terça-feira, 26 de novembro de 2013

Violência sem travões

Não é de hoje, já sabemos. 
«Maria! Não me mates que sou tua mãe!» escrevia o Camilo e a história dizem que era verdadeira - não só a rapariga matou a mãe como lhe cortou a cabeça! É claro que o ser humano é agressivo e violento, e nos séculos passados via-se isso bem com guerras terríveis onde proporcionalmente se matava imensa gente, mas, enfim matava-se um a um que uma espada só apanha uma pessoa de cada vez...
A mim, talvez influenciada por andar nos últimos tempos a comprar o Correio da Manhã para completar a colecção dos jogos da Majora, parece-me que ultimamente a violência anda desenfreada. Até porque os jornais deste tipo não inventam, apenas dão mais relevo ao que já existe. E são casos uns a seguir aos outros: assassínios, suicídios, acidentes estranhos, roubos com violência, atropelamentos, raptos, terminando este enumerado com a terrível violência doméstica que nos dá o número assustador de mais de 3 mulheres mortas por mês pelos seus companheiros.
Como já disse, é claro que sempre houve violência ( o que não consola nada!) mas não me recordo de tanta em tão pouco tempo. Possivelmente as coisas estariam mais escondidas quando eu era criança e adolescente, talvez houvesse mais pudor em se falar nestes assuntos... 
E é esse pensamento que me fez escrever isto hoje. Claro que pode ser hipocrisia não falar dos assuntos, como se diz varrer-o-lixo-para-debaixo-do-tapete. Não é por a comunicação social não falar que as coisas não sucedem, é claro.
Mas o que me preocupa e sobretudo quando penso na educação das crianças, é na banalização desta agressividade. É claro que os desenhos do Walt Disney também eram violentos. Eu tinha 4 ou 5 anos quando vi o Bambi e chorei com grandes soluços, e as bruxas, madrastas, fadas más eram terríveis, isso nem se discute. Mas comecei a franzir o sobrolho há 20 anos com o Dragonball, já não gostei dos mortos a ressuscitar, aqueles monstros, e a facilidade com que se exterminava os adversários. Hummm....
Mas hoje isso já parece ingénuo. Há os vampiros, os mortos-vivos, lobisomens, zombies de diversos formatos e as crianças trocam cromos e riem-se de imagens que podiam arrepiar mas pelos vistos até são divertidas. Os filmes de terror é que estão a dar. É bom sentir medo. É engraçado. Ver a imagem de um ser humano (ou que não seja humano!) estripado, com os miolos de fora, com os membros cortados,  sem cabeça, faz rir muitas vezes.
Bom, eu não acho natural. 
Para mim o excesso de proximidade com imagens de enorme violência, desvaloriza-as, banaliza-as, e pode (digo apenas que pode...!) não se vir a  reconhece-la no mundo real como ela é. O miúdo que há pouco tempo esfaqueou uns colegas numa escola tinha dito pouco tempo antes "Era formidável fazer um massacre! " e dizia ter um plano para matar 60 pessoas. Para se divertir.




Cereja

domingo, 24 de novembro de 2013

A questão da Saúde

Quando li ontem a exigência orwelliana acerca do controlo de quem fuma   mais do que indignada, fiquei chocada. É uma exigência que visa certamente condicionar nalguns casos o acesso pleno à saúde, coisa que me custa compreender.

