segunda-feira, 2 de novembro de 2015

História esquisita ou... mal contada


Não interessa para o caso que clube de futebol está na berlinda, cá para mim poderia ser qualquer, porque os adeptos e as claques de todo o mundo são conhecidos por serem descontrolados. Imagino facilmente, que o entusiasmo e mais uns copos, tenham anulado o botão do auto-controlo destes rapazes. OK. Ora o que a notícia refere é que «houve um problema entra os referidos adeptos e uma hospedeira que levou à reacção de um passageiro turco. A confusão instalou-se, havendo lugar a troca de insultos»


Isso é mau, é desagradável, sem a menor dúvida.
Imagino que o banzé fosse grande e incómodo. Mas por aquilo que se lê, não houve pancadaria nem ameaças físicas, ninguém estava em perigo. Não havia armas (o que aliás seria de estranhar dado o rigor com que os passageiros são inspeccionados antes de entrar) nada parecia por em risco aquele voo. 
Mas o comandante decidiu «desviar o voo para Roma, por não estarem garantidas condições de segurança».
Ora, por um lado, sabemos que uma aterragem de um avião num aeroporto é caríssima - para além de haver um brutal gasto de gasolina, tem de se pagar o «estacionamento» que me disseram ser também um valor astronómico. Por outro lado, também se atrasou a chegada ao aeroporto turco, e isso também de certeza que saiu caro, a alteração da hora de aterragem, para além dos prejuízos que esse atraso provocou aos passageiros.
É evidente que se estivesse de facto em risco a segurança do voo, era mesquinho estar a referir aqui se a decisão do comandante tinha sido 'cara', mas pelo relato (e por isso ressalto a ideia de que tudo isto está mal contado) não se vê que uma discussão entre passageiros fosse o bastante para criar um risco à segurança do avião...
Bem. Não sei se há seguros para estas situações, mas se não estavam cobertos por uma apólice qualquer, estes adeptos vão ficar a pagar esta discussão até ao fim das suas vidas. Creio que até terão de reencarnar para saldar esta dívida gigantesca.
Sugestão: para além do exame à bagagem que excluiu desde o corta-unhas ao sabonete líquido, os passageiros deveriam também ser obrigados a soprar no balão, e não poderem entrar para além de certo grau de alcoolismo. Era mais fácil e barato.



Cereja



sábado, 31 de outubro de 2015

Arte e provocação artística

A história é engraçada. Uma empregada de limpeza de um museu «limpou» uma obra que estava em exposição. Começamos por estranhar mas, sinceramente, talvez nós fizéssemos o mesmo. Por aquilo que se lê a obra artística que se chamava «Onde vamos dançar esta noite?» - os criadores não lhe chamavam escultura nem pintura chamavam-lhe 'instalação artística' - e consistia em garrafas vazias espalhadas no chão, rodeadas por beatas e serpentinas e confetis. Hmmmm... Qualquer boa mulher-a-dias limpa essa porcaria.

Cá por mim, se isso não tinha nenhum destaque especial, não posso censurar a empregada. Como ia adivinhar? Entra numa sala naquele estado e, logicamente, limpou tudo. Normal, não? Mas agora, possivelmente, vai ter receio de despejar os caixotes do lixo ou limpar o pó, sabe-se lá se não é outra instalação.
Se desta vez entendo muito bem a confusão da empregada, isto fez-me recordar uma história de que fui «vítima» já há um bom par de anos:
O gabinete onde eu trabalhava era limpo diariamente por uma empregada que eu até conhecia mais ou menos bem por ela já lá trabalhar há uns anos. A certa altura, por uma qualquer remodelação, aquele andar passou à responsabilidade de outra empregada, muito activa e desembaraçada. Começou por passar a arrumar-me sistematicamente a secretária, ou seja empilhando dossiers que estavam separados por uma determinada ordem. Depois de alguns conflitos, passei a ter um pano do pó guardado e limpava eu o pó às minhas coisas.
As coisas estavam nesse pé, a Dona ***** despejava o cesto de papeis, aspirava o chão, limpava os vidros da janela, e pronto. 
Até que certo dia ao entrar o gabinete pareceu-me estranho, desconfortavelmente vazio... Eu tinha numa das paredes um poster, grande, lindíssimo e de grande valor estimativo. O fundo era uma reprodução de um quadro, enquadrando o programa de um seminário onde eu tinha participado há uns anos, seminário que tinha sido muito importante para mim sob vários pontos de vista. Tinha conseguido aquele poster com alguma dificuldade, quase nem queria acreditar na sorte que tinha tido por o ter conseguido na altura.
Olhei para o chão, a ver se se tinha descolado (o que seria estranho...) mas não. O resto da sala estava arrumada. Lá fui procurar a Dona *****, para entender o que se tinha passado. Ia morrendo, quando ela muito segura de si e até condescendente me informa: «Oh doutora, não viu que aquilo estava velho?! A data já passou há muito tempo. Eu deitei para o lixo, já estava ultrapassado!!» Devo ter passado por várias cores, porque ela mostrou-se menos segura, e depois de ter explicado que já tinham recolhido o lixo, ofereceu-se para me arranjar um outro qualquer, havia uns calendários muito bonitos...
Com esta recordação, compreendo melhor a senhora das limpezas italiana, a que «limpou a instalação» das garrafas vazias e beatas no chão.




