Ando há uns tempos a remoer em relação a uma atitude ou um modo de pensar ou como se lhe queira chamar. Refiro-me ao modo como se encara, pelo menos na actual sociedade ocidental, a corpulência das pessoas.
Quando eu era criança o modelo físico desejado tinha alguma margem de tolerância. Não era considerado bonito uma pessoa demasiada anafada, nem o que se chamava trinca-espinhas, mas a faixa do que era 'normal' era bastante larga. Aliás o ter-se um bocado mais de peso não era assim muito mau, tanto que o eufemismo que se usava (e ainda se usa) é ser-se "forte" confundindo-se propositadamente músculo com gordura.
Com a alteração de hábitos, quer alimentares quer sociais, as pessoas começaram a engordar. Nasceu a obesidade como doença, coisa que embora sempre tivesse existido era ainda rara em meados do século passado, mas hoje é uma justa preocupação, basta olhar à nossa volta.
Mas a atitude que me incomoda é a perspectiva onde a generalidade das pessoas se coloca, não num ângulo de prevenção e sim de tratamento. O que é frequente é ouvir isto faz emagrecer em vez de isto faz bem à saúde ou seja o conselho dominante é "emagreça" em lugar de "não se deixe engordar demais".
Tenho a sensação de que está tudo errado. Alimentação errada, é claro. Mas isso vem de bebé porque o excesso de doces e gorduras em vez de um-pouco-de-tudo como seria sensato, é aprendida ainda mal se sabe andar. E exercício natural a menos, também. O paradoxo é que como as distâncias que temos agora de percorrer são muito maiores, habituamos-nos a usar um transporte sempre até mesmo para distâncias que se fazia a pé dantes sem se pensar duas vezes. Quando eu era criança quase não havia ginásios mas a vida diária era um constante 'exercício físico'...
E a minha rabugice nasce de estar farta destes contrastes: por um lado o bombardeamento com a imagem ideal, o homem ou mulher perfeitos, que nos aparecem por todo o lado como modelos a atingir. E, depois de ter tornado as pessoas descontentes com a sua imagem, a insistência naquilo que as "faz emagrecer".
Mas não. O importante, acho eu, é saber não engordar que é coisa diferente.
Mal comparado é como deixar as pessoas viciarem-se em tabaco à vontade, e depois massacrá-las com técnicas para deixar de fumar e avisos dos seus malefícios nos maços de cigarros...
Cereja