De vez em quando dá-me para explicar alguns dos meus sentimentos actuais pelo meu passado. Não sou só eu que penso assim, claro, creio que toda a gente é em parte fruto das suas experiências no início de vida. Ora a minha vida em criança baseava-se em pontos que considerava inquestionáveis. Nascida em pleno salazarismo, numa família classe média a sofrer fortemente pelo seu anti-fascismo, cresci num ambiente de grande contenção económica. Muito poucos vestidos, feitos em casa ou herdados de outras pessoas para além de andar sempre de bibe, os sapatos compravam-se no número acima para durarem mais tempo (punha-se algodão na biqueira...), comia-se bem mas só produtos de época e tudo se aproveitava, as distracções dos adultos para além da leitura, eram visitas aos amigos ou passeios a pé.  Havia um rádio, é verdade, mas sobretudo para ouvir notícias.
Mas para a Cultura, Educação ou Saúde não sentia tanto a restrição. A biblioteca lá de casa sempre foi grande, e aumentada permanentemente com ofertas de autores ou editoras, empréstimos, trocas, e algumas compras é claro. Os pais eram amigos de bons pintores e as nossas paredes eram uma mini-galeria. Tinham também amigos no teatro e iam ver muita coisa com bilhetes de oferta. Eu vivia mergulhada num ambiente de grande cultura por "culpa" das amizades dos meus pais e não percebia que aquilo se comprava...
O mesmo com a Educação. Andei sempre no ensino público, tinha a noção de que se pagava pouco por isso, os livros eram herdados de primos mais velhos que os estimavam como eu estimei, o gasto era de artigos de papelaria mas eram poucos. Nunca senti que isso fosse um peso na minha família.
E depois a Saúde. Os meus pais tinham vários amigos médicos, além de um primo direito (mas a quem se recorria pouco) e lá nas brumas de infância nem me recordo de ir a um consultório eram eles que vinham a casa... Assim como os meus pais, não ouvia entre várias queixas nenhuma sobre questões de saúde por dificuldade de acesso. Mesmo medicamentos, creio que esses amigos traziam muitas amostras mas quando era preciso ir à farmácia não recordo que fossem contas muito grandes.
E o tempo foi passando e o meu modelo a manter-se. Mesmo na adolescência e princípio da idade adulta, com essa rede-de-amigos-médicos, a resposta fácil da Saúde sempre foi um dado adquirido.
É certo que já adulta, o conhecimento do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra era um modelo a desejar, mas por ser nova e ter saúde não estava entre as minhas maiores preocupações.
...............
Talvez por isso o acordar para a realidade tenha sido tão complicado. O perceber que a qualidade da resposta neste campo depende do dinheiro que se tem, foi para mim como um choque eléctrico.Não estava preparada, imagine-se! Era algo inconcebível até há pouco adiar uma consulta até receber o ordenado/reforma...???
Só posso sentir que tive uma vida muito mimada e que a força das redes de amizade era bem maior do que eu julgava. E este extraordinário controlo dos fumadores (e eu não sou fumadora!!!) através do Boletim de Saúde dos filhos visando claramente uma maior economia da resposta veio chamar-me a atenção para a distância que me separa dos dias da minha infância.



Cereja

PS - Já tinha publicado este post quando li o desmentido do Ministério da Saúde. Não sei se foi excesso de zelo da jornalista, se o Ministério se explicou mal, se... Mas de qualquer modo ainda bem.

sábado, 23 de novembro de 2013

Civismo, respeito etc e tal



Gosto da minha cidade.
Nasci em Lisboa, é a minha cidade-mãe.
Uma manta de retalhos como sabemos, - ia dizer patchwork, mas a manta de retalhos serve bem - com bairros muito individualizados, onde os vizinhos se conhecem, bairros que por vezes parecem pequeninas aldeias dentro de uma cidade, e também zonas mais modernas, mais dormitórios, onde por vezes nem os vizinhos do prédio sabem quem somos. Mesmo assim, quem sempre cá viveu e na mesma zona sabe que se podem criar relações não como numa aldeia, mas também bem simpáticas. Já por aqui contei várias historietas nesse sentido.
Claro que nem imagino o que seja gerir uma cidade do tamanho de Lisboa, às vezes já me custa gerir a minha casinha de 3 divisões. A articulação dos diversos pelouros, a previsão a longo termo, deve ser complicadíssimo mas também por isso é há tantos vereadores e trabalhadores. 
Ora a lentidão com que se processam as obras nesta terra é chocante. Como vivi uns anos em Macau, vi com os meus olhos que é possível erguer-se um prédio enorme em poucos meses ou arranjar-se uma rua em menos de uma semana. É possível, sim. Não consigo entender por exemplo, como o arranjo da Praça do Areeiro pode demorar anos e anos e anos. Não sei se dez anos é exagero, mas anda por lá perto! Metade dela parece agora acabada, (e começaram a esburacar a outra metade) mas continua meio vedada, ninguém explica porquê. Se isto não é falta de respeito pelos cidadãos não sei como lhe chamar.
Assim como o lixo. Cidades mais pequenas à volta de Lisboa conseguem ter ecopontos subterrâneos apenas com umas pequenas entradas visíveis e uma recolha correcta do conteúdo; como é possível uma capital ter esses monstros a transbordar de lixo, tirando espaço nos passeios ou nas ruas, com uma recolha tão irregular? Falta de respeito. 
Na quinta-feira, à uma da tarde, o trânsito estava uma loucura no cruzamento da Av. da República com a Av de Berna. Causa? Mesmo junto desse cruzamento uma grua e um enorme camião descarregavam mercadoria para um prédio, bloqueando duas das três vias. OK, era legal que até tinham lá um polícia. Não pude deixar de me lembrar que a semana passada em Paris observei também uma grua a montar iluminações do Natal numa rua pequena e com pouco trânsito, mas tiveram o cuidado de o fazer às 10 da noite quando passava um carro de meia em meia hora...Não em hora de ponta numa praça central. Questão de respeito acho eu. 
Merecemos isto?
Se calhar sim, uma vez que se aceita, apenas com umas resmungadelas para os amigos. Bem-feito!

