quarta-feira, 21 de março de 2018

Incêndios

A nossa Comunicação Social, e não só a nossa sabemos bem, tem uma voracidade incrível e tem de ser constantemente alimentada com carne fresca, o escândalo de ontem já é requentado, tem de haver qualquer coisa todos os dias. Se não há nada de especial temos sempre o futebol para qualquer furo, isso nunca falha 😏
Hoje são as repercussões do relatório da Comissão Técnica Independente sobre os incêndios. Muito grande, um Relatório de quase 300 páginas que deixo aqui embora eu não tivesse lido, reconheço, leio apenas as ondas de choque...
Porque é interessante reparar de como são diferentes, conforme a ideologia de quem comenta. A ala direita, PSD e CDS atiram-se como gato a bofe à má previsão e falhas do Governo  como se quando eles foram governo se tivessem preocupado imenso com a floresta. Mas concordo que os erros de uns não desculpam os erros dos outros apenas lhes retiram autoridade para censurar como se estivessem inocentes. Mas.... atenção ao Cartel do Fogo. Já volto a este assunto.
Do lado dos críticos com outra ideologia sublinham-se outros aspectos como por exemplo a culpa da EDP e outras grandes empresas, Brisa, PT, etc. São empresas que, de olho no lucro, que o têm e de que maneira, descuram os cuidados a que são obrigadas mas que a serem observados podiam diminuir um pouco esses lucros. Coitaditas.
Mas o que não pode, não pode mesmo, tem de ser denunciado por todas as formas, é que mais de metade das causas dos incêndios foram intencionais ou negligentes. Isso mesmo. Provou-se que 40% tiveram causas intencionais, e 20% negligência. A velha questão dos romances policiais «a quem interessa o crime» é um fio que não pode ser solto. Como é possível que haja benefícios...!? Ah, pois é, houve quem tivesse ganho, e não apenas os madeireiros que são os suspeitos imediatos, ou os construtores civis, mas até as empresas que combatem incêndios, que têm material para isso, que têm aviões e helicópteros, por exemplo. Interesses económicos subterrâneos. O tal Cartel do Fogo.
E, sem querer ir muito por aí, a verdade é que este cheiro a fumo do Verão passado, também me fez lembrar o sinistro Verão Quente de 75 . Quem se lembra?

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Cereja

terça-feira, 20 de março de 2018

Não podemos ficar indiferentes

Era uma parte do Mundo lindíssima, rica, tranquila. Pouco habitada. Os seus povos indígenas não eram particularmente guerreiros, não quiseram conquistar nem sequer o seu próprio continente todo, deixaram-se ficar pelo Sul. Até que nuns grandes barcos chegaram do outro lado do oceano outros povos que traziam a civilização.
Assim é a História.
E sabe-se bem como continuou, o saque das riquezas, o povoamento à força, a imposição de outros costumes e sobretudo de uma religião e, em nome desta, quanta violência! A importação de escravos africanos numa tão grande quantidade que séculos depois a sua raça é a maioritária deste país. O Brasil. País grande, tão grande que por isso o português se tornou uma das línguas mais faladas do mundo, e pelo qual era normal que Portugal sentisse responsabilidade porque em muitas coisas foi incentivado e apoiado pelos governos portugueses. Pois foi.
Por isso nos arrepiamos quando se vê para onde caminha. A sensação de que quando dá um passo em frente dá logo outro atrás. Ditaduras sucessivas, violência, desigualdades. Eu em adolescente vivi o Brasil através de Jorge Amado e é quase sempre assim que o vejo. Até há pouco tempo parecia estar a dar uns tímidos passos em frente com o governo de Lula e depois de Dilma, mas as fortíssimas forças que se lhes opuseram deram o mais nojento dos golpes. Um pesadelo tornado realidade: os mais corruptos dos corruptos a acusarem os seus inimigos de ... corrupção!
Com o país governado por verdadeiros ladrões que até compravam juízes, o resultado não se fez esperar. Uma guerra aberta, um espelho, polícia e tropa de um lado e gangs e máfias do outro, iguaizinhos, enquanto o povo cada vez mais pobre tem tanto medo de uns como de outros. Lemos isto através das mais diversas fontes, nem sequer brasileiras. Mas de vez em quando o ataque é mal calculado e torna-se um boomerang.
Foi o que se passou com os últimos acontecimentos, a morte, o assassinato, a execução de Marielle Franco provocou uma onda de indignação e revolta enorme, gigantesca, não intimidou como erradamente tinham calculado. Tenho lido imensos artigos de opinião em jornais e redes sociais como a excelente reflexão de Mariana Mortágua, ou Daniel Oliveira Que a morte de Marielle vos atormente tanto como a sua vida , ou em brasileiro O Brasil da vida e morte de Marielle.
Tem matado muitos. Crimes políticos sem a menor dúvida. Marielle está acompanhada por muitas outras vítimas, mas desta vez foi a gota de água. Nas redes sociais há várias hashtags com o seu nome mas falam muito mais do que nela. É ler o que se diz em    #MariellePresente

