sábado, 4 de março de 2017

Coisas da moda :)



Ora vamos hoje falar de coisas menos sérias, que o Cerejas também é para isso!
Esta conversa é mais para leitoras, digamos conversa de mulheres, apesar de de uma forma geral não gostar lá muito de não falar para todos...
Pois bem, o tema é saltos altos!
Na actualidade é um tipo de calçado exclusivamente feminino, mesmo que tivesse começado a ser usado por Luis XIV (consta que ele era baixito coisa chata para um Rei-Sol) e depois no tempo de Luis XV divulgou-se entre elegantes da sua corte, homens e mulheres. E percebe-se que fosse calçado de gente da corte, que não faz nada, porque para quem trabalha a sério não é nada cómodo caminhar em equilíbrio...
Adiante. A moda tem imensa força, e aceitar o-que-toda-a-gente usa é quase irresistível excepto a quem adora ser do contra... portanto hoje em dia, creio que por todo o mundo, uma mulher sente-se mais elegante quando usa saltos altos, quase um símbolo de feminilidade como no filme De saltos altos do Almodover. E, portanto, para as mais sensíveis, sentir-se talvez menos feminina quando os não usa! (ó dilema! conforto ou elegância?!!!)
E, portanto, achei mesmo muita graça, quando encontrei esta solução - o ovo sapato de Colombo:


 


Fácil!
Olhando para aqui parece que por agora só deve funcionar em sapatos tipo sandália, não sei como se passa de «uma sabrina» para um verdadeiro «salto alto» uma vez que a alma não pode mudar. 
(Para quem não sabe a «alma de um sapato de salto» é um ferro interior que acompanha a curva do sapato. Sei isso a partir de um dia que levei uns sapatos a um sapateiro e ele me disse que ele tinha a alma partida! Pensei que era um sapateiro-poeta, até ele me mostrar o dito ferro, que de facto estava partido)


De qualquer modo, esta ideia de alterar o tipo de salto no mesmo par de sapatos é excelente. Vamos ver se tem sucesso...
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Cereja

quarta-feira, 1 de março de 2017

Uma onda assustadora (e não só isso)


 Li ontem no facebook duas frases, escritas por quem sabe o que diz: «O orçamento militar americano já era equivalente ao do conjunto de todos os outros países do mundo. Agora, o Trump aumenta-o em 10%! Entretanto, a Marine le Pen encontra-se nas sondagens com uma cotação eleitoral superior à do Hitler na altura em que chegou ao poder».

Não se pode assobiar para o lado, pois não?

A imagem da onda não é lá muito feliz, porque tem força mas é limpa, prefiro dizer mancha de óleo, alastra, é sujo e dificílimo limpar.
Preocupa-me o facto de, como entre os meus amigos e conhecidos a censura aos actos do Trump ser geral, haver tendência a acreditar que todos quase todos pensam assim. Não é. Dou muitas vezes uma olhadela aos comentários on-line às notícias dos jornais e deixo aqui uma amostra de comentários de hoje e ontem: A história da senhora que de joelhos num sofá da sala oval mandava twitters «a) É perfeitamente incrível aonde vão os media (certos media) para arranjar "casos". Que o presidente Bill Clinton tivesse transformado a Sala Oval em bordel, o presidente Bush ou o Obama falassem com os pés em cima da mesa, num acto típico de tasca, tudo passa, é a descontracção americana. Que a senhora da foto, eventualmente para tirar as fotos de determinado ângulo, estivesse ajoelhada em cima do sofá, já é uma enorme falta de respeito, que teve certamente lugar de primeira notícia em jornais e televisões. Devem pensar que somos todos uns asnos e não sabemos pensar... b) Popularidade mais baixa? says who? os mesmos media que preveram a vitoria da Hillary por larga margem?? c) Noticia da caca. Não relevam que Trump reuniu com raça negra ( então não é racista? ) que lidera universidades mas que a dita senhora tinha os joelhos no sofá. Palhaços!» ou quando Trump diz que a culpa das fugas de informação é do Obama «a)  Dê-me uns exemplos de feitos exemplares do ex presidente Obama b) O queniano está já adoptar a mesma estratégia que acabou com Romney. Usando equipas de background meio suspeito para controlar várias contas pro-Crack Obama em diferentes serviços de social media. Contas essas que costumavam registrar dois likes por cada input e tinham uma quantidade anormal de partilhas nos posts. Mas como o desespero é maior hoje em dia, agora também se meteu a fazer guias de como fazer uma revolução para tótós e organizar grupos anti-trump como o Organizing for Action. Patético. Força Trump! c) Algo se passa com o dn, ou tem de mudar as fontes ou os jornalistas! Recomendo a segunda. Apenas embarcam na Carneirada global da notícias negativas sobre o Trump. Hoje assinou decretos sobre educação, um a dar mais apoios aos colégios negros. Nem uma linha sobre isto. d) Fico boquiaberto com a estupidificaçao em massa das pessoas! Que se deixam enganar e levar pelos Media! Pessoas essas que ainda não se aperceberam que estão a ser usadas como arma de arremesso contra um Presidente democraticamente eleito! Cujo único defeito, é não ser o escolhido das elites globalistas, que pretendem comandar o mundo!... Trump ainda não fez nada, que os outros Presidentes não tenham já feito! A diferença é que os Media ensinaram-te que tudo o que Obama fazia era perfeito, e tu acreditaste!... Agora Trump está a fazer exactamente a mesma coisa, mas os Media ensinaram-te que está errado e tu acreditas?!... Que tal começares a pensar pela tua cabeça, em vez de usares a opinião formatada que os Media te impingem?!...Não achas demasiado estranho que os Media te escondam crimes praticados por refugiados, com o intuito de não te incentivarem o ódio! Mas no entanto fazem de tudo para incentivar o teu ódio contra o Presidente dos EUA?...Abre os olhos e olha à tua volta! Não te deixes imbecilizar pelos Media! Pensa pela tua cabeça! É a tua melhor arma! É a tua melhor defesa!...»

