segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Avesso e direito, prós e contras, a bela e o senão...

Há coisas que têm podem ter duas leituras, quase contraditórias. Vendo primeiro por um lado a nossa opinião até é uma, mas... por um ângulo diferente se calhar a opinião já é a oposta. Ai, ai, ai, a coerência... :(
Desde há uns anos que, paulatinamente, se nota que a gestão de muitas empresas vai implementando o uso do self-service, ou seja os seus clientes servem-se a si mesmos sem o notar. 
Se bem se lembram antigamente os eléctricos e autocarros tinham dois empregados em cada veículo. O condutor, guarda-freio dizia-se, e o "pica-bilhetes" que circulava no carro vendendo os bilhetes. Hoje basta uma pessoa, porque o cliente mostra o bilhete a uma máquina que o regista, e é porque ainda não se lembraram que o último cliente a entrar conduzisse o carro até à paragem seguinte que aí poupavam logo mais um salário.
Antes do advento dos multi-bancos, quem precisava de levantar ou depositar dinheiro, pagar contas, depositar cheques, tinha de ir a uma agência, a um balcão do seu Banco. Hoje essas funções fazem-se 24 horas por dia nos milhares de máquinas espalhadas por esse país.
Quando eu era nova, para comprar qualquer produto que precisasse teria de ser atendida numa loja por um caixeiro que o iria buscar ao interior, pesava, media, embrulhava e recebia o pagamento. Hoje escolhemos directamente o que desejamos, que está marcado com o preço e embalado, e o único contacto é com quem está na caixa para receber o pagamento.
A primeira parte destas observações é o "direito", ou o "pró", ou a "bela", o politicamente correcto no verdadeiro sentido da palavra,  e a segunda parte será o "avesso", o "contra", o "senão". Porque, temos de o reconhecer, para o utente apressado o que se faz hoje é muito mais prático e rápido! Note-se que eu até gosto de 'fazer-conversa' e no meu bairro muitas vezes vou ao lugar da esquina em vez do Pingo Doce, por esse belo aspecto humano!
Mas...
As chamadas "compras do mês", as que faço só uma vez por mês de mercearias, drogaria, leites, vinhos, congelados, faço num hiper que depois me envia tudo a casa. Neste hiper onde vou (se calhar nos outros também...) , são os clientes que pesam os produtos depois de os meter nos sacos. Cada produto avulso tem um número, na balança carregamos nas teclas com essa indicação e sai uma etiqueta com código de barras. O que quer dizer que a única intervenção sem ser minha é na caixa onde a operadora passa os produtos e dá a factura.
Hoje experimentei um processo, que ando há uns tempos para fazer,  onde até isso é ultrapassado! Os clientes podem usar um leitor de código de barras portátil. Na passagem da prateleira, ou da balança, para o carrinho de compras o código era lido e registado. Quando as compras estavam feitas e o carro cheiínho, foi só chegar ao pé de uma menina com o tal aparelho e o meu cartão, dar a minha morada, e vir-me embora!!!
Menos de uma hora e só preciso de repetir a operação para o mês que vem!
Eu sei, eu sei, pode ser politicamente incorrecto mas é muito prático! Estou aqui repimpada a ler um livro e todas as compras feitas.
Aaaaaah.....


Cereja

sábado, 4 de janeiro de 2014

Insiste, insiste....