A conhecida e belíssima frase « Quiseram te enterrar mas não sabiam que eras semente» tem muita força e parece mesmo verdadeira neste caso. 
Afinal até o Washington Post deu a notícia na primeira página...!



Cereja

segunda-feira, 19 de março de 2018

Sempre o 8 ou o 80


Tirando um curto período na adolescência e final dela, sempre fui uma pessoa «moderada». Claro que me apaixonava por causas e vivia com intensidade muitos acontecimentos e situações, mas não era mulher do tudo-ou-nada, sentia que entre o tudo e o nada havia um mundo enorme e era aí que me sentia bem... É curioso porque de uma forma geral as minhas maiores amigas são umas impulsivas vivendo com paixão o tal tudo-ou-nada.
Vou ter de me habituar. é claro. Começando pelo %&$*# do clima!!! Já fomos avisados de que No futuro vamos todos viver entre períodos de grandes cheias e secas extremas. Entendido. Entre fogos e inundações... Em pouco mais de um mês em visitas à zona de Vila Franca, ouvi queixas amargas de que o caudal estava tão baixo que nem se podia pescar e mostravam-me o espectáculo impressionante de peixes mortos a flutuar na água, e no mês seguinte a preocupação era de que se aproximavam cheias com o que isso implicava naquela zona!!!
Por aqui no Cerejas também não consigo atinar com o ritmo certo 😄
É excesso de chuva, perdão, de ofertas.
Há 10 anos, se queria «socializar» escrevia no blog. Ou Cerejas ou Pópulo ou o que estivesse a usar na altura. Não havia confusão. Hoje em dia sinto-me como uma barata tonta - expressão parva para mim que odeio baratas, porque admite que há baratas espertas - a oscilar entre as diversas redes sociais, e a não dizer nada em nenhuma!!!
A oferta é demasiada.
E também os temas de reflexão são em catadupa.
OK. É respirar fundo,  abrir o blog e recomeçar:

«O Brasil fascina-me e assusta-me. Parece-me quase um laboratório social onde encontramos tudo, mesmo o que se imaginava já não existir. A execução de Marielle pode vir a despoletar exactamente aquilo que os seus carrascos queriam evitar. Ou não. »....... etc. É só abrir uma entrada nova aqui e continuar a escrever.
Fácil.



Cereja

domingo, 11 de março de 2018

O que (infelizmente) se lê mais

Chamamos-lhe tablóide, encolhe-se os ombros e aceita-se com a sensação de que a corrente é demasiado forte para se lutar contra ela. E quase se ignora o que essa resignação afinal significa e que consequências tem.
Porque é um dos casos onde «ignorar» é pactuar, embora eu confesse que não faço nenhuma ideia de como se pode lutar contra esta situação. Contra o envenenamento diário que uma enorme percentagem dos portugueses vai sofrendo através de uma informação seleccionada.
Infelizmente todos podemos confirmar que o Correio da Manhã é o jornal diário mais vendido, nem é preciso eles gabarem-se, basta ficar uns minutos em frente de um quiosque de jornais para ver em cada dez vendidos haverá talvez 1 Público, 2 Diários de Notícias, e 1 Jornal de Notícias ou «I», e os 6 restantes são Correio da Manhã. Mas isto é o jornal impresso, falta o que se lê na net, e é nesse que se baseia este apanhado: (o jornal em papel não é 'partilhado' nem conhecemos 'os comentários' 😏)


É a isto que me quero referir. 
Claro que estas histórias são verdadeiras (espero que não as tenham inventado...) mas têm lá um realce especial e portanto são as mais lidas, enquanto as 80% de notícias também verdadeiras mas sem sangue nem escândalo, não merecem destaque, e nem são lidas.
Resultado de imagem para a voz do dono
E há outro tipo de jornalismo que também de revolta, quando por exemplo o Observador ou o «I», publica um artigo de opinião disfarçado de notícia, como se vê com frequência. Parecem factos, qualquer pessoa mais distraída aceita que aquilo é verdade, porque a história que contam é de tal modo trabalhada que se acredita, mas relida com atenção percebe-se que é apenas a opinião do jornalista.
Ou a «voz do dono» da empresa dona do jornal.