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Lemos isto ontem ou hoje em jornais portugueses.
Não sei quantas pessoas representam este tipo de comentários, mas não se podem desprezar. Neste caso é gente anónima, não são os 'comentadores de serviço' a que estamos habituados, não devem estar ligados a nenhum interesse especial. Imagino eu... Mas desprezam tudo o que ouvem que vá contra as suas convicções. E votam! E podem eleger (já está comprovado que sim!) em nome da democracia um completo anti-democrata. (faço figas que não consigam eleger a LePen) (aliás não sendo pessoa muito importante mas não nada anónima, a actriz Maria Vieira defende convictamente (?!) as ideias de Trump ] 

«Assim vai o Mundo», como se ouvia nos documentários que antecediam os filmes, quando ia ao cinema em pequenina.
Vai mal. 

Reinar espalhando o medo está a resultar, mas até quando?




Cereja

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O tal «superior interesse da criança»

É uma expressão pomposa utilizada na lei: o superior interesse da criança. Eu tive bastante contacto com esta expressão quando, há já bastantes anos, trabalhei numa área relacionada com a Convenção sobre os Direitos da Criança. E sim, fazia sentido pôr-se em primeiro lugar o «interesse da criança». Mas impressiona-me que, hoje em dia, em tribunais se ultrapasse constantemente esse princípio tão básico! Pode haver muitos interesses, mas o «da criança» é que não é decerto levado em conta.
Ultimamente a comunicação social parece ter despertado para diversas decisões de tribunal no mínimo discutíveis. Claro que, dado o tom sensacionalista que parece nortear as notícias dos nossos media, fica-se um pouco com a pedra no sapato quando vemos reportagens atacando CPCJs ou o trabalho de algumas assistentes sociais, facilitando que se tome a parte pelo todo. Um programa de RTP, Sexta às 9, por mais de uma vez mostrou umas reportagens a propósito de notícias de choque onde arrasava o trabalho de algumas assistentes sociais. Não foi bonito. Foi parcial.
Mas...
A verdade é que (correndo o risco de também estar a ser parcial) sei de muitos, demasiados (!) casos onde o que menos tem contado para o juiz é o tal superior interesse da criança. Tem-se falado recentemente de mais do que uma situação, onde um bebé é retirado à mãe e à família, ainda na maternidade sem se entender qual o risco, gravíssimo decerto, que corria esse bebé! Por exemplo, ainda hoje li no jornal que um juiz retira bebé à mãe com dificuldade em acordar para o amamentar. A sério. Por aquilo que se consegue ler, havia família, havia um pai. Também pelos vistos, mesmo que a mãe tivesse com uma depressão post-parto, (acontece, sabem?) só se refere que ela tinha dificuldade em acordar à noite, não que dormia o dia todo... E um pai também poderia dar um biberon, não é? Menos grave do que retirar o leite materno a este bebé, sabemos bem que os anti-corpos do leite da mãe o vão proteger durante muito tempo. Vai para uma instituição??? Com 6 dias? Qual o superior interesse do bebé?! No outro caso já referido, o bebé foi devolvido à mãe meses depois. Mas a relação perdida, a vinculação tão importante nos primeiros meses de vida, o «colo», a voz, o cheiro, tudo o que liga um bebé à mãe....?
Não entendo.