Cereja
 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Rescaldo

Uma quinta feira que nos dá que pensar.
Por um lado uma manifestação enorme das forças de segurança. Queiramos quer não dá que pensar ver tanto polícia junto e em fúria. Muita gente não simpatiza com eles, mesmo com um passado branco como a neve a verdade é que a 'autoridade' encanita muita gente, para além dos que não gostam de fardas em geral. Mas é um facto que sendo as polícias parte da função pública (ainda não foram privatizadas) apanharam com o tsunami dos fortíssimos cortes quer de vencimento quer de benefícios sociais, e claro que não gostaram. E vieram dizê-lo. Aparentemente era PSP, GNR, Serviços Prisionais, mas imagino que a Judiciária estaria lá pelo menos em espírito por aquilo que tenho lido nos últimos tempos. - parece que já nem para combustível para os carros têm dinheiro...
Contudo, dando obviamente a cara porque foram filmados em grande plano e de perto, confesso que me impressionou haver tantos que fugiram a dizer ao repórter o nome e em que corporação trabalhavam. Medo de represálias? Depois de 40 anos de democracia...? Ainda é pior do que pensava.
Na outra banda intelectuais promovem uma Conferência  "Em Defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social". E vê-se na mesma sala e até na mesma mesa, pessoas que há alguns anos eram claramente grandes adversários para não dizer mesmo inimigos. Juntam-se contra um alvo comum. Coisa que a esquerda, a velha esquerda que gosta tanto de se pulverizar, parecia incapaz de fazer, parece que a necessidade obriga a essa união. Dizer que me senti admirada é pouco.
Contudo ao ver os jornais "virtuais" aquela janelinha ao alto à direita que nos dá o resumo do que os jornais consideram de mais importante, e o que vemos é uma misturada de faits-divers criminais (da dívida dos 17 milhões do Luís Filipe Vieira, a um assassino que 5 anos depois se veio entregar) ou de uma espécie de socialight (a cantora que rapou as sobrancelhas, ou a apresentadora de tv que se despiu porque a França vai ao Brasil)
Assim vai o mundo?
Ou alguma coisa vai mudar?