Lembro-me de uma famosa cena cómica de um antigo filme português, O Pai Tirano, onde um casal velhote antes de assistir a um espectáculo vai ao bar do teatro e ela pede "dois pastelinhos de camarão" . O empregado responde-lhes que pastelinhos de camarão não tem, e então  olham um para o outro e em alternativa lá bebem dois copinhos de vinho branco, repetindo de seguida o pedido com croquetes,  com rissóis, e como não há nada disso continuam a beber os tais copinhos de vinho branco  ....
É uma cena que ficou na nossa memória.
Lembro-me disto pelas opções que os economistas do governo vêm escolhendo sobre o modo como querem aumentar as receitas. Lembraram-se de cortar nas despesas, o que é uma opção embora se saiba que não é a única. Mas as despesas que eles querem cortar são sempre as mesmas, as referentes às reformas e a salários de quem trabalha para si. Da primeira vez explicaram-lhe que isso é descriminar trabalhadores, e portanto é ilegal, a Constituição não permite.
- Ah é? Então vamos cortar só parte do que ganham.
- Não, é o mesmo, estão a descriminar.
- Oh! Então vamos cortar parte das pensões.
- Não, continua a ser ilegal.
- Então vamos cortar os subsídios.
- Não! É o mesmo.
E, como o casal dos velhotes do filme, (embora nessa história antiga ela procurasse um pretexto para se embriagar...) vão sugerindo variações do mesmo tema que só pode ter uma resposta.
E a "culpa" é do empregado que não lhes serve os pastelinhos de bacalhau/croquetes/rissóis/pataniscas etc, porque se assim fosse já não pediam os copinhos de vinho branco!
Fico aqui a pensar quando oiço que um importante deputado considera que  o Tribunal é um problema... 
Ah, pois é! E o caixa do Banco que nos recusa um cheque de um valor superior ao nosso saldo. E o porteiro do cinema que exige que tenhamos bilhete para entrar. E o polícia de trânsito que apita se passamos com um sinal vermelho. São cá cada problema, com a mania que se devem cumprir as as regras e as leis.
Que grandes chatos!


 
Cereja

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Banalização das palavras

Comecei-me agora a rir quando o meu filho me contou uma conversa com uma amiga que, muito irritada porque um colega tinha conseguido alterar uma regra particular numa situação particular, tinha afirmado "isso é altamente anticonstitucional". Não vale a pena explicar em pormenor do que se tratava, basta dizer que um ex-colega quis frequentar de novo um curso que já tinha acabado - curso privadíssimo de 2 noites por semana - e (imagine-se!) o professor concordou. Valham-me todos os deuses do Olimpo, até no ensino 'a sério' lembro-me que se podia repetir cadeiras para melhoria de nota, não é?
Portanto a minha primeira reacção foi se surpresa, pelo comentário da colega, e de risota.
Depois lá opinei: "Ela devia querer dizer ilegal, com certeza, mas olha que é uma parvoíce. Porquê?! Se fosse ao contrário, ter um diploma sem passar por lá ( estou-me a lembrar do Relvas...) ainda poderia ser ilegal, mas repetir o que já se fez não entendo que maldade seja essa..."
Mas depois fiquei aqui a remoer.
Esta conversa foi engraçada, mas não foi a primeira vez que ouvi dizer "constitucional" como sinónimo de "legal".
É um fenómeno recente entre nós. Todos os Estados têm Constituições mas raramente se fala delas. Lá nos EUA de facto de vez em quando há realmente referências às "emendas" da Constituição mas, na maioria dos países, não noto que se fale da Constituição no dia-a-dia... Como em Portugal nos últimos anos tem havido muitas propostas que contrariam princípios constitucionais (da nossa e de muitas outras!) começou-se a falar muito da Constituição e do que é ou não constitucional.
E o termo banalizou-se.
Imenso!
Se bem que dê para pensar: partindo do princípio da igualdade dos cidadãos vai-se permitir que aquele aluno volte para aprofundar os conhecimentos? Mas, ainda segundo esse princípio, os outros também o podem fazer, ou não? Para mim a igualdade é que todos possam gozar os mesmos benefícios se quiserem, e não que ninguém possa.
Já agora era interessante que se conhecesse de facto a nossa Constituição e não se andasse a  repetir o que por aí se diz, tantas vezes erradamente.