Cereja

quinta-feira, 8 de março de 2018

Mulher

Dia da Mulher.
«On ne nait pas femme, on le devient» dizia o meu ídolo de adolescência. De adolescência e não só, ainda hoje tenho uma admiração ilimitada por aquela pensadora, profundamente coerente. E esse pensamento/slogan vinha exactamente ao encontro do que eu sentia desde que me lembro de pensar. Era bem pequena e já me incomodava o estereotipo menina - menino embora nessa época a diferença fosse enorme, bem maior, muitíssimo maior, do que hoje. Desde a roupa que se vestia, aos comportamentos permitidos. E, - atenção! - eu vinha de uma família bem liberal e progressista, onde mãe e pai trabalhavam exactamente na mesma profissão, e nesse microcosmo familiar havia uma relativa igualdade. Mas toda a sociedade trabalhava para que não houvesse cá confusões, um homem era um homem, uma mulher era uma mulher.
E nessas antigas memórias de infância, as mulheres eram das maiores defensoras dessa «desigualdade». O que para mim reforça a conclusão da Simone de Beauvoir, era a sociedade que tornava os homens homens e as mulheres mulheres, era porque as próprias mulheres aceitaram e acreditavam na desigualdade que as coisas se têm perpetuado assim. A mulher «era feita» para as tarefas domésticas e caprichava que no seu reino mandava ela com poder absoluto. Recordo a minha avó a enxotar o meu pai da cozinha como se fosse uma galinha «xô, xô, vai-te daqui, só atrapalhas!!» quando ele pensava em ajudar. E não se deixava que um homem pegasse num bebé, muito menos que lhe desse banho ou biberon, porque não tinham jeito. Ou seja, os campos da vida social que seriam «de mulher» eram ferozmente defendidos não admitindo nenhuma competência masculina. Era o seu (nosso?) reino.
Depois havia o reino masculino, esse fóra de casa, público. E aí já poucas mulheres se aventuravam. Era onde a diferença era mais gritante, porque era onde se via o Poder. Tudo o que era autoridade era masculino e isso é muito significativo e importante. O que era autoridade?!
As coisas mudaram, evoluíram, mas não tanto assim.
E a responsabilidade de não ter mudado tanto como devia, é uma responsabilidade também de muitas mulheres, mães e educadoras que não levam muito a sério a igualdade de género. Porque voltando ao princípio do que escrevi, para uma criança essa questão não se põe inicialmente, é a sociedade que lhe ensina essa «hierarquia» 👫

O que faz que ainda hoje, século XXI, no ocidente, este inteligente anúncio, com crianças, faça pensar. 