  Cereja

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Vender a todo o custo



Há cem anos quando se queria publicitar alguma coisa, fazia-se um desenho gabando as suas vantagens. Depois apareceram na rádio uns anúncios cantados, os jingles. Vendia-se melhor, as músicas ficavam no ouvido. Mas as "técnicas de venda" aceleraram vertiginosamente e hoje em dia temos de ter um curso especializado para lhes resistir.
Presunçosa, tive em tempos a convicção de que sabia resistir se me quisessem vender algo de que não necessitava. Erro grave. Afinal não sabia. 
"Vendas agressivas" foi um termo que aprendi a respeitar. Sou constantemente apanhada nessas redes e se consigo resistir 9 em cada 10 vezes, à décima vez a armadilha é montada com tal perícia que só recuo quando tenho já um pé no ar em cima do abismo... Aconteceu-me várias vezes nos últimos anos. Como disse tenho conseguido recuar no último minuto e até hoje não cheguei a comprar aquilo que tão bem me conseguiam impingir, mas uma vez até assinei o contrato apesar de o conseguir anular na manhã seguinte! 
Mas confesso que me julgava vacinada. Há uns 15 dias contudo aceitei responder a um inquérito sobre os serviços de saúde. Inofensivo? Tudo indicava que sim. Não me fizeram deslocar a lado nenhum, pelo contrário combinaram o dia e vieram à minha casa muito bem identificados, um até era "um terapeuta estagiário". Uma conversa muito prolongada mas interessante e sem dúvida que os rapazes tinham muitos conhecimentos científicos e uma magnífica formação. A campainha de alarme soou quando percebi que havia um aparelho que podia ser meu com umas suavíssimas prestações. Acabei a entrevista com firmeza, mas até com alguma vergonha parecia uma sovina que regateava o preço da saúde!!! Uma técnica de venda magnífica com um profundo estudo psicológico.
Uma semana de pois, outra técnica, também primorosa. Aluguei, via net, um apartamento. Tudo certo até porque existiam muitas fotos, ilustrando bem a casa - não podia haver engano que as-fotos-não-mentem.  E não mentiam, mas nem eu perguntei nem me disseram as verdadeiras dimensões desse apartamento, o que fazia toda a diferença. Não tinha nada a ver com o que tinha julgado alugar, mas... existiam fotos! Que podem ser, e foram, 'trabalhadas' para parecer outra coisa.
Usando uma técnica psicológica ou fotográfica, o certo é que um consumidor pode ser enganado. A publicidade ingénua dos nossos avós não tem nada a ver com estas técnicas, resta-nos aprender técnicas de defesa para sobrevivermos!

Cereja



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

De volta

Uma espécie de carta:

Ai, amigos, olho aqui para o blog, e nem quero acreditar!
Uma paragem de quase um mês??? Como foi possível? "Já Bocage não sou..." dizia o Bocage (e de facto naquele poema era muito pouco Bocage) e sinto-me um pouco assim, "Emiele Cereja não sou..." para os que me conheciam de outras andanças, quando eu usava o blog como hoje usamos o facebook. Uma pausa enorme, por um lado justificada por uma viagem sem net, por outro por a saúde estar de momento periclitante, mas nenhuma das explicações é suficiente. Sinto-me um pouco envergonhada. Tem sido preguiça, a mais reles da preguiça, mas afinal como já tenho lido por aí, a preguiça é o melhor dos pecados porque impede a prática dos outros seis...
E pronto.
Depois deste esfarrapado pedido de desculpas, vem a renovação dos votos: 
Vou recomeçar como deve ser.
O Cerejas vai renascer.
Por favor, continuem a visitar-me porque gosto muito de conversar e é triste ficar a falar-se sozinho .
Abraços e beijinhos e inté (amanhã, claro)


Cereja

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Bonecos


Enviaram-me um fw com estes bonecos do Quino. Uma pessoa que tinha passado aqui pelo blog onde ultimamente tenho chamado a atenção para a "má educação" que muitas vezes, e cada vez mais segundo me parece,  se transmite aos nossos  filhos. 
Achei que ficava aqui bem. Sem mais palavras:

















Cereja

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um fenómeno cada vez mais vulgar III) Regras e limites