 (versão mais rápida e simplificada)
Cereja


domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma mulher maravilhosa

Coincidências.
Na minha mais recente crise de arrumação enérgica, entre diversas coisas que mudei de lugar estava uma moldura com uma foto - muito boa! - da minha avó. Uma das minhas duas avós, que tive duas como todos nós e felizmente convivi e lembro-me muito bem das duas, mulheres muito diferentes. Mas é àquela de quem mais gostava e com quem mais convivi que me quero referir.
Do local onde escolhi para a foto ficar agora vejo-a quer ao deitar quer ao acordar e foi uma bela ideia, porque ver a sua expressão aquece-me por dentro e dá-me força. Ela foi uma mulher excepcional de quem por mais que me queira distanciar não consigo encontrar defeitos, não se aplica a frase "era assim, mas". Não havia mas. Carinhosa, inteligente, activa, decidida, culta, generosa, alegre, bonita, compreensiva. E não apenas comigo que fui a única neta durante muitos anos, ela era assim com todos. Juntava a bondade (ná, não era boazinha, era boa, generosa) com a inteligência.
A coincidência que me levou a escrever isto é que neste Natal jantámos em casa de uma amiga e vieram à baila recordações, como acontece muito nestas quadras. Perante o olhar admiradíssimo do meu filho, a minha amiga A**** desfiou cenas atrás de cenas da história da sua família, muito tradicional e conservadora, e sobretudo contou atitudes inacreditáveis do seu pai profundamente autoritário. Era um tempo em que uma menina não podia fazer isto e aquilo por ser menina, ou tinha de fazer assim e assado exactamente por ser menina... Rebelde como ela era a sua adolescência foi uma batalha campal!!!
E o seu destino estava traçado pelo pai. Lá pôde estudar, mas na Faculdade de Letras que sempre eram estudos femininos, e tinha uma arca cheia com o enxoval que levaria junto ao dote quando casasse com o rapaz que a família aprovasse,  cujo lar ela iria gerir com tudo o que tinha aprendido das "ciências domésticas", e a quem daria uns bebés de quem já tinha aprendido a cuidar com aulas de puericultura... (não estou a inventar nada, ela contou isto mesmo assim, juro!)
Mas onde entra a coincidência sobre a foto para onde estou agora a olhar, é que às tantas ela diz-me:
- A tua avó era fabulosa!!! Sabes que nunca mais esqueci, quando a conheci e falámos do nosso futuro, em relação a estudos, casamentos, coisas dessas, ela, com aquele arzinho dela, sorriu e disse-me "Para a minha neta, eu quero é que ela seja feliz. Como ela quiser, que faça aquilo que a fizer feliz"
Eu já não recordava tal conversa mas minha amiga não esqueceu, dezenas e dezenas de anos mais tarde, o invulgar respeito da atitude da minha avó. Ela não impunha modelo nenhum, mesmo que pensasse que seria o modelo ideal. Sabia que o ideal dela talvez não o fosse para os outros, e desejava que eu realizasse o meu futuro como eu gostava.
Ela era assim.
Mas o que eu mais gostava era de ter conseguido ser como ela!!!




Cereja

domingo, 22 de dezembro de 2013

A festa de Natal

Chegada esta altura do ano erguem-se dois grandes grupos em confronto: os que questionam toda-esta-palermice-das-festas-obrigatórias-e-consumistas e os que se integram num movimento geral, e espalhado por todo o mundo, de celebrar estas datas.
Compreendendo a posição dos primeiros, integro-me nos segundos. Não quer dizer que vá sinceramente festejar o nascimento de um chefe de uma religião, uma vez que não tenho um pingo de sentimento religioso, assim como o equinócio não me diz lá muito... Mas sinto que as sociedades humanas têm de  devem ter momentos de festa colectiva e esta data assim como o fim-do-ano são as mais fáceis de 'colectivizar'
Por outro lado há as recordações de infância. Pelo meu lado são muito doces e com imenso afecto e ternura. Os meus "natais passados" só me trazem boas recordações, a família no que tinha de melhor. E não, não recordo especialmente as prendas, coisa que nunca foi primária lá em casa nem recordo que se fizessem muitas compras nessa altura, o importante para mim era o ambiente de festa, a casa enfeitada, a mesa onde nos reuníamos todos, os doces típicos, primos que vinham de longe, e uma grande animação. Até me deitava mais tarde e tudo! E recordo os cheiros, os risos, os sabores, as cores, a casa muito mais agitada e alegre. Era Natal!
Com o uso do alargamento de presentes para além das crianças e adultos da família mais próxima - como era nesse tempo -  à família mais afastada, a amigos, filhos de amigos, colegas, etc, nasceu uma onda de gastos e preocupações que transformou o espírito que eu gostava. Tornou-se uma obrigação, um frete... Oiço pessoas a lamentar-se do tempo e dinheiro que gastam nesse ritual que perdeu o sentido original. E, aí, já entendo a embirração do tal grupo que detesta esta época do ano, e que  se vai alargando a olhos vistos ( três das minhas amigas que aceitavam calmamente esta época passaram para o grupo "anti" com um radicalismo que me surpreendeu). E um efeitos positivo da crise económica (?!) talvez tenha sido o reduzir esse círculo das "prendas obrigatórias" socialmente para o que seria normal, apenas a família próxima!
Mas quanto à Festa de Natal, eu cá gosto dela.
Gosto de fazer os doces tradicionais.
Gosto de enfeitar a casa.
Gosto das luzes, das cores, dos cheiros, da música, da animação.
.... e daqui a uns dias acaba tudo e só nos fica a recordação.
E gosto de recordar, mesmo que sejam imagens de velhos cromos.




