segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Ainda a saúde

A propósito deste artigo, que explica que a ARS considera que no Centro de Saúde bastam 10 minutos para atender doentes com gripe, deixei há poucos dias, no facebook, esta minha proposta onde ainda se ganhavam 30 segundos:
«A contra-relógio:
1 - Confirmar o nome, dar Bom Dia, apertar a mão, mandar sentar, abrir a ficha no computador - minuto e meio
2 - Ouvir de que sintomas o doente se queixa - dois minutos
3 - O doente despe-se para ser auscultado - minuto e meio a dois minutos (porque se for velhote pode atrapalhar-se com as mangas ou botões...)
4 - Auscultar o doente, um minuto
6 - Manda-o tossir já enquanto ele se veste, assim ganha tempo mas tem de ser, tem de se vestir - mais um minuto.
7 - Não precisa vêr tensão arterial nem essas mariquices, vai é passando a receita enquanto confirma se é alérgico a algo - outro minuto.
8 - Receita a imprimir, 30 segundos.
9 - Explica-lhe a posologia enquanto o manda dirigir-se depressa para a porta, e chama já o doente seguinte - 30 segundos.
.............
Já está!»

Tinha-me achado muito esperta, quando o esquema desabou!
A Visão de 22 de Janeiro publica uma reportagem chamada «Medicina de Guerra» a propósito da questão das 'urgências'. Uma das médicas diz que perde cerca de 10 minutos a tentar abrir o programa de passar as receitas; depois outro para as análises e outro para a lista de doentes; o computador é muito lento, a informação não é cruzada e não há acesso aos dados dos Centros de Saúde.
Ou seja, no meu plano tinha-me esquecido da 'valência informática'! E sei, por experiência, até que ponto esses famosos servidores da saúde avariam, bloqueiam, entram em pane. Metade das vezes que vou a um Centro de Saúde há qualquer azar a esse nível. Se o terrível Citius ficou famoso pelas razões conhecidas, os servidores da área de medicina também não gozam de grande saúde.

Pronto. Os tais 10 minutos que tinham sido apertadinhos, saltam para muito mais porque actualmente tem de ser tudo feito por computador, o que  acelera muito quando funciona mas... Hmmmm! 



Cereja

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Diferente pois, porque não?

Na última revista do Expresso, vêm duas importantes entrevistas quase seguidas, poucas páginas de permeio. Uma a um actor Benedict_Cumberbatch, a outra a um banqueiro António Simões. De comum parece apenas viverem em Inglaterra e estarem na casa dos 30 anos. Mas a entrevista ao actor versou sobretudo o seu último filme  O Jogo da Imitação, estreado agora, biografia de Alan Turing um fabuloso e inteligentíssimo matemático versado em inteligência artificial, em computadores, em códigos e enigmas. Conta a História que este homem ajudou a antecipar o fim da guerra mas e suicidou-se em 1954, com 41 anos. 
Ora o que interessa emparelhar, e decerto foi essa a ideia do jornal, foi António Simões com Alan Turing. Porque os dois têm algo em comum que mostra bem a impressionante evolução da sociedade neste pouco mais de meio século que separa as suas vidas, uma evolução dos costumes sociais (?) que não se conseguiria nunca, mas nunca, imaginar há 60 anos.
Quando eu era criança a homossexualidade era um tema tabu. Completamente. Eu já era bem crescidinha quando vislumbrei o que era 'isso', porque não se falava à minha frente. Aliás os primeiros vislumbres vieram via cultural: Oscar Wilde, António Botto, Verlaine, Rimbaud, (hmmmm?...) eu ficava curiosa pelas meias palavras por 'o-que-não-se-dizia'. Isso, exactamente na época onde na Inglaterra ainda se julgava e condenava uma personalidade genial como Alan Tunig pelo crime de ser homossexual, e condenado à cadeia (como foi Oscar Wilde) ou à castração química que ele aceitou mas cujo sofrimento o levou ao suicídio um ano depois. Uma história de arrepiar.
Mas o vento da ciência foi varrendo os velhos preconceitos como um furacão. E actualmente, nesse mesmo país um presidente de um Banco fala sorrindo da sua orientação sexual e do seu marido, acrescentando que «se não fosse gay provavelmente não seria CEO do Banco» isto na City com o seu formalismo... Impressionante. Toda a linguagem se modificou. O palavrão com que se designava quem preferia o mesmo sexo, ou até a palavra 'maricas', já nem como insulto já se usa muito. E nasceu o conceito de homofobia, que parece a vingança dos gays perseguidos e castigados ao longo dos séculos, porque agora o castigo vai para quem exprima esses sentimentos.

