teria nessa altura aí uns 6 anos. Eis senão quando, a bola da tíbia que eu queria separar salta-me do pratinho e vai aterrar na chávena de chá da senhora da mesa do lado!!!
Horror! Ia morrendo de vergonha. Estou a reviver a cena e ainda sinto um arrepio. Foi uma queda do céu para o inferno. De felicíssima fiquei apavorada. A coisa lá se compôs com ajuda do empregado que foi mudar a toalha, e apesar de tudo o meu anjo da guarda fez que o vestido da dama não ficasse salpicado. Mas o vexame, e o olhar de censura que recebi ainda hoje o sinto.
Outros tempos.
Muito diferentes. Mesmo muito.

Cereja

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Nem sempre sou do contra....

Há uma medida recente sobre a qualtenho ouvido críticas, e desta vez sou eu que não estou do contra 😁
E quando digo tenho ouvido críticas não estou a pensar em redes sociais apenas, embora seja aí, e até entre os meus maiores amigos, que encontre a maioria, é também por todo o lado e ao vivo. Ou em artigos de opinião como a Isabel Moreira ou até, há pouco tempo, a crónica do Ricardo Araújo Pereira na Visão. Ontem no autocarro, e na véspera na bicha da caixa do supermercado. Toda a gente irritada e muito crítica. É o pleno. É a unanimidade.
Fico confusa por dois motivos, é raro ver toda a gente de acordo sobre seja o que for, e também é raro ser a única que tem objecções quando o acordo é total. Na maioria dos casos costumo entrever no meio da generalidade de opiniões unânimes (?) uma ou outra voz que diz «pois é, tem razão, mas...» excepto nesta caso. Estou completamente isolada.
A questão é a famosa norma da «comida saudável» nos hospitais e centros de saúde.
É interessante porque eu até sou uma crítica das mais assanhadas quando o politicamente correcto me quer impor qualquer coisa, quer decidir por mim, não permite que seja eu com o meu livre arbítrio a escolher a decisão certa. Contudo, no caso em questão, sou a tal vozinha que diz «pois é, mas...»
Antes de começar a escrever fiz uma pesquisa e ainda só encontrei a norma relativa às máquinas de distribuição de alimentos, apesar de se falar por todo o lado dos balcões e cafeterias pelo que concluo que a norma já publicada , dos snacks, se estendeu agora a toda a alimentação fornecida nesses locais.
Ora bem, penso não ser discutível que a lista dos produtos que se devem evitar é correcta. Os fritos em muito óleo (croquetes, panados, rissóis etc) as sanduíches de alimentos processados e salgados, os folhados cheios de gordura como tem de ser, os temperos tipo maionaise, ketchup, o açúcar em exagero, cachorros, hambúrguers, pizzas, e por aí fóra ainda por cima vendidos em máquinas não podendo, obviamente, ser frescos... Estamos todos de acordo em como são produtos com demasiado sal, açúcar ou gordura, que deveriam ser evitados, não é? Ah, mas eu gosto muito e não me podem/devem impedir de os comer! 😕
Ora é aqui que eu penso «pois é, mas...»
Não se pode impedir, de modo nenhum, mas também não vale facilitar demasiado!
Aqui o ponto fulcral é venderem-se num estabelecimento de saúde! É esse o busílis. Cada um de nós pode comer ali o que muito bem lhe apetecer, se o trouxer consigo ou for até à pastelaria mais próxima, comprado ali dentro é que não. É assim tão estranho...?
Não tenho a certeza dos produtos que foram saneados, e aceito que tenha havido algum exagero, como muitas vezes acontece, e o exagero deve ser criticado. Mas de fome não se morre - têm sumo de fruta ou néctar, têm iogurte magro ou semi-gordo, tem leite, pode comer pão com fiambre, ou queijo, ou carne, ou atum, ou outros peixes de conserva, e pode comer fruta.
A alimentação é coisa delicada, se estamos num local que existe para tornar as pessoas saudáveis faz sentido não vender lá algo que a longo termo faça adoecer.
Detesto exageros fundamentalistas.
Mas este é um caso específico. tem de se começar por algum lado, e creio que este «lado» faz sentido. O que se come hoje não tem a ver com a louvada dieta mediterrânica, e nas máquinas o que se vê é um fast-food requentado - não obrigada.


a famosa batata de pacote...