gifs e recados animados - animakut.com



Cerejas

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Querido, arrumei a casa!"

Tenho um defeito uma característica: gosto de coisas arrumadas. Ná, não chega ainda a ser obsessão. Um pouquinho de desarrumação à vista não me perturba nada e até dá um ar cosy e confortável ao ambiente. Mesmo um quarto de hotel, quando o habito, gosto de lhe dar um aspecto um pouco desarrumado para parecer 'habitado'. Mas...
Abrir uma gaveta ou um armário e encontrar tudo amontoado de qualquer maneira, olhar para uma mesa ou um sofá e ver jornais, roupa, medicamentos, chávenas e copos usados, cds, carregador de telemóvel, canetas, tudo ao monte deixa-me muito desconfortável! Já passei pela vergonha de dar comigo, distraidamente, a fazer montinhos pondo as coisas numa certa ordem, na mesa do centro em casa de amigos!
Mas, a razão de estar a escrever isto, é que na minha casa de vez em quando dá-me um vaipe (este fim-de-semana por exemplo) e dá-me para despejar algumas cómodas ou armários e arrumar tudo melhor!!! E querem saber? Fica mesmo melhor! Porque como ela é pequena, se as coisas ficarem bem empilhadas, ou umas dentro das outras, ganha-se espaço e "espaço é ouro" nestes casos. Claro que para isso resultar melhor convém reconhecer que as coisas que se foram guardando porque-podem-vir-a-servir não vão servir mais e dar-lhe outro destino. Recordo uma vez onde uma amiga se queixava de não ter dispensa. Como a cozinha dela era maior do que a minha não percebi porque lhe fazia tanta falta a dispensa e fomos ver como ela tinha gerido o espaço, e descobri que um armário inteiro estava ocupado com caixas de plástico. Despejando aquilo, guardando apenas as que tinham tampa a condizer, e encaixando as pequenas dentro das grandes ela de repente ganhou 3/4 desse armário que já chegou para arrumar as mercearias todas!
E também se torna mais fácil e rápido ir buscar seja o que for porque sabemos exactamente onde está. Uma vida mais descomplicada...
Ando agora a pensar se não poderia oferecer os meus serviços às pessoas que não têm tempo e paciência para arrumar seja o que for. Na linha do "Querido, mudei a casa!"
Podia chamar-lhe "Querido, arrumei a casa!" e se calhar ia ter saída.


Cereja



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Acho-lhes uma graça!

A porcaria do estado a que já chegámos, economicamente falando, faz com que se tornem gritantes as dificuldades de quem tem ainda menos do que nós, e parte-se-nos o coração ver a miséria que por aí anda. E, é claro, que cada um à sua maneira vai ajudando no que pode e conforme pode (às vezes até nem se nota, porque pode ser simplesmente não diminuir as horas da mulher-a-dias mesmo que  o nosso salário a nossa reforma tenha baixado bastante)
Mas toda a gente sabe o que fazer se quiser ajudar. Não acredito que seja quem for fique embaraçado ao desejar dar seja o que for por não-saber-como-fazer! Por isso me irritam um pouco as campanhas que aparecem por todo o lado a proporem generosamente "canalizarem" os nossos donativos. Isso é geral, é internacional, viajei de avião na semana do tufão nas Filipinas e às tantas fomos informados que iria passar pelo corredor um dos assistentes de voo com um saco para deixarmos lá ficar o dinheiro que nós quiséssemos dar para eles enviarem para lá!
E agora é por todo o lado. Uma cadeia de supermercados que pergunta se "queremos arredondar" quando chegamos à caixa, e esse "arredondamento" é para eles oferecerem às pessoas que precisam. O metro - e os outros transportes creio eu - propõem agora recolher roupas e alimentos que os utentes queiram deixar ficar para eles os enviarem a necessitados.  Para não falar no famoso Banco Alimentar que periodicamente nos apanha à saída dos supermercados e nos faz sentir envergonhados se, para além dos produtos de que necessitamos, não pagamos mais um quilo de arroz, uma lata de salsichas e uma garrafa de azeite aumentando as vendas e o lucro desses supermercados. 
E por aí fóra. 
A proposta é: "dê-me a mim que eu dou aos outros".
Uma espécie de grandes empresas distribuidoras de caridade.