Cereja

sexta-feira, 2 de março de 2018

Divulgar informação


Parece que vivemos na Era da Informação. Para alguns. Sabemos que há ainda muita e muita gente que não se mexe através da informática com muita, quero dizer até alguma, desenvoltura. Existe, e de que maneira, o analfabetismo da informação
Falando por mim, tenho a consciência de que não sou das mais analfabetas, sobretudo se me lembrar da minha idade porque os meus amigos até são piores do que eu 😏 e contudo passa-me ainda ao lado imensa coisa. Coisas boas, que facilitam a vida.
Conhecemos o «simplex» e reconhecemos que, possa embora melhorar ainda muito, a verdade é que faz jus ao nome, muita e muita coisa se tornou mais simples, até na terra da burocracia como é Portugal. E há mais coisas simplificadas em todas as áreas.
Estou a escrever estas notas porque acabei agorinha mesmo, de marcar em 5 minutos (!!!) uma consulta no meu Centro de Saúde, enquanto acabava um cafézinho e sem me levantar do sofá. Já recebi a confirmação no telemóvel com os dados todos de que poderia precisar.
É (apenas) a terceira vez que utilizo este sistema que ainda o ano passado desconhecia. Um amigo deu-me esta indicação uma vez em que me estava a lamentar por nunca conseguir ligar para o Centro de Saúde que tem a linha sempre ocupada, e nem sempre me dar jeito deslocar-me até lá.
- Mas porque é que não marcas no Portal do SNS?
- O quê? O que é isso? Nunca ouvi falar.
Pronto, mea culpa, não só nunca tinha ouvido falar, como também não olhava com atenção para as informações nos painéis de parede quando ia ao C. Saúde, porque estava lá tudo quando finalmente abri os olhos. não pode ser mais fácil,  é Aqui, e qualquer pessoa consegue. Com a vantagem de que não tem de ser nas horas de serviço, o Centro pode estar fechado mas a marcação faz-se na mesma...
Mas isto é apenas um exemplo de imensas coisas que são desconhecidas pelo público mal informado.
Divulgar correctamente a informação e, se possível, traduzir algumas coisas numa linguagem mais simples seria uma tarefa importantíssima para a maioria dos serviços que prestam serviço à população. Ouvi no outro dia na Antena 1, o Presidente da Câmara de Caminha a propósito do alarme que por aí anda quanto à obrigatoriedade da limpeza dos terrenos e da multa a quem o não fizer, que criou umas equipas para andar pelas freguesias a explicar bem às pessoas de que se tratava, e acalmar o pânico. Uma medida inteligente. Eu sei por mim que muitas coisas que oiço por aí dizer que-deviam-ser-assim, até são assim só que as pessoas não sabem que já se faz!

Cereja

quinta-feira, 1 de março de 2018

Notícia contada de um modo quase «fake»

中文寫作不使用字母
Se não me enganei, acabei de escrever : a escrita chinesa não tem letras.
Isto, porque li por aí ontem Ce*sura: Porque é que a Chi*a decidiu ba*ir a letra *  Bem, assim, a fazer-se de engraçado, foi um único jornal, e quem lesse tudo sem ser em diagonal percebia que tinham tinha proibido (?!) a letra N mas... na internet. O que é bem diferente de proibir uma letra!!!
Eu não sei chinês. Sou de uma total enorme ignorância nesse assunto, tal como imensa gente, apesar de agora desde que a China começou a invadir o Mundo 😏já veja por aí aulas de chinês e gente a esforçar-se por aprender. Mas, para um ocidental é bem difícil quer a fala quer a escrita.
Tenho alguma autoridade para ter esta opinião, porque tentei!
Vivi uns anos no Oriente e, como seria natural, tentei perceber o que diziam. Acreditem que é muito difícil e talvez ainda mais falar. Talvez consiga quem saiba cantar... porque eles usam 9 tons diferentes a falar - tentem vocês dizer um som, por exemplo o som da vogal O, de nove maneiras diferentes! E isto é a fala, a escrita é feita pelos chamados caracteres que são uma espécie de pequeníssimos desenhos. 
Repito que não aprendi nada, excepto um pouco os algarismos para saber os preços. (disse isto a brincar, mas dava jeito) mas pelo menos aprendi que cada caracter queria dizer pelo menos uma palavra quando não um conceito completo! Porque se ia sobrepondo. Por exemplo:


Vejam como é interessante, o sinal que significa fogo, se estiver tapado quer dizer cinzas, mas se for pequeno é chama, árvore repetida é floresta, e com um traço é livro. Quanto mais elaborado é o que se quer dizer mais complicado o caracter - disseram-me que psicólogo se escrevia o-que-olha-para-dentro-do-coração, imagem linda mas possivelmente disseram-me a brincar.
Todas estas memórias e recordações vieram por causa da referência a «letra» coisa que não existe em chinês. Ou existe no teclado de um computador, formatado para escrever nessa forma, o que foi o truque que usei para a frase inicial deste post!!!!
O caminho que se percorreu... 
Desde a caligrafia chinesa traçada com um fino pincel molhado em tinta..da China, e olhem que vi crianças de 3 e 4 anos a esforçar-se por aprenderem a escrever assim (!) até aos actuais portáteis, passaram poucas dezenas de anos. Quase não se acredita.