Também li uma crítica à mãe, acusando-a de ter assinado os documentos e depois se arrepender. E não será normal? Se uma miúda de 23 anos, não tem grande amparo e se sente deprimida deve assinar qualquer coisa... 
Há decerto uns «superiores interesses» mas não são os da criança. 

(vou voltar a este tema da 'leviandade' de alguns juízes, porque é coisa que muito me impressiona)


Cereja

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Óscares e política

Apesar de gostar muito de cinema, não tenho frequentado ultimamente as salas de cinema tanto quanto gostaria. Os malefícios do vídeo que ajuda a preguiça de se ficar no conforto da nossa sala e o nosso sofá, sabendo bem que um ecrã grande numa sala escura faz toda a diferença para melhor... Mas é irresistível e assim se explica que não tenha visto nenhum filme proposto para os óscares, mesmo os que já andam por aí. Mea culpa, ou culpa do sofá e do frio da rua...
Também não tenho por costume ver a entrega dos óscares. Não acho que tenha interesse suficiente para alterar as minhas horas de sono que se iniciam antes do início da cerimónia. Agravando tudo isso, desta vez talvez por estar de «férias de Carnaval»  até me esqueci do famoso evento.
Esta manhã ao ler as notícias vejo que se deu uma espécie de escândalo, porque trocaram os envelopes com os prémios, e o Óscar de melhor filme foi inicialmente entregue a um outro filme... Ooooooh! Depois de agradecerem etc e tal, terem de o devolver deve ter sido impressionante e de pôr à prova os seus dotes de actor ou actriz! Bem, lá me ri um bocado.
Depois fui ver qual tinha sido o verdadeiro vencedor. Como já disse também não vi ainda esse filme que partiu de uma história chamada «In moonlight Black Boys Look Blue» título muito sugestivo, sobre um homossexual negro que cresceu no meio de drogas e criminalidade. Hmmmm.... Negro? Homossexual? Logo duas categorias non gratas para Trump e seus amigos.
Ou seja, uma pedrada em cheio.
Claro que para quem considera que «política» é só coisa de políticos, tipo a-minha-política-é-o-trabalho, etc, etc, (aliás essa velha frase é da máxima ironia porque não há nada mais político do que a política do trabalho!) pode parecer muito exagerado admitir que com este prémio se atingiu o actual Presidente Trump. E não deve ter sido isso, mas a verdade é que ele se pôs a jeito!!! Um tipo que goza com o que é diferente, que acha muita graça em se assumir como machista, que aceita o apoio da KKK, perceber que Hollywood com tudo o que de mau ela também tem, premeia uma história como esta não o deve deixar lá muito contente. E ver um actor muçulmano, dizem que foi o primeiro, a receber um Óscar! Li várias graças no twitter (mas em português, o homem não entende...) dizendo  por exemplo que 'amanhã o trump vai atacar com os Fake Oscares' e olhem que... se calhar...
A verdade é que a ideia de hostilizar os média que não aceitam tudo o que ele diz, não pode dar bons resultados. É que são muitos...! E criticar os artistas que também não gostam dele, o mesmo, porque também são muitos. Note-se que nos Razzies os anti-óscares, o primeiro prémio e pelos vistos muito merecido :))) foi para um filme Hillary's_America:_The_Secret_History_of_the_Democratic_Party que deve ter sido uma 'encomenda' dos republicanos.
Contudo, o facto de grande parte da imprensa denunciar as mentiras do Trump, não nos deve fazer esquecer que ainda há muita e muita gente que acredita. Mesmo aqui, em Portugal, se lermos alguns comentários de leitores de jornais on-line, encontramos muita gente que o aplaude e considera que o-resto-do-mundo é que que está a mentir. Não devemos esquecer isso...
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Mas que esta cerimónia dos Óscares não vai ser esquecida tão cedo, isso não vai!!!!