Mas por alma de quem?! 

Cereja

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O elogio da paciência





Acabo de ler um anúncio - um daqueles anúncios "tapa-texto" que gostemos ou não temos de suportar se quisermos ler um jornal on line... -  que oferece: "Para os que não aguentam esperar" etc, etc.
Se a publicidade, que sabe muito bem o que faz, escolhe um texto onde apela a "quem não aguenta esperar", é porque vai tocar numa corda importante. (recordo-me de outro anúncio, há alguns anos, que dizia "Querer é Ter", era de um Banco, claro!) É porque há uma enorme percentagem de consumidores que reconhecem que "não-aguentam-esperar". Pois há!
As pessoas que andam à volta das questões da psicologia sabem que "a satisfação do prazer imediato" é, ou pode ser, mau. Desejar seja o que for, e obtê-la de imediato, dá gosto é verdade, mas um "gosto pequenino", que se desfaz num ápice como o algodão-doce com que nos lambuzávamos na nossa infância. E que cria um hábito ou uma expectativa que vai contaminar os outros desejos, cada vez mais se vai querer que diminua o tempo entre o 'querer' e o 'ter'! E a frustração cresce a um ritmo alucinante... Quantas vezes ouvimos "se não é para agora também não quero!" na queixa de uma criança ou na resmungadela de adulto...?
A frase daquele anúncio deixou-me a pensar porque ainda este fim-de-semana eu e uns amigos falámos da galopante incapacidade de esperar que a nossa sociedade anda a promover, e como isso ataca a educação das crianças assim como a capacidade de resistência à frustração. A necessidade de ter "tudo e já!" que agora parece estar a ter uma quebra graças (?) à crise económica.
Que me perdoem a heresia, mas esse aspecto é o único que vejo como "fogo amigo" do pesadelo desta crise - o reaprender-se a valorizar a espera, assim como aproveitar-se tudo como faziam os nossos pais.
Quando se deseja alguma coisa, o 'tempo de espera' entre a ideia nos ter ocorrido e a sua concretização é um tempo privilegiado. É o sonho. Desejo um brinquedo e imagino como vai ser, o que vou sentir quando o tiver nas mãos, como vou brincar com ele, saboreio tudo na minha imaginação. Gostava de fazer uma viagem, e penso que transporte é possível, onde vou ficar, o que vou ver, que tempo fará, planeio-a... Preciso de um móvel para casa, e vejo em várias lojas, imagino onde o vou pôr, talvez até mude o local dos outros, sonho com isso.
Essa emoção intermediária entre o desejo e a sua concretização, o saborear antecipadamente o prazer, é excelente. Nem todos o vivemos do mesmo modo, e as crianças devem ser ensinadas a aprender o gosto disso, mas acreditem que vale a pena.
E os pais que ingenuamente oferecem de imediato aquilo que os filhos pedem sem os ensinar a esperar, sem lhes mostrar como é bom ter paciência, não entenderam que lhes estão a roubar um importante direito - o direito ao sonho!

Cereja




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Até sempre!