Cereja




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ando farta!


Ando farta, farta, farta que mandem em mim!
As crianças «do meu tempo» eram mais obedientes. Quero eu dizer, havia de tudo é claro, meninos mais ou menos desobedientes, mas quem mandava eram os adultos - pais, professores, as tais figuras de autoridade - e nós sabíamos isso. Quando se crescia ainda se tinha de obedecer às normas sociais e às leis mas na vida privada fazia-se como se queria.
Actualmente as crianças, de uma forma geral, já questionam (e muito!) as ordens que recebem. A maioria delas é negociada e raramente se ouve a frase vulgar na nossa infância «é assim porque eu mando!». Nas famílias até parece que todos os filhos de qualquer idade vivem como os adolescentes do meu tempo, em contestação permanente.
Mas, por outro lado, a sociedade de hoje controla muito, mas muito mais, as nossas decisões quanto à forma como vivemos, nós adultos.
Ele é a publicidade constante e invasora, ele são 'estudos' científicos com que nos bombardeiam, ele são os conselhos médicos em cada consulta e nem sempre coincidentes entre as diversas especialidades, ele são as milhentas revistas de especialidade(s) que compramos... Todos, e a maior parte das vezes de um modo contraditório entre si, nos mandam:


Dorme mais!
Não comas isto!
Não durmas tanto!
Tens de comer aquilo!
Faz ginástica!
Toma banho assim!
Bebe água!
Faz a sesta!
Anda a pé!
..................................


Pronto, CHEGA!
Na parte alimentar isso então atinge quase o delírio. Não sei se por interesses económicos não há mês, ou se calhar nem há semana, onde não descubram que determinado alimento faz muito bem ou faz muito mal! E lá se soltam os cães à caça desse maléfico alimento que será banido da nossa dieta alimentar.
OK.
Se fosse obediente hoje seria assim o meu almoço:



Cereja

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Os cafés


Inesperadamente encontrei no youtube uma canção.

Não conhecia a canção apesar de conhecer a cantora... desde «os tempos do Monte Carlo»!






Fiquei afogada em saudades. O café Monte Carlo foi uma referência para a minha geração, o ponto de encontro para a malta universitária, sobretudo a mais virada à literatura e às artes. E ainda por cima para mim era quase inevitável por ser pertíssimo da minha casa.
Nesses anos, os cafés eram a nossa segunda casa.
Conheci uma pessoa, já de outra geração, que me contou ter uma vez mandado fazer cartões de visita, com os dizeres «Fulano de tal, Café Chiado». Era a sua morada! Porque estávamos no café horas e horas. Eu própria, certa vez, sentada ao fundo da Brasileira com uma chávena de café, passei pela vergonha de ouvir dizer educadamente «Não deseja mais nada?» e vim à tona olhando o livro, caderno e lápis e enchiam o tampo pequeno da mesa, sem perceber a pergunta do empregado. Ele olhou para o relógio da parede e vi que estava há duas horas e meia sentada em frente de uma bica... Ups!
Os cafés mais frequentados, na minha geração, já não eram os da Baixa mas os que eram perto dos locais onde se estudava. O Tatu, o Nova Iorque, o Vavá, na zona da Cidade Universitária. O Cister para a malta de Ciências. Ou os perto-de-casa como o Imperial ('Confeitaria' ?!...) e também o Café do Cinema Império, por exemplo. A relação dos clientes com o Café e do Café com os clientes era muitas vezes próxima e pessoal. Em frente do Monte Carlo havia um outro café muito mais antigo, o Café Paulistana que o meu avô frequentava. Como era um republicano conhecido, consideravam que a sua presença dava prestígio à casa e o primeiro café era sempre oferecido!
Eu tinha a sorte do «dois-em-um» no caso do Monte Carlo: era o mais perto da minha casa e onde a malta amiga e com mais afinidades se juntava. Foram tarde e noites inesquecíveis as que lá vivi.