Cereja

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Ainda e sempre a educação

Dos temas que mais me apaixonam, como quem passa por aqui já sabe e basta ler os últimos posts para o verificar, o mais importante é sem dúvida a educação. Gosto de crianças, e considero que educar é talvez a tarefa mais importante do mundo. E é também um tema sobre o qual quase toda a gente tem opinião e sujeito a muitas "modas", mais do que isto talvez só, actualmente, a alimentação tema que parece ser quase uma obsessão. :)
Quem anda neste mundo há várias dezenas de anos tem a irresistível tendência de comparar a vida familiar actual com aquela vivida por si na infância e adolescência, e as diferenças são muitas vezes impressionantes. Muito frequentemente parece existir uma viragem de 180 graus, comportamentos que eram socialmente naturais há 50 anos são hoje vigorosamente criticados enquanto o que seria inaceitável no tempo dos nossos avós ou até dos nossos pais, é a norma.
Há alguns dias li num jornal uns comentários a uma atitude bastante estranha de algumas unidades hoteleiras. Parece que alguns (creio que muito poucos...) hotéis, publicitando o seu sossego e calma, informam que não aceitam famílias com crianças  Oh céus!!! «Adults only» Em Portugal também, por aquilo que li.
Claro que choca. Mas o que é isso??!
Contudo quem já comeu em restaurantes com crianças a correrem entre as mesas aos gritos, tentou ser atendido numa loja enquanto um menino fazia uma birra atirando tudo ao ar, ou entrou num elevador onde outra criança tinha carregado em todos os botões obrigando a um grande compasso de espera em cada andar, pode aceitar que esses comportamentos incomodam e perturbam o bem estar de quem não tem nada a ver com o assunto. Mas a culpa/responsabilidade não é da criança e sim do adulto responsável. Porque, de um modo geral, quem acompanha essas fontes de perturbação não exerce qualquer acção disciplinadora, nem impede a actividade socialmente desadequada.
(O exemplo que citei da birra numa loja, assisti a essa cena não há muito tempo; os compradores deixaram de falar com os empregados porque os guinchos abafavam as suas vozes mas a mãe não parecia nada sensível ao incómodo causado, não saiu dali com o filho, e continuou durante largos minutos a acabar de fazer fosse lá o que fosse...)
Ora bem, a diferença com um passado não tão remoto como isso é enorme. Reprimir-se, como dantes, a espontaneidade de uma criança em público? Hmmmm... Não parece ser o caminho. E a verdade conforme li numa socióloga hoje «ao contrário do passado as crianças são estimuladas a serem activas». E parece certo. Mas sem limites...? Podia-se concluir que hoje «os pais não educam pior, a socialização é que é menos virada para a obediência e mais para o diálogo»
Faz sentido.
Gosto do diálogo.
Mas nestes exemplos dos pequenos perturbadores da ordem, não vejo diálogo nenhum. Vejo uma espécie de quero-posso-e-mando das crianças, sem limites e sem respeito pelos outros.
As crianças não podem nem devem ser equiparadas a animais e excluídas dos hotéis, mas devem comportar-se então como os habituais frequentadores dos hotéis. Simples.


Cereja

... de volta, com a Primavera

Fiz no Cerejas uma pausa enooorme.
Meses e meses. Nem julgava que tivesse sido tão grande, fiquei admiradíssima quando confirmei que não vinha aqui desde o final do Verão passado...
Claro que a-culpa-foi-do-facebook, isso é indesmentível, mas não só.