O mundo mudou de facto muito! 

Se alguém fosse transportado dos tempos da minha infância para hoje não é pelos nossos fatos, pelas nossas casas, pelos nossos transportes, que sentiria mais admiração. Talvez um pouco pelos nossos meios de comunicação mas a maior admiração seria sobretudo na sociedade e nesta área específica da valorização das diferenças. A outra face da lua.







Há ainda muito caminho a percorrer, já se sabe. Este é um caso onde o preconceito ignora o Direito das Crianças.


Cereja

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bom senso ou mesquinhez

Este fim-de-semana, li na Revista do Expresso, num apontamento chamado "Oito da Manhã", esta frase de Eduardo Barroso «Ainda me dá prazer operar. Embora a minha grande responsabilidade hoje seja garantir que com a minha retirada tudo continue a funcionar normalmente e, se possível, com melhores resultados. Atrás de mim virá quem melhor fará»
Tão natural este pensamento que nem mereceria referência. Simples Bom Senso. Uma pessoa que prevê retirar-se, se for conscienciosa, facilita a sua futura substituição. Lógico (?)
Mas a frase bateu forte numa das minhas piores recordações.
....................

Embora actualmente o problema assuma umas proporções inimagináveis uma vez que o Estado não admite quase ninguém para substituir quem se reforma, já há bastantes anos que se fazia sentir essa situação. Acontece que quando, olhando para os meus anos de trabalho e para a minha idade, conclui que já podia pedir a reforma meti toda a papelada necessária para a 'contagem-de-tempo-de-serviço' e tive o cuidado de de informar a minha chefe hierárquica de que o tinha feito. A resposta foi muito distraída, talvez um «ah, sim?» sem mais conversa. Eu sabia que estas burocracias são demoradas, mas tive o cuidado de, passado algum tempo, insistir «Dra ***** já pensou quem me pode substituir quando eu sair? Eu podia ir tirando algumas dúvidas...» mas ela mudou de assunto. Uns meses mais tarde voltei a insistir na conveniência de, mesmo parcialmente, alguém ficar por dentro do meu trabalho, mas ela mostrou-se enfadada com o assunto - tinha outras coisas em que pensar...

Um ano depois, recebi uma carta do Serviço de Pessoal informando que eu passaria à reforma no final da semana - e até com bastante tempo a mais do que o necessário! Por boa educação, bati à porta da minha chefe e declarei «Dra ***** como já deve estar à espera - disse com um sorriso - recebi o meu papel da reforma, já não venho para a semana». A mulher, desta vez ouviu e deu um berro «O quêêê?! Nem pense! Não lhe dou a reforma!» Eu nem acreditava no que estava a ouvir. Não me dava??? Ela? Mas 'dava' o quê? Voltei a explicar que o processo estava concluído, quem me pagaria agora era a CGA, eu já não estaria ao serviço na segunda-feira. «Não posso! Não deixo! Então quem vai fazer o seu trabalho?!» Sentia-me num filme, perante uma pessoa louca. Assustada, relembrei «Eu ando a chamar a sua atenção desde há um ano! Não se recorda as vezes que insisti para me deixar preparar alguém para continuar o meu trabalho?»

Até aqui, parecia uma conversa de surdos, ou com uma pessoa completamente desmemoriada. Mas a resposta, de gafanhotos a saltar, profundamente ofensiva, uma verdadeira bofetada, deixou-me estarrecida e a conter lágrimas: «Mas o que é que queria? Ganhar o ordenado e ter uma pessoa que fizesse o seu trabalho?!» Respirei fundo: «Não, Dra *****, queria alguém a quem preparasse e continuasse agora o meu trabalho. Mas hoje já não me preocupo com isso. Felizmente»

Concluindo, como adivinham, dois dias depois saí com abraços e beijinhos de toda a gente e um grande almoço de despedida, mas nem voltei a bater à porta da parva. A mesquinhez do insulto feriu-me muito fundo, a mim que pensava antes de mais no serviço.
Que, como adivinham, acabou. Com a minha reforma feneceu de morte natural...

R.I.P.




Cereja

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"A bolsa ou a vida"

A agiotagem era, nos tempos medievais, um pecado. A personagem de Shylock, símbolo do prestamista, teve de ser representada por um judeu - não poderia ser um cristão nessa época. Aliás nesses tempos, se as dívidas tinham de ser pagas como é evidente e até se aplicava a pena de prisão a quem as não pagasse, (creio que actualmente a constituição não permite a prisão por dívidas) na altura do pagamento pagava-se o seu juro que era uma percentagem da quantia que se devia.
Isso era dantes.