As saudades que esta canção veio levantar...


Cereja

sábado, 10 de outubro de 2015

'Máquinas' ou 'sessões de esclarecimento'


Estamos no rescaldo de umas eleições legislativas muito importantes. São sempre muito importantes este tipo de eleições, mas, se possível, estas foram ainda mais do que as outras. Estamos a viver uma crise económica (e não só) com reflexos em diversos valores com um custo brutal nas nossas vidas.
O resultado apurado nas urnas foi surpreendente. 

A opinião pública tinha sido inundada por demasiada «informação» (?) que por ser demasiada e muito suspeita, era de imediato desacreditada. A ideia das sondagens diárias massacrou as pessoas e lançou grandes dúvidas sobre o rigor das mesmas. Hmmmm...?! não-pode-ser-verdade! era o que mais se ouvia. O maior palpite era que iria aumentar muito a abstenção, contudo durante o dia até parecia que ela teria diminuído. Contudo na própria noite eleitoral sentiu-se um terramoto - as sondagens diziam verdade!!! As primeiras notícias, as 'projecções', estarreceram os eleitores de esquerda! Sugeriu-se que os partidos do governo, os dois juntos é certo, estavam prestes a atingir a famosa maioria absoluta. Como era possível?!
Mais do que nunca olhando para o mapa de Portugal se via uma linha dividindo-o ao meio: o norte laranja, o sul vermelho. E a mancha vermelha do sul podia explicar como tanta gente que por aqui vivia nem conseguia admitir o resultado das urnas porque o que viam à sua volta dizia-lhes o contrário. E o que se via na tv é que os lideres do PAF  quando apareciam em público tinham de ser protegidos da agressividade popular, e os outros pelo contrário eram vitoriados ou vistos com simpatia. Muito bem, a verdade é que na hora do voto a coisa foi bem diferente.
Em conversas que fui tendo com amigos, uma coisa foi muito sublinhada: a opinião pública é manipulável de um modo impressionante! No caso dos grandes partidos quem ganhou ou perdeu foi quem fez um melhor marketing. E o PS aí falhou completamente, tendo inclusivamente mudado de director de marketing depois do «caso dos cartazes» onde se esqueceram de explicar aos figurantes que o eram... E outros diversos 'tiros-no-pé' que naturalmente eram muito sublinhados pelos adversários. Pelo contrário a PAF teve um marketing muito bem feito, e viu-se pelo resultado.
Ora nas diversas conversas com os meus amigos uma coisa era frequentemente sublinhada, as propostas ou não-propostas de programa feitos pelos diversos partidos, o ter chegado a público ou não aquilo que os economistas dos partidos propunham. E eu ia pensando para mim "vocês podem ter razão, mas quem é que lê os programas e as propostas, e os entende?». Há uma classe de pessoas politicamente informadas e que têm esse cuidado, mas a esmagadora maioria dos eleitores não os lê nem os compreende. Simples. Ou seja, dá para entrar em força as máquinas partidárias com fortes jactos de contra-informação, e quem domina os meios de comunicação nem precisa de se esforçar muito. A receita é fácil e simples: repetir até à exaustão e bem embrulhada a ideia que se quer passar, seja ou não uma rematada mentira. Analisar e discutir seriamente as propostas não é preciso nem convém.
Há 40 anos, nos primeiros passinhos da democracia, usou-se um modelo, a «sessão de esclarecimento». Foi muito troçada, porque havia quem considerasse que o MFA ou as forças que organizavam essas sessões tinham uma visão demasiado de esquerda. Mas o modelo era correcto: levar aos clubes de bairro, às organizações locais, às aldeias, às freguesias, o debate em pequeno grupo. Muitas das pessoas que ouvem as 'análises' (?!) dos comentadores da tv, num tom paternalista e superior, teriam vantagens em ouvir outras opiniões e mostrar as suas dúvidas. Ora isso só em pequeno grupo.
Mas o tempo é das 'máquinas', partidárias ou não a máquina é distante e não-humana. 
Não a podemos vencer?