Cereja


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Excesso de velocidade

Ponto prévio: eu sei que é muito mais fácil criticar do que propor uma boa sugestão.

Feita esta salvaguarda, considero a ideia de querer reduzir a velocidade para 30 km dentro das localidades de um grande exagero. Em Portugal  a intenção é com essa medida reduzir o número de atropelamentos. E, contrariamente ao que primeiro pensei, a ideia já paira noutros países: França e Inglaterra andam com essa ideia. E pelos vistos até em Nova York...
Como comecei por dizer não sei lá muito bem que sugestão serve para melhorar os excessos, mas 30 km de máximo (ou seja deve circular-se aí a 25) é passo de caracol, já o experimentei ontem em Lisboa e parece-me que vai ser um engarrafamento pegado.
Claro que se vêm por aí uns fitipaldi de aviário, a acelerarem estupidamente, mas nesse caso não cumprem a regra do máximo 50. Isso acontece muito, é claro. Já tenho sido «buzinada» para me despachar quando já vou quase a 50, mas isso é outra coisa. Custa-me aceitar que quem cumpra as regras e tenha bons reflexos não domine um carro se for a mais de 30...
Mas há duas ou três coisas:
Da parte dos condutores devem ter um tempo de reacção bom. E é visível que muitos não o têm,  é ver os semáforos - passa a verde, são imensos segundos até os carros começarem a andar, e por outro lado quando cai o vermelho ainda passam dois ou três carros muitas vezes! Isso é que é perigoso. E noutras situações tenho observado a lentidão de reflexos de muitos condutores.
Há muuuuitos anos, mesmo muitos, houve uns tempos onde trabalhei na avaliação de condutores que tinham tido problemas na condução. Essa avaliação era muito rigorosa na medição dos reflexos, tinha-se de passar por várias máquinas, e recordo uma que avaliava a atenção distribuída ou dividida. Era um painel grande onde em fracção de segundo se acendia uma luz que se tinha de apagar, tocava uma campainha onde se devia carregar, e mais vinte estímulos que nem recordo: girava um disco, caía uma bola, soava um apito, e a cada som ou imagem correspondia uma resposta imediata. Difícil? Sem dúvida, mas não mais do que a atenção que se deve ter ao volante onde se deve ter atenção a tudo e dar uma resposta imediata.
Do outro lado do problema está a educação dos peões. Primeiro acreditarem que-devem-atravessar-na-passadeira. É uma regra fácil, não é? E em seguida atravessarem prestando atenção ao que se passa à sua volta. Também parece fácil. Mas não é. Se temos os phones encaixados nas orelhas o que se está a ouvir, e muitas vezes altíssimo, é a nossa banda musical, não é o carro que se aproxima. Se estou a discutir ao telemóvel, ou a namorar, ou a dizer piadas, ou a coscuvilhar não vejo nem oiço mais nada, a concentração está toda no aparelho. (Não consegui transpor para aqui um vídeo muito engraçado de «educação de peões», de origem francesa, onde se filmava vários casos de peões que atravessavam  sem olhar, perfeitamente distraídos sendo assustados por um ruído intenso de travagem. Todos eles davam um salto e prestavam logo atenção!)
Por último, para se perceber os acidentes, seria também interessante olhar para o nosso parque automóvel. Dizem que a idade média dos nossos carros ultrapassa os 12 anos ! A sério! Não é preciso muitos estudos para se ver que mesmo muito estimado, um carro de 15 ou 16 anos pode estar pronto para vários acidentes, e a culpa não é só dos 50 km à hora.
................
Muita coisa em que pensar.