Actualmente os Serviços das Finanças, ou melhor a Autoridade Tributária e Aduaneira quando há um atraso no pagamento de uma quantia, exige muitas vezes o pagamento de um juro (?) de 100, 200 ou 300 por cento da quantia que se deve. Hoje na Antena 1, no programa Antena Aberta, o tema foi «as multas no pagamento das portagens» e, já que a antena estava aberta, alguns participantes aproveitaram para falar também no pagamento da taxa do IUC em caso de atraso, mesmo que não tivessem conhecimento desse tal atraso. Impressionante.

Tenho a 'sorte' (?) de até hoje não ter sido apanhada por nenhuma destas situações mas tenho amigos pescados por estas redes de arrasto e tenho percebido como a coisa funciona. As histórias que ouvi esta manhã eram exactamente iguais às que tenho ouvido por todo o lado. Como é possível?! Um país que «inventou» a via verde, ideia excelente e muito prática, como é que depois implementa um sistema super-burocrático de pagamentos que implica idas aos correios e perdas de horas de trabalho??? Como é que quem passa numa portagem e não reparou ou se distraiu não recebe um aviso com brevidade de modo a acertar esse débito, mas sim meses e meses depois com multas já inflacionadas de um modo alucinante?! A portagem era de 1 € ou 1,5 € e vai ter de pagar 60 €? ...explicando o funcionário quando se vai tentar perceber a acusação, que tem de pagar primeiro, para poder protestar.

Isto nas portagens. O famoso IUC também: o comprador do carro não o registou nas Finanças, o carro foi roubado, teve um acidente e foi para a sucata? Não interessa nada! O primeiro registo é que interessa e a boa fé do cidadão não impede que as coimas agravadas sejam do valor do próprio carro...

Pois é. As Leis das Finanças não foram concebidas por pessoas de bem. Contra um ladrão podemos fazer queixa na esquadra, mas a quem nos queixamos quando é a própria lei...?


Cereja


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uns dias depois....


O último post que aqui escrevi, semana passada, foi-o ainda sob a enorme emoção dos atentados de Paris, executados nesse mesmo dia. Escrito muito a quente, e como as vítimas tinham sido atacadas pelas suas ideias que eram transmitidas por desenhos/caricaturas, optei por também não escrever nada e usar apenas imagens de desenhos.

Mas depois aparentemente o cavalo da «informação» que se desejava desejaria rigorosa e sóbria, tomou o freio nos dentes e desatou a galopar extravasando muito do que inicialmente se previa. E o balão das personagens que se sentiam solidárias foi aumentando de volume de um modo alucinante. A frase com muito impacto que se inventou logo a seguir, quando o sangue ainda não tinha secado: "Je suis  Charlie", foi apanhada pelas redes sociais e tornou-se uma bandeira que todos os quadrantes empunhavam. E isso tornou-se uma surpresa sujeita a piadas trocistas. Os grandes nomes do poder europeu dificilmente poderiam pensar que também-eram-Charly uma vez que eles eram o seu exacto oposto!!! A frase foi completa e totalmente desvirtuada, e tornou-se um negócio, imagine-se o absurdo!
Este boneco que deixo a seguir, assinado R. Dutreix, é fabuloso na minha opinião, porque muito verdadeiro - as honras que lhes foram oferecidas depois da carnificina, deixá-los-ia estupefactos, e mesmo muito desconfiados... Ou a rir à gargalhada por não acreditarem.

E realmente era completamente inacreditável....





quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Em choque

Acabar com a liberdade de pensamento e de expressão, à bala?!
Sem palavras, apenas com imagens que a minha raiva encontrou:












Cereja

domingo, 4 de janeiro de 2015

Cortesia Boa Educação Social


A água é talvez demasiado mole e a pedra excessivamente dura, mas não consigo desistir de insistir no mesmo. Há regras sociais da chamada 'boa educação' que parecem desvanecer-se mas isso incomoda-me. A mim e a muito mais gente por aquilo que observo.
Encontramos constantemente pessoas grosseiras, que falam desabridamente, ignoram os outros, não respeitam regras sociais comuns, incomodam, provocam conflitos ou pelo menos causam mau estar.
Não se pode fazer nada quase nada contra isso a não ser evitar o seu convívio.
Mas quando se vê que a semente de um futuro adulto já está contaminada por essas atitudes, é ainda tempo de fazer alguma coisa. Porque é quando se é criança que certos comportamentos se enraízam.
Vemos cada vez mais meninos que entram numa sala como pequenos furacões, sem cumprimentar quem lá está, quase que sem «verem» onde estão e por quem passam. Costumam gritar «dá-me aquilo!» como uma ordem. Ignoram os outros, sejam da sua idade sejam adultos. Não estão habituados a dizer «obrigado» nem entendem esse uso. Não participam na vida doméstica e ninguém lhes chama a atenção para tal. Desarrumam sem arrumar. Estragam e desperdiçam sem que tal lhes faça a menor mossa.
OK, muitos adultos também. Infelizmente.

Mas quanto às crianças (já quanto aos adolescentes a coisa é muito mais difícil!) por favor, ensinemos-lhes algumas regras básicas!!!
Encontrei nas redes sociais um texto, escrito em brasileiro, muito interessante. Corrigi apenas meia dúzia de palavras para «português» e deixo-o aqui porque me parece que enuncia o que de mais importante se pode ensinar.


Que tal imprimir e colar atrás da porta do quarto deles...?



Regras básicas de convivência

1 - Chegou? Cumprimente.

2 - Já vai? Despeça-se.

3 - Recebeu um favor? Agradeça.

4 - Prometeu? Cumpra.

5 - Ofendeu? Desculpe-se.

6 - Não entendeu? Pergunte.

7 - Tem? Compartilhe.

8 - Não tem? Não inveje.

9 - Sujou? Limpe.

10 - Não gosta? Respeite.

11 - Gosta? Demonstre.

12 - Não vai ajudar? Não atrapalhe.

13 - Partiu? Concerte.

14 - Pediu emprestado? Devolva.

15 - Falaram consigo? Responda.

16 - Acendeu? Apague.

17 - Abriu? Feche.

18 - Comprou? Pague.



(Nota - sabemos todos que o obrigado, faz-favor, bom-dia, com-licença, são apenas fórmulas, pode ser uma casca oca; o que achei interessante nestas perguntas aqui em cima, foi o enquadramento, uma espécie de 'explicação' para o facto de as dizermos; é importante que desde pequenino se perceba que vivemos em sociedade)

Cereja

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ping-pong macabro


E assim vai a nossa Saúde!
Em relação às notícias de que vou falar tinha começado por pensar no leito de Procusto como imagem, porque tinha ideia de que ele propunha cortar os pés ou a cabeça para ajustar as pessoas à famosa cama. Afinal enganei-me na história e portanto o mais adequado ao que quero dizer é uma velhíssima piada, a do «Ó Zé, compõe-te!» (ver em baixo) , quando com o mesmo tecido insuficiente se quer cobrir duas realidades - se funciona de um lado deixa de funcionar no outro.
A resposta do nosso SNS, sendo boa é insuficiente. Já o sabemos há muito. Uma pessoa «normal» recorre a uma urgência por uma situação que para si é urgente. Está aflito, ansioso, com dores, e qualquer espera já é difícil de suportar. Mas aceita essa espera por ver outros doentes com situações aparentemente mais graves... 
De um modo geral a primeira ideia que se deve ter é recorrer a um Centro de Saúde mas como aí as respostas também são muito lentas e muitas vezes não as há adequadas acabam numa "urgência".
Ou seja, muitas pessoas, como está provado, vão às urgências por não terem resposta no centro de saúde.
É mau.
Claro que deviam ter a resposta certa no local certo, mas defendem-se assim e sei de técnicos de Centros de Saúde que também aconselham a procurar uma urgência...
O pior é quando as Urgências colapsam! Quando a resposta que devia ser 'urgente' implica esperar horas e horas e horas.
Ah é?!

Se a fralda da camisa tapa à frente, destapa atrás. Se tapa atrás destapa à frente!!!
Por favor, aumentem o pano da camisa. Não façam uma pessoa que se sente mal e doente, andar de Herodes para Pilatos à procura de quem o socorra. É desumano, é cruel, é chocante. Nem é preciso chegar ao extremo de alguém morrer na maca horas depois de ter entrado na urgência, mesmo casos mais leves merecem atenção e respeito. Só isso.





* (a mulher, na sala com uma visita, vê entrar o marido vestido com com uma camisa curta que lhe mostra o rabo e grita «Ó Zé, compõe-te» ao que ele obedece inclinando-se para trás, e mostrando as-jóias-de-família, ouvindo de novo «Ó Zé compõe-te!» e inclinando-se volta a mostrar o rabo...) 