Cereja

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Pena de morte


Continua a matar-se «em nome da Justiça» nos Estados Unidos. 
Há alguns dias li por aí uma notícia de que iriam ser executados 3 condenados no mesmo dia. Noticiavam com pormenor cada caso, e sobre um deles contavam que havia dúvidas, como era um doente de cancro em fase terminal, de que encontrassem veias em estado de lhe dar a injecção fatal. Foi há uns dias e não encontro a notícia para deixar aqui o link, mas recordo que fiquei arrepiada com a atitude brutalmente desumana que as  respostas revelavam. Dizia-se, com estas palavras: Doyle Hamm sofre de um cancro no cérebro e outro no sistema linfático e os seus advogados temem que a sua execução por injecção letal se torne uma sessão de tortura. Segundo os causídicos o seu cliente não possui uma rede venosa para a infusão. E a resposta da Justiça (?) de um modo trocista era de que não acreditavam que não houvesse uma veiazinha onde entrasse uma agulha.
Humor.
Infelizmente os 'humoristas' não tiveram razão. Depois de mais de 10 tentativas falhadas, foi necessário suspender a execução. Os carrascos estiveram horas à procura de uma veia. Um espectáculo de horror, por aquilo que se imagina.
Como agora vão procurar outra data, e talvez outro modo de matar, são capazes de ter o problema resolvido por o condenado morrer sem ajuda, um cancro terminal deve ser eficaz.
Como é possível? Como pode o país mais importante do mundo, resistir em manter a pena de morte (pelo menos em alguns Estados) O exemplo do que se passa nos 170 países que aboliram a pena de morte e dos muitos onde já não se pratica e estão a tratar da abolição, não ajuda a perceber que essa medida não serve para dissuadir crimes? E se a intenção não é essa, então para que serve? Como vingança...?
Não se entende. É certo que há crimes horríveis. Também creio que os destes condenados sejam dos mais horríveis que se imagine. E depois? Se não é uma vingança tipo olho-por-olho é o quê?!


Cereja



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Limpeza, higiene, saúde....

Conversa de ontem com uma amiga: "- Continuas com tosse?", "- É verdade. Ando fartíssima, isto pegou e não consigo que passe", "- Eu escapei este ano, nem problemas intestinais, nem gripe, nem coisas de garganta...", "Sorte!!!", "-Não sei se é só sorte, desde há uns tempos que decidi lavar as mãos muito mais vezes e lavo-as sempre que venho para casa, e olha que tenho tido menos chatices..."

Quando eu era criança as pessoas que me educavam pareceriam hoje maníacas da limpeza. E, claro, se pudessem ver o mundo de hoje ficariam estarrecidas com «a porcaria» que viam... Como vivi nos dois mundos posso bem avaliar.
Há países onde se mantém o hábito de tirar os sapatos à porta de casa. Dentro de casa ou se anda descalço ou com sapatilhas que só se usam no interior. Sabemos que isso se faz no Japão, nos países nórdicos, e parece que também em muitas casas da Alemanha, Canadá, China, etc. Um costume que é tradição e faz sentido, mas que nunca se praticou cá.
Voltando aos anos 40, nunca, mas mesmo nunca se provava do prato de outra pessoa ou se bebia um golo da bebida de outrem. Uma coisa que ficava eventualmente no chão ia para lavar. Na minha casa a loiça lavada era no fim escaldada com água a ferver. Lavávamos imenso as mãos. Ora bem, vamos recordar que os antibióticos estavam ainda em estudo, ou seja os contágios eram sérios e podiam até ser fatais. Morria-se muito de tuberculose, havia casos em todas as famílias, e havia a noção que o que estava sujo não era só o que se via, também muito do-que-não-se-via.
Hoje, com sinceridade, creio que os antibióticos nos fizeram abandalhar... É como se o facto de haver cura para as infecções fizesse desprezar completamente o seu risco. Quando ele ainda existe e muito!
A minha amiga diz que agora é um hábito, Entra em casa, despe o casaco, poisa a carteira, e passa pela casa de banho onde lava bem as mãos e as unhas com a escovinha. E, coincidência ou não, desde que o faz tem tido menos doenças. Faz sentido. As nossas mãos na rua tocam em tudo! O corrimão do metro ou o apoio do autocarro, o carrinho do supermercado, o exterior das embalagens de produtos manuseados por imensa gente, o dinheiro que se entrega ou recebe, ou (ainda o dinheiro), as teclas do multibanco onde todos mexem, é evidente que as nossas mãos passam por todo o lado. E não é a porcaria visível que é preocupante porque aí todos nós estamos de acordo em lavar depressa as mãos quando vemos e sentimos que estão sujas, é a tal que não se vê!!!
Voltando agora aos sapatos, também concordo (embora o não faça) que eles deviam ficar à entrada da porta. Claro que se pisarmos uma porcaria na rua, tal como lavamos as mãos se estão visivelmente sujas, também queremos raspar a tal porcaria. Nem me refiro só ao famoso cocó de cão, que faz com que as ruas por vezes nos obriguem a gincanas-a-pé, é também frequente pisar-se coisas na rua que... não gostamos de levar para casa. Mas quando os sapatos parecem ter as solas limpas, todos pensamos que limparmos no tapete da entrada é suficiente. Não chega com certeza.
Pronto, creio que seria uma revolução demasiada para os nossos hábitos essa coisa de tirar os sapatos à entrada, mas isso de começar a lavar mais e melhor as mãos...? 😄
O conselho da minha amiga fez-me pensar.
Porque não?