Cereja

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Bola-de-neve

Comecei por pensar em 'circulo vicioso' mas a imagem da 'bola de neve' é mais correcta. Queria falar do modo como certas notícias aparecem e são vistas.
A maioria dos jornais, pelo menos aqueles que vejo on-line que é como vejo quase todos, têm uma janela onde realçam as notícias mais vistas. Chama-se mesmo, como é natural, «Notícias mais vistas». 
Ao princípio ficava irritada com a escolha dessas notícias. Havia dias onde só apareciam parvoíces, faits-divers que não interessavam nada, coisas que deviam aparecer em secções do tipo 'acredite-se-quiser', muitas vezes histórias pessoais de social-lights ou jogadores de futebol. Como é que o jornal pode pensar que isto é o mais interessante que publica?! pensava eu. 
Afinal, mea culpa, costumava ler a coisa em diagonal. Eles de facto referem as «notícias mais vistas», ou seja a culpa é do leitor que as escolhe. E pelo que percebi a coisa funciona assim: O jornal publica 100 notícias. O leitor A seja por que motivo for - até pode ir simplesmente atrás do título - abre umas 10. Portanto foram as mais vistas. O leitor B vê que as 10+mais+vistas foram aquelas e vai lê-as, reforçando que foram mesmo as mais vistas. E o leitor C também... Etc. 
Falando por mim, é muito frequente ir ver um disparate qualquer, por curiosidade. Hoje dizia que "Sérgio Ramos compra nova «bomba» de 190 mil euros", eu não fazia a mais ligeira ideia de quem fosse o Sérgio Ramos, mas 190 mil euros dava-me jeito e abri a notícia...
É por isso que lhe chamo «bola de neve», são os leitores que alimentam o monstro e é imparável. Aliás na net com o sistema de partilhas muitas vezes sem se verificar se a história é falsa - e muitas vezes é! - é ainda mais imparável.
Mas ao menos tenhamos consciência disso.



Cereja



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Praxes

Apesar de ter no Cerejas um sítio onde guardo os posts mais 'virados para o passado' a que chamei "ontem e hoje" eu não sou o que se chama uma saudosista. Algumas coisas fazem-me saudades e tenho tendência a vê-las com uma luz doirada, mas até considero que hoje se vive de um modo menos preconceituoso e com muito mais comodidade. Não voltava para o passado mesmo que pudesse.
Contudo, de vez em quando passam-se coisas que «no meu tempo» eram diferentes para melhor, e me é difícil entender porque foi que pioraram.
Temos o caso das praxes. Começando por uma ponta, a farda
Quando entrei na Faculdade os estudantes da primária e mesmo do liceu, usavam uma bata. Era obrigatório, pelo menos nos liceus femininos. Não se refilava assim muito, porque pensávamos que sempre-assim-tinha-sido e os nossos pais não apoiariam a rebelião, mas ao sair a porta do liceu despia-se rapidamente aquele sinal discriminatório, na rua andávamos como toda a gente. Ao entrar na Faculdade uma das satisfações era não haver roupa especial. Lá para Coimbra havia quem se fardasse como os padres mas eram lá coisas deles, sorríamos nós, condescendentes...

Com surpresa desde há anos que vejo que os jovens estudantes universitários do país todo deram uma reviravolta de 180º e adoram a farda! Mesmo no Verão, podem pingar suor mas vestem todos contentes um fato completo, camisa e gravata, e ainda uma capa para ficaram impecáveis. Verdadeiro amor à farda, o que vai ao arrepio da embirração que tínhamos dantes.
Mas o chocante para mim é a questão das praxes. Quando eu entrei para a Faculdade não havia nenhum ritual. A Associação de Estudantes promovia uma «Semana de Recepção ao Caloiro» que servia para mostrar a casa a quem entrava, onde eram os diversos serviços, a quem é que se deviam dirigir, e os costumes. Havia actividades culturais, e terminava com um baile. Coisa simpática, simples, leve. E sem a menor obrigação, quem queria aproveitar ia, quem tinha mais que fazer passava ao lado.
Actualmente, em Lisboa, nesta altura do ano estamos constantemente a passar por grupos muito grandes de rapazes e raparigas com gritos que se ouvem ao longe, vestidos de preto, nuns rituais estranhíssimos. Não fazem mal nenhum, parece, só chamam a atenção e ficam todos contentes com isso. OK. O pior é quando essas macacadas acabam em violência o que parece acontecer cada vez mais. Mas porquê?! O que motiva esses jovens a praticar e a submeter-se a situações de humilhação ou sofrimento físico? E como sabemos essas parvoíces podem descontrolar-se como aconteceu na Caparica há menos de 2 anos. E como quase acontecia agora, no Algarve, com  uma estupidez que poderia ser fatal
Eu sei que este fenómeno anda a ser estudado, mas preocupa-me. Acredito que o modelo é que tem de ser mudado depressa. Porque não era só «no meu tempo» ainda hoje há quem saiba que afinal há alternativa. Há outras maneiras do ensino superior integrar quem chega ou despedir-se de quem sai.
Assim é que não.