Cereja


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Acusação / defesa têm de andar juntas

Não é a primeira vez que desabafo por aqui sobre o perigo que é escrever na net sobre o-que-pensamos-ser-um-facto e o cuidado com a forma como o redigimos. Porque enquanto um artigo de jornal, segundo a lei da imprensa, pode ser rectificado ou desmentido com um destaque semelhante num número posterior, na net as ondas provocadas por uma informação incorrecta, não voltam atrás. 


Li ontem, no facebook, esta frasehistória de um sem-abrigo português que está a chocar o país e já o título chamava a atenção - «sem-abrigo português», porquê português?! Li-a, e estranhei a foto porque me parecia falta de respeito pela privacidade do identificado. Contava que o homem tinha entrado num café, encomendando uma sanduíche mista e um galão e lhe tinham dito «e dinheiro?» e depois o tinham mandado esperar na rua. Era de arrepiar, e os comentários que acompanhavam a 'reportagem' linchavam verbalmente esse café, exigindo saber o seu nome para o denunciar. Mas alguma coisa me chamou a atenção, porque a foto do homem em questão lembrava-me alguém que eu conhecia, e além disso a porta que se via era de uma pastelaria, em frente do meu prédio, casa que eu conheço há dezenas de anos!


Dei-me então ao trabalho de procurar outros dados. E, com dificuldade, encontrei a versão da acusada que não negando os factos os explica. Este é um bairro um tanto familiar, o sem-abrigo que o não é, é sim um doente mental que toda a comunidade conhece pelos seus gritos «à godzilla» e um rádio que transporta tocando no volume máximo. Não faz mal a ninguém, embora possa ser um tanto aborrecido. A pastelaria em causa protege-o um pouco, mas acredito que em hora de ponta como são as 8:30 da manhã desta história, não se lhe preste muita atenção. E, a famosa rua, imagem que choca por parecer que ele é tratado como um cão, é o passeio com alcatifa sintética e uma mesa, coisa que nem há no interior, onde só há um balcão.

Ou seja, a acção de grande desumanidade - que já chegou à Alemanha, com 50 mil partilhas e publicidade negativa - é um excesso de familiaridade de uma pessoa que conhece outra há 20 anos e utilizou, mal é certo, o tom protector/autoritário que os mais impacientes usam com os doentes mentais. Foi errado sim, mas merecia esta crucificação?
Porque as cinquenta e tal mil pessoas que difundiram a história não vão conhecer nunca o outro lado. E é essa injustiça que a net permite. Não há o contraditório, como os jornais devem fazer.


Ah...? ! Não fazem?


Cereja

sábado, 13 de dezembro de 2014

Espanto e indignação


Vi o caso numa referência na net e fiquei tão chocada como as dezenas de pessoas que lá deixaram comentários. A história é, elevada ao cubo, a concretização da frase infeliz da senhora da família que anda agora na berlinda, que gostava de ir acampar para Comporta porque era como «brincar aos pobrezinhos».
Neste caso, um hotel de luxo, na África do Sul, oferece aos seus clientes «mais extravagantes» segundo lá diz,  a recriação de uma favela  para terem a experiência autêntica de viver numa favela!!! Claro que apesar de ser feita com os mesmos materiais, tem aquecimento debaixo do chão e acesso à net! E deve estar bem limpa, nem ratos nem bicharada, calcula-se.




Se o Hotel oferece este serviço é porque existe quem o queira.
Afinal para ser mesmo, mesmo autêntico, era bem mais fácil, uma simples troca, eles iam habitar o local tal como estava e a família que residisse naquela casa (?) passava os mesmos dias no Hotel, na suite que a que eles teriam direito. Um pouco mais realista.
E mesmo assim, nunca seria nada de aproximado, porque sabiam que era uma experiência, que quando acabasse tudo voltava ao normal.
Na mesma linha, quando um dos muitos idiotas paternalmente aconselham como se deve viver com salários mínimos, tenho eles todos os meses 10 vezes mais, há quem diga que seria bom obrigá-los a vivenciar a experiência de subsistir um mês com aquela verba. Claro que lhes podia dar uma ideia, mas era sempre falso, porque sabiam que no fim daquele mês - ou ano que fosse! - aquilo acabava e os seus recursos habituais estavam lá. Psicologicamente é outra coisa. O factor mais pesado, a angústia do futuro, não existia. Será que percebem isto?!
Mas esta estupidez do bairro da lata, é de arrepiar, isso é. 


Cereja