O que é demais, é demais. 
«As regras são para cumprir»? Huummm... Depende, não é? Nem sempre, pensamos nós. Aliás também se diz que «não há regra sem excepção». Um mundo em que se vivesse espartilhado em regras severas e para tudo seria um sufoco. Confesso que pertenço ao grupo que não aprecia excesso de regras, gosto de escolher o que devo fazer. Mas... Como é que circulávamos se não houvesse regras de trânsito? Assim como todos gostamos de sentir a liberdade, e por isso mesmo se diz que «a nossa liberdade termina quando começa a liberdade do outro».
E é isso o que estes meninos que vêem os outros como objectos, não sentem.
Estes princípios, de que precisamos de regras para viver em colectivo e não somos livres de fazer tudo, aprendem-se em criança. Aprende-se na família. Numa família existem os adultos que tomam decisões, protegem, são responsáveis, mandam. E as crianças que devem ser protegidas, a quem não se pede responsabilidades e devem obedecer.
Obedecer cegamente a tudo? Talvez no tempo da Rainha  Vitória, ou nem aí... Não. Não é nada bom uma criança demasiado passiva, que aceite tudo sem discussão e desde há muito que isso se sabe. Mas essa situação da criança passiva, o que é muito mau, encontramo-la agora menos do que o seu oposto. Vemos muitas crianças e adolescentes que vivem segundo o princípio do prazer imediato. Pensam em algo, seja um objecto, uma actividade, uma experiência nova, uma peça de roupa, seja o que for e não suportam a espera. Tem de ser de imediato ou já não lhes interessa. Não digo bem. Claro que interessa, interessa loucamente até obterem, mas assim que o conseguem o interesse desvanece-se.
E o curioso é que tudo é exigido sem a menor contrapartida. Se lhe perguntarmos «E o que fizeste para merecer isto?» olham-nos como se fôssemos doidos. Por vezes insisto «Tiveste uma nota muito boa? Ajudaste mais nas tarefas domésticas? Fizeste um favor grande à mãe ou ao pai?» e a resposta é encolher os ombros. Querem as aulas de guitarra, ou os ténis de marca, ou uma ida à neve, porque-sim. Sabendo já que ao fim de 2 meses estão fartos da guitarra, estragaram os ténis e vêm aborrecidos do fim-de-semana na neve.
Enquanto os pais se privam de coisas de que precisam para os satisfazer.
E eles não ficam nada agradecidos!
.................
Algo está muito mal!



Cereja
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um fenómeno cada vez mais vulgar II) a frustração

Frustração. É uma palavra desagradável  para uma emoção negativa. Refere-se a um sentimento misto de tristeza e raiva por não se conseguir algo que se deseja. Falamos muito disso actualmente, não era noção que eu ouvisse muito em criança nem o lemos com frequência em romances do século passado, mesmo se o sentimento em si é tão antigo como o homem! A vida, e sobretudo a vida em sociedade implica frustração. A vida em grupo implica um 'toma-lá-dá-cá' e o "dá cá" nem sempre acontece como e quando se deseja. O resistir convenientemente à frustração aprende-se e é difícil.
E essa lacuna, o não ensinar desde muito pequeno como se resiste à frustração, é dos erros mais graves que os jovens pais podem cometer. A imensa ternura que sentem por aquele pedacinho de gente que depende tanto deles, faz com que lhes adivinhem os desejos e os satisfaçam de imediato. Há desejos que são também necessidades, sono, fralda limpa, fome, e devem ser resolvidos com brevidade. Mas esforçar-se por chegar a um brinquedo, ou esperar um pouco por que lhe peguem ao colo, só faz bem à criança, acreditem. Assim como encontrar por si mesmo soluções para o que quer: agarra a fralda ou o peluche para adormecer sozinho e isso aumenta a sua autonomia. Mas muitos pais vêm um serzinho tão frágil, que facilitam tudo. "Vai ter tempo de sofrer, quando for crescido!" é o pensamento. E vai-se evitando tudo o que o posso frustrar, à menor ameaça de beicinho tudo se resolve.
Erro grave. O que não se aprende em pequeno é muito mais difícil de aprender mais tarde. A intolerância às pequenas frustrações vai ser uma bola de neve, aumenta com a idade de um modo assustador, vamos ver uma criança sempre zangada, um adolescente insuportável, uns jovens a quem nada satisfaz.
Claro que a sociedade tem culpa. Há multinacionais de brinquedos, de roupas, de móveis para crianças. E que se esforçam por vender. São mesmo especialistas no assunto com técnicos que sabem bem como se faz: um brinquedo engraçado que a criança deseja, a mãe dá, mas no dia seguinte aparece outro e a criança quer o novo, e no dia seguinte lança-se um diferente, e o mecanismo cria o seu monstro - o importante não é brincar com o brinquedo é a chegada de um novo! Quem não conhece estes casos? A exigência constante, mais, mais, mais, a birra, a chantagem, e a escalada que se segue.
Vemos crianças destas constantemente. Que querem (exigem!) um bolo e depois de uma dentada displicente o deitam fóra. Que querem sempre outra coisa daquilo que lhes é oferecido - um passeio se lhe propõem cinema, o campo lhe lhes oferecem praia, ficar em casa em vez do zoo... Querem mostrar que elas é que decidem.
E num tom e postura de completa arrogância, o que seé "quem manda sou eu!» frase que até às vezes dizem com convicção. Frequentemente funciona a chantagem "não gosto de ti!" ou "só gosto se me deres o chocolate!" e incrivelmente o esquema funciona. Conheço crianças que antes de dar um beijo à mãe  quando chegam ao pé dela, vão à carteira ver o que lhes trouxe. E outras que ao ver uma prenda protestam "isto?! mas que porcaria!". São meninos mal-educados? Pois são. E são sobretudo crianças infelizes, que não dominam a frustração, e que vão tornar quem com elas convive também infeliz.
Cuidado!