Cereja





domingo, 14 de janeiro de 2018

Casamento(s)

[tinha em rascunho várias notas para posts que comecei a escrever durante os meses de pausa mas que podem ser 'aproveitáveis', este é um deles]
Esta minha reflexão vai com a etiqueta Ontem e Hoje, nem sempre arrumo o que escrevo pelas etiquetas mas há casos onde se justifica. 

É inevitável para mim, ao ouvir falar naquilo que é preciso para casar nos dias de hoje na nossa terra, comparar com os costumes do passado recente (aí uns sessenta ou setenta anos) e neste mesmo universo, não num paralelo...😇
Posso estar enganada, mas tenho a sensação de que, como em muitíssimos outros costumes, também nesta área, inicialmente se fez sentir com intensidade a influência dos EUA, embora agora já não se reconheça essa influência. Ou, pelo menos, daquilo que se ia vendo através do cinema e televisão.
Comecemos pelo «pedido de casamento». Era uma cerimónia que creio que só se fazia na média e alta burguesia, porque se «pedia a mão» da noiva aos pais dela. Cá para mim começou por ter a ver com dotes e coisas dessas e daí a importância a concordância da família. É certo que por cá também havia o costume da noiva receber um anel de noivado, com uma pérola e um diamante - ela era a pérola e ele o diamante, diziam, porque o diamante brilha e a pérola reflecte a luz  😊
Nos pedidos de casamento de agora segundo tenho ouvido, a coisa passa-se só entre ele e ela, e essa parte está bem, até é melhor, mas o resto é todo um circo! O rapaz deve ajoelhar-se (!!!?) em frente da rapariga, e estender-lhe o estojo do anel enquanto pergunta se quer casar com ele. Constrangedor na minha opinião. E nalguns casos em público e quanto mais gente melhor. Mas não é suposto ser uma coisa íntima?
Depois vem a cerimónia do casamento. Todas as culturas o fazem e percebe-se, é dizer publicamente que aquele par vai ser uma família. E fazia-se uma festa, com mais ou menos luxo conforme o nível económico das famílias, mas com uma despesa comportável... Se as casas dos pais fossem pequenas, pedia-se a um familiar que tivesse uma vivenda ou um espaço maior e fazia-se lá o 'copo de água' e o bailarico. É do que me lembro, e de ouvir contar. Gastava-se bastante dinheiro, mas dentro do razoável. Hoje, pelo tal padrão do que se via no cinema, é obrigatória, e as despesas de um casamento são de loucura. Neste artigo informam que um casamento «modesto» custa cerca de 20 mil euros!!! Mais do que um ano inteiro de vencimento de um técnico superior.
É assim: a) o vestido de noiva, indispensável e sempre caríssimo, b) o catering ou seja o antigo 'copo de água' que era bem mais do que um copo de água, mas actualmente também tem custos astronómicos, c) as flores para o local da cerimónia e da festa, d) os convites, cartões etc, e) o aluguer do espaço onde vai ser a festa,  f)o fotógrafo para fotografar e filmar, g) o aluguer de carros de aparato para levar os noivos... nem me lembro agora de mais nada porque vejo só 20000 € ou até o dobro se houver muitos convidados...
Claro que a grande, grande diferença para a minha época é a naturalidade com que se encara a união-de-facto, coisa escandalosa no meu tempo e impensável no da minha mãe.
Claro! Com estes casamentos de cinema é bem mais sensato dar uma entrada para uma casa. E o casamento logo se vê...


Cereja

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

An apple a day... não, quero dizer, um escândalo caso por semana...