Já lá vai o tempo onde comunicávamos, muitos de nós, através de blogs. Mas os meus «amigos da blogosfera», na sua quase esmagadora maioria, desapareceram. E os que não desapareceram, publicam ao ralenti.
Fui confirmar e cá está, o Charquinho, que vou «vendo» no twitter, mudou de visual e vai pingando um post aí de 15 em 15 dias, a Hipatia do Voz em Fuga idem, dá notícias aí uma vez por mês.... quanto à Saltapocinhas do Fábulas esperta como a sua homónima do Romance da Raposa, tem um truque para manter o blog activo: publica uma foto todos os domingos, uma anedota às segundas e um post «a sério» de vez em quando... voilá! Mas todos os outros, o 100 nada, o Ponto sem nó, o Estou na sesta, para não falar nos que sumiram de vez, que fecharam há 5, 6, 7 anos - o Cabra de Serviço, o Ai o Camandro, o Troll Urbano, o Farinha Amparo, o BdE (Blog de Esquerda) - e outros de que nem link já encontro o Afixe, o Barnabé... Nesses tempos, quando ainda não existiam as redes sociais que agora parece fazerem parte integrante das nossas vidas, comunicava por esta rede que desapareceu. Existem muitos blogs, claro está, com grandes temas políticos, ou económicos, ou sociais, correspondendo um pouco às colunas de opinião dos jornais, ou muito leves, com textos de moda, culinária, puericultura. Mas não-é-a-mesma-coisa.
Isto para analisar o porquê desta minha ausência, uma desmotivação por sentir que aqui fico a falar sozinha, enquanto no facebook tenho feedback.

Claro que não foi só isso. É verdade que tive uma grande pausa forçada por um acidente parvo que implicou uma hospitalização e uma ausência forçada das «novas tecnologias» como se costuma dizer. Mas não serve de explicação, porque se tivesse sido há 10 anos, ou até menos, no tempo do meu querido Pópulo assim que tivesse um computador à frente recomeçava cheia de energia.
Pois é.

Vamos lá ver se tenho um segundo fôlego :)))

Cereja 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

«Gostas mais do papá ou da mamã?»

Quando há uns dias escrevi aqui  Os modernos Salomões prometi que voltava ao assunto, que me preocupa muito e está muito longe de se ter dito sobre ele o necessário.
Nós hoje casamo-nos menos e divorciamo-nos mais. Mas, devido a uma grande alteração de conceitos - e ainda bem! - uma criança nasce sempre legalmente com pai e mãe sendo os dois igualmente responsáveis por ela, seja a ligação registada oficialmente ou não. Portanto a maior rapidez com que se casa e descasa, ou nos juntamos e separamos, não influencia a ligação legal mas influencia muito, imenso, a ligação psicológica.
Tenho a convicção por aquilo que vou sabendo, que grande parte dos pais tem cuidado quando comunica aos filhos a separação. Quase sempre explicam-lhes que a questão não tem nada a ver com eles e os amam da mesma maneira.
Mas vamos saltar vários patamares do que se passa nestas separações, inevitavelmente dolorosas, e chegar já aos Tribunais de Família que vão decidir a «regulação do poder paternal».  (uma nota, será que a palavra Poder, não é sugestiva?) Bem, essa regulação no papel parece sensata. No caso dos pais já não se darem lá muito bem, a custódia partilhada diz que a criança fica a viver com um deles e decidirão em conjunto as questões de educação, saúde, ou deslocações ao estrangeiro. Sensato. Assim como é sensato que o progenitor com quem a criança reside facilite os contactos com o outro.
Bem, mais um passo, para se chegar ao ponto importante que é um desentendimento entre os pais. É normal, não é? Estão a lutar por um Poder e muito zangados um com o outro. O Tribunal (advogados, assistentes sociais, juízes, procuradores, imensa gente) intervem. Além de ameaçar os pais como referi nos Modernos Salomões, vai ouvir a criança, o que não é má ideia. Mas o que é «ouvir»? Ser conduzida a uma estrutura assustadora que é um tribunal, onde numa salinha alegre (?) alguém, estranho para ela, lhe vai fazer perguntas sobre os seus afectos?
A pergunta idiota que se fazia a brincar «Gostas mais do papá ou da mamã?» foi há muitos anos considerada um modelo do que nunca se devia dizer, brincadeiras à parte. Do ponto de vista da psicologia é uma violência, um mau trato, uma agressão psicológica. Mas que a Justiça (?) faz constantemente. Quando uma criança pequena é interrogada, sabendo que do que disser pode estar a escolher viver com um dos pais, é gravíssimo.
Mas faz-se.
E depois de feito não se pode «apagar», não há borracha que apague uma recordação dessas, é trauma que a acompanhará toda a vida. Mas quem manda é o Tribunal e terá de ser obedecido a bem ou a mal. Isto acontece constantemente.
S.O.S.


Cereja

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Apenas um «trágico acontecimento»?!