 Cereja

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Um fenómeno (?) cada vez mais vulgar

A semana passada comprei e li um livro novo.
Muito interessante. Remeteu-me para outro que já tinha lido há anos e fui buscá-lo à estante. Lá estava, bem lido e sublinhado: Da Criança-Rei à Criança Tirana  Tinha já passado algum tempo entre a leitura dos dois mas o tema estava actual e talvez cada vez mais. E o adjectivo até era o mesmo "tirano". Tirano é um déspota, um opressor... Nada mais oposto à imagem da criancinha angélica com que muitos pais sonham ou, enfim, ao pequeno diabrete que faz uns pequenos disparates que até nos podem fazer sorrir.
Nada disso.
Qualquer destes dois livros trata de um problema muito diferente, de uma completa inversão de valores familiares, uma situação onde os filhos detêm de facto o Poder e exercem-no ou com chantagem ou até simplesmente com autoridade, de um modo absoluto. Não faz sorrir nem tem graça nenhuma. O problema existe e é preocupante. 
No caso do livro que li mais recentemente, (o outro estou a relê-lo agora) o autor Michael Winterhoff desenvolve uma teoria interessante: no nosso cérebro surge primeiro uma 'célula nervosa relativa ao objecto', ou seja quando somos muito pequenos reconhecemos objectos como empecilhos aos nossos desejos, mas que podem ser removidos. Ele dá como exemplo a cadeira no caminho do bebé que gatinha, pode ser removida sem qualquer dificuldade, é reconhecida como objecto. Mas, se no caminho estiver uma pessoa a reacção é diferente, tanto pode pegar-lhe ao colo como fazê-la voltar para trás, e a criança acaba por activar a 'célula nervosa relativa à pessoa'. Os objectos não tem vida e podem ser tratados mais ou menos à bruta sem reacção, mas as pessoas que rodeiam a criança têm reacção e, se não existir uma relação simbiótica, contrariam de vez em quando a vontade da criança. Ela assim aprende a sentir limites, perceber a diferença e respeitar a pessoa enquanto tal. Reconhecê-la como sua igual.
O grave é quando tal não acontece. Crianças pequenas, e depois mais crescidas, e depois adolescentes, e finalmente jovens adultos ou adultos plenos, que nunca foram controlados e continuam a ver os outros como objectos. Do ponto de vista do desenvolvimento afectivo, pararam - ele usa o termo "estagnaram" - nos 3 anos de idade. Um egocentrismo avassalador porque houve um estádio que nunca foi ultrapassado, o resto da sua inteligência é normal mas o mundo é que se tem de moldar à sua vontade e desejo porque é assim que eles o vêem, os obstáculos tem de ser arredados do caminho sem a menor auto-crítica, porque tal seria reconhecer os direitos dos outros coisa que não conseguem fazer. Não aprenderam na altura certa.
O livro é facílimo de ler até porque está recheado de imensas histórias e observações efectuadas nas suas consultas, apontamentos recolhidos durante uns 20 anos. Casos iguaizinhos a muitos que conhecemos.
Vamos pensar um pouco nisto, porque cada vez é mais difícil pôr um travão nestas crianças/jovens que 'estagnaram' emocionalmente e isto acaba por se tornar um vírus social, na minha perspectiva.
Mas ainda há muito para dizer, o que vai ficar para outro post.


Cereja