A nossa Comunicação Social trabalha que se farta, coitadita. 
Mas é interessante observar como as notícias se dividem claramente em filhas e enteadas. 
Primeiro, mostrando trabalho, tem de haver notícias(?) importantes todos os dias do ano. Isso parece ser o ABC da venda de jornais. Seja o que fôr, se foi falado ontem, é coisa velha e passamos a outra. É evidente que há notícias todos os dias, em Portugal e no Mundo, e isso é material que deve ser levado em conta, mas terá de haver parangonas sempre, e obrigatoriamente com temas chocantes ou escandalosos? Eles acham que sim. Uma boa notícia não é notícia. O ditado «Pas de nouvelles, bonnes nouvelles» traduzido às avessas «Bonnes nouvelles sont pas de nouvelles»
Segundo, e isso é que mais me choca, a Comunicação Social deixou há muito de tentar ser neutra e imparcial, obedece aos seus donos patrões de um modo cego, varrendo para debaixo do tapete aquilo que os incomoda, não procurando confirmação daquilo que diz, nem ouvir com imparcialidade os dois lados de uma questão. É frequente, até jornais «de referência», avançarem com informações que são quase logo desmentidas. Como é possível?! O descrédito do jornalismo.
Como entra pelos olhos dentro, esta Comunicação Social, empenhada em destruir um governo-geringonça enquanto trabalha para a vinda de um governo bloco-central, vai procurando sistematicamente «escândalos» a que possa ligar membros do governo. Como escreveu o Daniel Oliveira está montada uma Máquina de Indignar. Procura-se que os leitores vivam em contínua indignação. Foi a IPSS Raríssimas que quiseram à força ligar o Ministro Vieira da Silva. Depois veio o famigerado bilhete de futebol (que ainda por cima naquela bancada não custa dinheiro) do Ministro Centeno. Depois a parvoíce dos aquários muito gozada nas redes sociais: um imposto para a actividade de aquacultura, iria ser cobrado a qualquer aquário doméstico! Agora perfila-se a guerra sobre a PGR, se volta ou não no fim do mandato. Os maus querem mandá-la embora e os bons querem que fique (mesmo que a própria tenha defendido o mandato único ) e rimos no twitter: a saída da Joana Marques Vidal antes de ela poder abrir um inquérito ao caso tecnoforma é uma injustiça  😊
Mas a verdade é que há imensas notícias que não devem interessar nada, porque derretem como um floco de neve ao pé de uma fogueira. A EDP, por exemplo, junta-se à Galp e decide não pagar imposto, ou perdoa-se à Brisa 120 milhões (mas quem lhe deve um euro pode ter de pagar cem vezes mais...) ou o descalabro dos CTT a fechar balcões a a distribuir lucros pelos seus accionistas. Os focos cuidadosamente orientados para o que querem que a opinião pública pense.
Isso sim, isso é um escândalo.
E repete-se, repete-se, repete-se.....

Tenho de pagar imposto? Eu?



Cereja




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Poupar «gastando» ou de como confundir o consumidor...