Cereja

domingo, 20 de setembro de 2015

Comer saudável é para quem pode


A alimentação é um tema que aparece com imensa frequência no Cerejas, primeiro que tudo porque me preocupa, é claro, mas também porque "está na moda", como disse aqui, ou aquiimpressiona-me como toda a gente parece saber tudo e dar imensos conselhos mas penso de imediato: se as pessoas sabem porque não fazem?
Li agora um artigo/reportagem onde, talvez pela primeira vez, encontrei em letra de imprensa quase tudo o que vou pensando sobre esta matéria. A conclusão era afinal de que só quem tem dinheiro pode apertar o cinto ! Não, não é brincadeira embora haja um jogo de palavras, porque neste caso usa-se a expressão apertar o cinto literalmente. 
Há cem anos o modelo de elegância levava a dizer «gordura é formosura» mas era uma época onde realmente quem era pobre era magro. Magro porque comia pouco, e o que comia eram os produtos mais baratos, produtos esses que não incluíam nem açúcar nem gorduras, coisas caras na época. O que comiam era o que a terra dava, batatas, couves, comiam bastante sopa com uma pinguinha de azeite, ou arroz com alguma coisa para dar gosto, enquanto os ricos podiam engordar à vontade com carnes e peixes e manteiga, e doces com muitos ovos e muito açúcar, como hoje vemos nos livros de receitas de então.
O mundo girou muito. Hoje é barato produtos que eram de luxo nessa época como o frango, e o leite e manteiga também não são caros, mas os tais legumes frescos já não são para pobres... Não são mesmo, a não ser para quem tenha uma horta no quintal! E como a intensidade da vida do dia a dia deixa quem trabalha sem tempo para grandes cozinhados, quem tem pouco dinheiro e pouco tempo escolhe os alimentos onde paga menos e são mais rápidos de fazer - o doce e gorduroso fast-food. 
[Um reparo: como é que a Itália conquistou o 'mundo alimentar' de um modo tão completo?! Já notaram que em todo o mundo se sabe o que são pizzas, pastas e lasanhas?...]
No artigo que cito as pessoas entrevistadas dizem coisas com que concordo muito como por exemplo «o peixe continua a ser um alimento caro» e enumera as excepções. Perfeitamente verdade. Nos dias de hoje, a carne se for de aves, ou picada que rende mais, é bem mais barata do que o peixe, porque se temos uma bela orla marítima temos também as terríveis quotas de Bruxelas. Até o 'fiel amigo' está caríssimo...
E diz esse artigo algo de que eu também estava convencida: «nunca se gastou tão pouco com a alimentação»! Em 95 gastava-se 21,5% do orçamento familiar em comida e em 2011, 13,3%. E os produtos não estão mais baratos, a 'ginástica' é que é bem maior.
Era muito bom que os conselheiros-bem-intencionados (?) que enchem colunas de jornais a falar de cor sobre os erros alimentares que de facto se cometem, lessem com atenção e respeito este artigo (ou reportagem?) E meditassem.




Cereja

domingo, 13 de setembro de 2015

« Este pais não é para velhos»