Por todo o Mundo, toda a comunicação social, todas as redes sociais, toda a gente em suma, fala hoje de Nelson Mandela. Finalmente uma maravilhosa unanimidade num tema positivo - uma vida que marcou a diferença no mundo.
Este Homem veio mostrar que afinal o que se julgaria um sonho é possível.
O Luther King teve um também, e muito lutou por ele mas não chegou a vê-lo realizar-se.
Mandela também lutou imenso, e ele sim, conseguiu viver até ver o seu sonho.
......................
Nos anos 50 vivi em Moçambique. Ali, paredes meias com a África do Sul. Assisti ao violento racismo dos afrikanders. Nojento, revoltante. Quando à saída do comboio já se era seleccionado, nós devíamos  passar por uma porta que dizia "white" e todos os outros pela que dizia "non white". E essa porta de entrada nesse mundo de profunda segregação era também simbólica, entrava-se num inferno onde a mistura era proibida e punida. E a arrogância era tal que se varria para o mesmo monte tudo o que não fosse branco, com 4 avós brancos. Negro, indiano, chinês, e todos os possíveis cruzamentos, iam para a mesma porta.
O que depois queria dizer para um mundo diferente.Transportes diferentes, escolas diferentes, cinemas diferentes, jardins diferentes, bairros diferentes (claro!!!) hospitais diferentes, lojas diferentes. Bom, escuso de dizer que a diferença era para pior, claro!
Nesses anos, era muito nova mas acreditava no que ouvia os meus pais dizerem: um dia aquele sistema vai rebentar e num banho de sangue. Era o corolário óbvio: impossível viver-se tanto tempo debaixo de um tal desprezo sem que a tampa da raiva salte com enorme violência.
E afinal os milagres acontecem.
A força e o carisma deste homem conseguiram-no. 
Madiba, o líder incontestável com a sua grande força, aguentou aquela gente e o país renasceu.
Merece tudo o que dizem dele.
Merece o respeito e admiração de todo o Mundo.
Como escreveu um amigo no facebook:
 "Adeus Madiba, até um dia destes!"


Cereja

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Brinquedos

Tenho andado a coleccionar os antigos "Jogos Majora", que o Correio da Manhã num momento de inspiração decidiu publicar. Talvez seja saudosismo, mas aqueles jogos de tabuleiro têm o condão de me reconduzir à infância de um modo mágico. São duas coisas que me avivam a memória de um modo fantástico: os cheiros e os brinquedos.
Quando era criança havia muitíssimo menos brinquedos pré-fabricados. Menos?! Que parva! Hoje há, podemos dizer, brinquedos-que-se-compram, mas quando eu era pequenita não. A boneca vinha da loja mas todos os seus vestidos e adereços eram feitos em casa. Davam-me uma ou duas panelinhas, mas o fogão era feito com umas caixas, o jantarinho  umas ervas que descobria no quintal, a toalha da mesa um lenço. Brincava às escolas sentando as bonecas no chão, e apanhando folhas de papel já usado para fazer de caderno. Etc. Eu tinha brinquedos sim, até achava que tinha muitos, mas grande parte eram inventados feitos por mim. E via os rapazes fazerem corridas de carros ou jogos de futebol com caricas, que guardavam numa caixa de sapatos.
Mas havia também os jogos de tabuleiro, uns com caixa e dados e peões, outros tipo dominó, outros com perguntas. E guardava-se com cuidado, fechava-se bem a caixa, e duravam anos e anos...
Ok, ok, agora é diferente. Ouvi há pouco uma conversa sobre um brinquedo chamado playstation (uma "estação de brincar")  que custa quase, quase, o salário mínimo nacional... E até dizem que com aquilo se pode brincar sozinho.
Tempos diferentes, é claro. 
Tempos onde para além de se comprar tudo já feito, se dá um valor enorme ao preço. Há uns meses entrei numa loja de brinquedos, a Toy's R Us creio. Sabia o que queria, despachei-me depressa, mas depois sou abordada por uma senhora de meia idade, muito atrapalhada. Pediu-me conselho sobre o que devia levar. Era para um menino de pouco mais de um ano, e acentuou que era rapaz. Olhei à volta com boa vontade, vi um expositor cheio de bolas e aconselhei "Olhe, leve uma bola! As crianças gostam de bolas, empurram-na, correm atrás dela, e ele daqui a pouco já sabe dar pontapés!" Ainda por cima ela acentuou bem que era rapaz o que encaixava no estereotipo. Ná! Viu o preço (era barato!) e queixou-se que era demasiado simples... e lá ficou, perdida no meio das prateleiras.
Mas digo uma coisa, também convivo com crianças e sei muito bem a graça que acham aos jogos antigos que eu tenho, iguaizinhos a estes reeditados da Majora, que estou a coleccionar.



Cereja