Tenho alguns temas, do tipo 'ódio de estimação', a que volto de forma recorrente, mas não consigo impedir de o fazer. E o consumo ou a forma habilidosa como se acena com a cenoura à frente dos burros que nós somos, é uma delas.
Por uma experiência recentíssima, voltei a pensar na acção maléfica que dá pelo nome de obsolescência programada. É coisa que tem cerca de 100 anos, mas actualmente está no auge sobretudo nas novas tecnologias claro. Quando ouvi a palavra obsolescência (?) a primeira vez achei que era nome de doença ou algo assim, senti logo que era coisa de alguma bruxa má. Claro que era. Quando eu era criança e se vivia no pós-guerra, essa tal obsolescência ainda não tinha chegado a Portugal, e faziam-se coisas para durar. Uma coisa boa, de boa qualidade, era a que durava mais. Disparate! Se durasse muito como é que o fabricante vendia o novo, o que ia fabricando? Ná, ná, o produto - electrodoméstico sobretudo mas atinge tudo - tem de se estragar rápido e sobretudo não haver peças para o arranjar, ou até mesmo as peças serem do preço de um novo. Qualquer um de nós sabe que um aparelho que se compra agora vai ter uma 'esperança de vida' bem inferior ao semelhante que já tínhamos há 20 anos... É a obsolescência.
Mas há outra técnica de venda, muito interessante, que nos toma por parvos e infelizmente resulta: vender grandes quantidades com o pretexto de assim fica mais barato. Quando o conselho é «leve 2 e pague 1» ainda se vai percebendo - ainda que possamos pensar que se querem fazer 50% de desconto bastava vender 1 por metade do preço. Mas muitas vezes a quantidade que impingem é enorme e de  pouco consumo ou com risco de se estragar. Não se vê «leve 2 dúzias de rolo de papel higiénico e pague 1» a não ser que seja uma grande porcaria de papel, invendável... Afinal aquilo é sempre preciso e não se estraga. Mas sacos com fruta, caixas com queijos, iogurtes, mesmo no prazo, o negócio é para o vendedor: quem compra não poupa nada, quando chegar às últimas peças já está tudo podre, o preço afinal foi... normal.
Voltando à minha infância onde de facto se poupava e aproveitava tudo, porque um-dia-pode-dar-jeito, havia na caixa de costura, por exemplo, umas caixinhas de botões onde se guardavam os já usados que voltavam a servir, ou fechos-éclair que se podiam aproveitar para outras saias ou vestidos... Ontem quis comprar um para arranjar uma coisa e entrei numa loja. Não, não era uma retrosaria, isso já desapareceu (quase) era uma loja que vendia tudo. E lá encontrei, pendurado, uma embalagem de fechos-éclair do tamanho que precisava. Embalagem?! Sim, embalagem com 4 fechos de cores diferentes. O conjunto era barato, pois era. Mas que raio ia fazer com as 3 cores de que não precisava? Talvez um dia precisasse??
E quando se vende 3 pares de óculos graduados iguais?  Para que quero eu mais 2 pares de óculos, a não ser que seja uma cabeça no ar que os perca? (aliás se perder 2 também perco seis ou sete....)
A palavra de ordem é vender! E o cliente vai acreditar que poupa embora até gaste mais.
Seremos assim tão parvos?

Eram uns belos pêssegos, não eram?

Cereja

domingo, 7 de janeiro de 2018

Começar do princípio, pelos alicerces


É um facto reconhecido. Portugal é um país mediterrânico com clima temperado (será?) com a particularidade de morremos de frio todos os Invernos...
Quando me queixo de estar calor ou estar frio há sempre um esperto qualquer que me diz que eu também me lamento no caso inverso. «Tens calor?! Gostas mais de ter frio?...» Pois é. Não gosto do muito. O que é demais é demais. O meu metabolismo é temperado. 😉
E tenho razão. Li ontem que Portugal é dos países europeus onde se passa mais frio dentro de casa portanto não é fantasia minha, andamos mesmo a rapar um frio do caraças! 
É certo que o aquecimento não é barato. É um escândalo o preço da electricidade em Portugal! É público que pagamos a electricidade mais cara da Europa o que não se entende a não ser pelas tais taxas e jogos confusos nos negócios desta área. E assim evitamos esse tipo de aquecimento doméstico, ficando muitas vezes pelos múltiplos agasalhos, assim tipo cebola...
Mas... Recordo muitas vezes, uma estadia na Bélgica há mais de 40 anos onde assisti ao maior nevão que podia imaginar. Começou a nevar quando cheguei e fiquei encantada, mas depois continuou sem parar 8 dias e o encanto foi-se porque ficou tudo encardido. Ora bem, assim que nos abriram a porta da rua da casa onde ficámos o frio atenuou-se com surpresa minha. Era o aquecimento central do prédio!!!
Ora o segredo de não se sentirem excessos climáticos, está na construção das casas. E isto não vai lá com remendos, ou se faz de raiz (de alicerce ) ou nunca fica como deve ser. As nossas casas têm paredes finas e sem caixa de ar, não se usa janelas duplas, a construção é fraquinha para ser barata creio eu. Portanto mesmo que se aqueça o interior esse calor foge para fóra, não há calafetagem que chegue. Até se encarar a sério o problema da construção vamos a continuar a morrer de frio no Inverno ou de calor no Verão.