Li ontem de manhã, e creio ter sido também apresentado na TV, um trágico acontecimento, a morte de um rapaz de 20 anos. Aconteceu. 
O modo como é apresentado é o de são coisas que acontecem porque sofreu um «golpe de calor».
Não simpatizo, nunca simpatizei, e nunca simpatizarei com instituições militares. Tenho este feitio, e talvez por isso não seja perfeitamente isenta. Mas enquanto o governo fala em 'momento de dor e sofrimento' e fala em apurar responsabilidades, o exército declara que «apesar da morte de um militar e de um outro ter ficado ferido no Domingo os treinos vão continuar embora adaptados ao tempo quente que está previsto para hoje». Porque, pelo que se vê, os treinos não estavam adaptados ao tempo quente que estava previsto para ontem (?!)
Estamos em guerra? Iremos ser atacados por inimigos externos? A independência de Portugal está em perigo? (não, não estou a pensar na ingerência de Bruxelas) A nossa Defesa está em alerta? Deve ser segredo porque não consta nada disso. Sabe-se que há treinos militares, em situações onde a desidratação é possível, dois rapazes são apanhados por essa onda de calor brutal e um acaba por morrer mesmo na enfermaria. Como é que foi assistido na enfermaria? Tantas dúvidas com que se fica!
Mas o chocante é a continuação dos treinos, a frieza da declaração que li. Como se a queixa de calor fosse uma pieguice, e aqueles rapazes devem ser resistentes a tudo portanto vamos lá continuar os treinos sem mariquices nem queixinhas.
Já disse que não gosto da tropa?


Cereja


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Negócios...


Como seria de esperar, nesta luta guerra das editoras, li agora a resposta da APEL à medida do governo sobre os manuais gratuitos.

Há dias tinha lido no mesmo Público um artigo confirmando o que parecia óbvio sobre o negócio dos manuais escolares e analisando as últimas decisões do governo sobre esta matéria dizia que «o negócio dos materiais escolares está a abanar». Parece que sim. Dizia lá que «isto significa três coisas a) no ano lectivo de 2017/18 vão ser vendidos menos livros b) as editoras têm boas razões para estar preocupadas e c) finalmente há uma medida oficial para tentar mudar as coisas e dar o primeiro passo no sentido da reutilização dos manuais uma coisa boa para a bolsa dos portugueses e para a sustentabilidade do planeta.»

A Saúde e a Educação são duas pedras básicas numa sociedade que se preocupa com os seus cidadãos mais desfavorecidos. E quem luta contra as desigualdades sociais, choca-se sempre ao perceber que duas necessidades desta importância para a sociedade podem ser também uns brutos negócios. Quanto à Saúde tem-se uma ideia do que são as máfias das empresas farmacêuticas, e no campo da Educação, embora com outra dimensão, temos os interesses das editoras. Naturalmente que quer farmacêuticas, quer editoras, tem interesses legítimos. Mas...
[Um parêntesis: embirro com a frase eu não sou ****, mas porque a seguir ao 'mas' aparece o que se considera a excepção ]
Eu não sou saudosista, ponto final. Cada coisa no seu tempo, vivemos o presente, sonhamos o futuro, recordamos o passado. E quando se recorda o passado podemos aprender algo. A minha geração cresceu num regime totalitário, e no ensino usava-se o «livro único», era o ensino censurado. Mau, claro está. Os professores só podiam ensinar aquilo que o governo queria, a vigilância era total. E, claro, o livro era para ler, e os cadernos para escrever. Aliás até havia uns cadernos de papel mais grosseiro chamado papel de sebenta para fazer rascunhos, porque tudo se poupava naquele tempo. E como os-livros-eram-para-ler iam passando de mão em mão para serem utilizados.
Depois de Abril a metodologia do ensino foi também revolucionada. E passou-se de há uns anos para cá a usar uma coisa hibrida entre o livro e o caderno. Trazia os textos que explicavam a matéria e no final uns exercícios para avaliar se tinha sido compreendida. Era apelativo, teve sucesso e até parecia que se poupava um caderno. Mas evidentemente que aquele manual só serve para uma vez. E as editoras, que passavam momentos difíceis durante o resto do ano, tinham ali uma galinha de ovos de ouro inesgotável: ganhavam em Setembro/Outubro de cada ano tanto quanto ganhariam no resto de todo o ano.
O complicado é que isto vai ser uma guerra com muitas batalhas, os professores devem estudar técnicas de ensino para além destas do manual/caderno, as editoras vão ter de repensar as suas estratégias, e os alunos e famílias aceitarem que reutilizar é bom. Quando leio que por lei estes manuais devem durar 6 anos, nos países nórdicos onde são grátis, a duração vai até 10 anos, vê-se que não é possível que sejam livros/cadernos como cá, porque no 2º ano já não servem...
Mas isto é mudança de mentalidades em muitas áreas, e não será fácil. Sobretudo as editoras não vão ceder sem luta, o que quereriam decerto é que tudo ficasse na mesma com o Estado a pagar os manuais... Ah pois!