Digamos que no caso de Portugal o país ainda é menos para velhos, porque para novos também não é. Mas se os novos ainda fogem, o que pode fazer quem chega à velhice nesta nossa terra?
Disseram os jornais que Portugal é o terceiro pior país da Europa Ocidental a assegurar o bem-estar social e económico das pessoas com 60 ou mais anos de idade Alguém ficou muito admirado? Parece que temos ainda Malta e Grécia atrás (interessante confirmar que foram os países mais fustigados pela troika), mas como caiu 3 lugares desde 2013 pode imaginar-se que com mais dois aninhos ainda chegamos ao primeiro lugar a contar do fim!
Neste relatório, que acredito seja isento, diz-se que «cerca de 20 mil idosos vivem em 3.000 lares ilegais e [...] 39 mil vivem sozinhos ou isolados». Não refere aqui que o valor que se paga num 'lar' é completamente exorbitante para o rendimento de alguém que não seja rico, o que explica que muitas famílias estejam a retirar os idosos, não por serem lá maltratados (espero que não sejam) mas por não poderem pagar a mensalidade. Ultrapassa em muito uma reforma razoável...
Mas para os que vivem sozinhos, e ali fala-se em isolados, a vida é um pesadelo. 
Nestes últimos dias tenho contactado com um casal que vive na aldeia onde passo férias. Casal sem filhos, mas que vive no coração do povoado, rodeado de vizinhos por todos os lados. Têm 89 e 90 anos. A casa é deles mas precisam de pagar a electricidade, água, gás, telefone, televisão, e a reforma é de 400 €. Pelo que percebi devem ter ainda algumas poupanças que vão gastando agora para as contas da farmácia e serviços de saúde de que se queixam amargamente (não há transportes e para os bombeiros, de que são sócios, os levarem a uma consulta pagam 40 €) e quando falo com eles sinto-os desesperados. Com cataratas os dois e ele além disso com glaucoma; ela só ouve, um pouco, de um ouvido e ele também não ouve lá muito bem; ele quase não consegue usar as mãos, muito deformadas; têm os dois pacemaker, e ele um tumor cerebral não maligno. Eram pessoas muito independentes, e estão agora sujeitas à boa vontade dos vizinhos que muitas vezes mostram grande impaciência... porque têm também uma vida difícil.
Este casal não tem filhos, têm uns sobrinhos que não os vêm há anos e anos. A solidão que sentem é impressionante. De início considerei que a senhora estava com uma grande depressão pelo desinteresse que mostrava por tudo, mas após uns dias já tinha dúvidas do apressado diagnóstico - com grandes cataratas e meio surda nem a tv a interessava, o que é natural, e visitas não tem nenhumas.
Um caso 'modelo' do que não devia existir num país de 1º mundo que tivesse uma rede de apoio social.
Esse país, definitivamente, não é Portugal.


 Cereja





quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Birras infantis

Este é um problema importante na educação infantil, lidar com a birra ou, falando de um modo mais técnico, «como ensinar uma criança a aprender a lidar com a frustração» o que vai dar ao mesmo.
Volta não volta toco aqui neste assunto que causa muitas arrelias aos pais e educadores e não é de fácil resolução. Afinal dar conselhos é a parte mais fácil disto tudo... Mas, muito recentemente assisti numa loja a uma cena dessas e logo de seguida li um texto que falava de como resolver uma bela birra.
A cena a que assisti ao vivo e a cores, passava-se numa loja de produtos de decoração num centro comercial. Uma senhora jovem, estava acompanhada por um rapazinho dos seus 7/8 anos e uma menina de cerca de 4 sentada na sua cadeirinha. Quando entrei a menina berrava a plenos pulmões, e tínha-os em belo estado e, pelo aspecto desesperado e constrangido de quem lá estava, a cena já estava a decorrer havia algum tempo. O que causava alguma surpresa é que a mãe continuava a conversa com a vendedora como se fosse absolutamente surda àquele som que nos furava os tímpanos. Decerto que tinha sido aconselhada (e bem) a não ligar à birra, mas sinceramente não estava a resultar porque a criança gritava cada vez mais e conseguia chamar a atenção por completo, não apenas da mãe e irmão mas de toda a gente da loja e corredor... Um espectáculo completo. Ali impunha-se não ceder, naturalmente, mas também afastar a criança do centro das atenções.
O texto que citei, louvando a mãe que dominou a outra birra, parece 'inventado' para ensinar como-se-deve-fazer, porque não é normal um menino de 4 anos ter os conhecimentos que se lhe exigiam. Quanto à menina, esteve decerto a gritar mais tempo, porque me parece que a opção de a pôr na cadeirinha foi para a tentar controlar. E parece-me bem que o menino da livraria entenda que aquele dinheiro não chega para o que quer e aceite o limite que a mãe lhe deu. Mas querer que ele entenda o valor relativo dos preços? Sozinho? Aos 4 anos? Hmmm...
Claro que são frustrações. Desejar uma coisa que não podemos ter é bem triste e em qualquer idade. Mas se isso não se treina em criança, irá ser um adulto insuportável e infeliz.
Ou também se lhe pode mostrar a figura que faz :) 

Esta cena aqui em baixo já a conheço há muitos anos mas continua muito engraçada.





Cereja