Cereja




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Já ando tão farta...

Marcelo.
A força da sua popularidade é tanta que basta um nome próprio. É certo que é um nome próprio invulgar, se o padrinho lhe tivesse chamado José, Manuel, António, João, não resultava. Há nas redes sociais quem queira desmontar este truque do primeiro nome e insista em se referir a Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, mas é uma gracinha, porque nem sequer um apelido agora lhe dão (o «outro» é o Caetano). Caso único até agora, mesmo familiarmente, falava-se do Cavaco, o Soares, o Sampaio, o Eanes, honra de primeiro nome só Marcelo. Porque é inigualável!
Há uns tempos encontrei num blog um texto sobre o percurso de Marcelo que resume tal e qual o que andava a sentir sobre a personagem. Porque de início fui enganada, apesar de um tanto desconfiada e sentir dúvidas não quanto à sinceridade, que nunca acreditei, mas se a jogada era para durar. 
Escuso de dizer que não votei nele, embora visse logo que ia ganhar à vontade quando a Maria de Belém se candidatou. A esquerda não se sabe unir (com a honrosa excepção da geringonça) e o resultado foi aquela estrondosa vitória. OK. Ele andava há anos a fazer campanha, tinha um tempo de antena semanal sem contraditório, um avanço imbatível. Mas, os primeiros tempos foram para mim uma boa surpresa. Após a Múmia de Belém, era agradável o enorme contraste. O oposto: simpático, conversador, presente em tudo (ai, ai, ai...) culto, inteligente, foi refrescante. 
Os primeiros tempos até desagradaram aos seus correlegionários, vimos o PSD a amuar. O governo a que Cavaco dera posse com tão mau modo, foi elogiado e apoiado por este novo PR com alguma surpresa da esquerda. Via-se o Primeiro Ministro e o Presidente lado a lado, sorridentes, em harmonia como na famosa foto do guarda chuva. Parecia tudo cor-de-rosa, rosa shocking talvez, mais avermelhada do que rosa-bebé. 

Depois veio a fase do frenesim. O homem que não dorme (4 horas, diz-se)  levava as 20 em que estava acordado num corrupio frenético, com uma cauda de repórteres.  Uma delícia para os media! E algum enjoo para quem começava a estar farto, não havia um telejornal, um único, que não falasse da criatura. O que é demais, é demais.
Mas no segundo ano, o castelo de areia não aguentou. O homem da traição da vichyssoise revela-se. A manipulação sonsa está-lhe no sangue, faz de conta que não sabe coisas de que foi informado para tirar dividendos, manipula dados, adianta-se em comentários e opiniões onde não se vislumbra a tal solidariedade institucional... A guerra está declarada, mas de uma forma dissimulada, mascarada, sonsa. Afinal o que esperaria quem resistiu a deixar-se enganar, quem tem memória do que ele disse ao longo da sua vida política. Ainda a semana passada um acontecimento parou o país, Marcelo foi operado de urgência. Foi-o num Hospital Público, revelando sensatez porque são os melhores serviços, à saída mostrou-se satisfeito, mas a verdade é que ele tinha votado contra o Serviço Nacional de Saúde... 
Ah, pois é! Quem se dê ao cuidado de ir ver as posições que ele tomou ao longo da sua vida política pode achar interessante. 

O populismo das selfies, levado ao extremo. Há tantas piadas que é difícil escolher uma...






Cereja