Cereja

sábado, 3 de setembro de 2016

Os modernos Salomões

Salomão ficou famoso para sempre graças ao seu célebre julgamento: perante duas mães que disputavam uma criança como sendo sua filha, mandou cortá-la ao meio e dar metade a cada uma. Uma delas abdicou da «sua metade» e concluiu-se que era a verdadeira mãe e a história acabou em bem. A sentença ficou famosa, não se imaginava que ele mandasse mesmo dividir a criança.
Passaram-se séculos e séculos, e em 1989 foi criada pelas Nações Unidas A Convenção sobre os Direitos da Criança. É um documento muito importante, com 54 artigos que cobrem todas as áreas importantes para a vida de uma criança. No artigo 9 º diz-se que «a criança não é separada dos seus pais contra a vontade destes [....] salvo se as entidades competentes decidirem [....] que essa separação é necessária no superior interesse da criança». Parece lógico, de bom senso até. Só no caso de uma situação gravíssima e  se  procura uma alternativa que não o pai ou a mãe.
Até há uns 100 anos havia a ideia, socialmente aceite, de que os pais eram donos dos seus filhos. Assim como não se metia a colher entre o marido e a mulher também não a metiam entre os pais e os filhos. Hoje parece-nos medieval, incrível, aberrante, e felizmente ninguém já pensa assim. E existe a Convenção que se deve cumprir.
Mas há um fenómeno novo, nas sociedades modernas. Coincidindo com um aumento enorme de separações de casais, os pais hoje disputam violentamente os seus filhos. Por aquilo que vou vendo à minha volta, são uma minoria os casos onde se resolve amigavelmente a partilha dos filhos.
E então os Tribunais de Família decidem. Decidem com um poder absoluto. Não quero generalizar porque, como em tudo, só conhecemos os casos maus, mas... Mas há muitos, demasiados, casos maus. Vejo constantemente pais e mães aterrorizados com a possível decisão do juiz, que os pode ouvir mas decide sem ter de justificar porque tomou essa decisão. (Isto merece mais reflexão, mas fica para outro post)
Mas passa-se em Portugal algo de muito grave.
A Justiça e Segurança Social têm Lares e Instituições de Acolhimento para crianças. Para se ter uma ideia, vivem em Instituições de Acolhimento 8.600 crianças e jovens. Sim, leram bem, oito mil e seiscentas crianças institucionalizadas. Como se pode ler através do link, «são crianças que trazem percursos de vida extremamente traumatizantes e que precisam de um grande apoio para poderem reencontrar o seu equilíbrio».Ou seja, uma criança é orientada para lá em desespero de causa, quando não se vê nenhuma alternativa.
Mas imagine-se que agora é vulgar (?!) nos tribunais de família, quando os pais não se entendem sobre a guarda dos filhos, os juízes declararem «ai é? não se entendem, e nenhum quer ceder? então decido que a criança vai para uma instituição!» Assim portanto a criança é duplamente vítima, é arrancada dos braços da mãe ou do pai com quem vivia o que já é grave, mas não é para ir para uma avó, tia, madrinha, alguém que lhe seja familiar, não, é condenada à cadeia a entrar numa instituição! Uma violência que brada aos céus.

A primeira vez que ouvi falar duma ameaça destas considerei que era um mal entendido, fiquei até irritada com a pessoa que tinha dito, para mim era im-po-ssí-vel. Hoje já sei que eu é que era ingénua, as ameaças e até mesmo a concretização existe.
São os modernos Salomões, ignoram o sofrimento da criança inocente desde que castiguem bem quem não obedece às suas ordens. Revoltante? Mais. Não encontro um bom adjectivo....


Cereja