Cereja

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Bairro

Lisboa é uma cidade grande. Grande para Portugal, claro está, é uma formiguinha ao pé das cidades verdadeiramente grandes, aquelas onde vive tanta gente como no nosso país inteiro. 😉
Mas, à nossa dimensão é grande, maior do que as outras e sobretudo parece maior a quem cai aqui vindo da província e fica com uma sensação de isolamento, de frieza das pessoas, e de que ninguém conhece ninguém nem se importa com isso. E é verdade até certo ponto. Mas o certo é que Lisboa é uma manta de retalhos, um patchwork, um conjunto de bairros que são pequenas comunidades. E as pessoas que vivem alguns anos no mesmo bairro, sem falar nos que já lá nasceram, ou das que chegam e são comunicadoras e sociáveis sabem que são pequenas aldeias. 
O meu bairro tem muito comércio... de bairro! De lugares de hortaliça a farmácia, de cabeleireiro a retrosaria, dezenas de cafés, churrascaria, ourivesarias (!) quiosque de jornais, até uma agência funerária, uma loja de vinhos, oculista, e em tempos havia uma padaria que já fechou. Mas a estrela mais brilhante deste comércio é uma loja de ferragens.
Esta loja tem mais de 50 anos, porque já estava bem enraizada quando eu para cá vim morar. Nessa altura o dono, muito simpático e prestável, atendia bem disposto toda a gente e ajudava as pessoas inexperientes. Conhecíamos também os seus 2 filhos adolescentes que ajudavam o pai na altura das férias.  Actualmente, o sr Porfírio-pai está já reformado, os «porfiriozinhos» adolescentes já grisalhos atendem quem chega, e já vemos um porfírio-neto ao balcão de vez em conta. Um verdadeiro negócio de família que milagrosamente mantêm o sinal de extrema simpatia, e os empregados são do mesmo calibre.
Não conheço nada assim!
Ontem referi aqui um factor S, (S de simpatia) e cada vez é mais evidente que quem o possui tem mais sucesso, ou seja é bom para os outros mas também é bom para si mesmo...
Como expliquei, na minha zona há muito e variado comércio. E, já há uns tempos, abriu um bocado mais acima uma outra loja de ferragens. Talvez tivessem feito uma prospecção de mercado e de facto a loja de que falo está sempre a abarrotar, desde há uns tempos até têm uma máquina de senhas para não haver questões sobre quem chega primeiro! E não tem grande aparência: é um corredor comprido ao longo do balcão, apinhado de tralhas, nem tem espaço para ter as coisas necessárias à vista.
A loja-concorrente é uma beleza, vê-se tudo da rua pela montra enorme, muito arranjada, impecável. E vê-se tudo porque está sempre às moscas. Nem sei como não fechou porque nunca lá vejo ninguém, será que vende pela internet?! É um contraste espantoso, uma apinhada permanentemente e a outra completamente vazia.
Factor S! Como é possível, com tanta gente eles darem a entender que têm todo o tempo para nos explicar as coisas que perguntamos - e perguntamos imenso! Como se usa isto, para que serve aquilo, se para este efeito é melhor isto ou aquilo. Têm a linguagem técnica para os profissionais, mas usam também os termos que uma dona de casa pode perceber. 😮
Ontem fui lá saber os preços de um candeeiro; o empregado mostrou vários, apontou qualidades e defeitos e, até perante a indecisão, tirou-o da caixa e improvisou uma ligação com uns fios para eu ver o efeito dele ligado. O que querem? Trouxe-o, é claro! Aliás se depois não gostar volto, a levá-lo. Sou a vizinha...

Cereja