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sábado, 13 de outubro de 2018

Clientes/trabalhadores

Li ontem esta notícia, que me chocou, especialmente por se tratar de uma loja de que tenho boa impressão, cujos empregados são atenciosos, aceita facilmente devoluções, e até parece levar em conta os interesses dos clientes. Foi em Estrasburgo, um pai e uma filha foram presos por se terem enganado no pagamento de uma conta no... IKEA! A sério!!! Queriam comprar umas caixas de plástico e pagaram por aquele sistema de ser o próprio cliente a fazer a leitura do código de barras, e pagar. O erro, completamente plausível, foi terem passado o código que estava nas tampas julgando corresponder ao conjunto, caixa e tampa. À saída um segurança diz que não pagaram tudo, e eles aceitam pagar a diferença. Parece um incidente natural, não é? Entretanto chega o Chefe de Loja que lhes chama ladrões, e chama a polícia!!!! Acredita-se nisto?! Numa loja com produtos muitissimamente mais caros chama-se a polícia por umas caixas de plástico??? Foram levados para a esquadra e avisados de que ficariam 24 horas em celas separadas. A história acabou 3 horas depois com o aparecimento de um advogado.
Este truque de porem os clientes a registar as próprias contas, poupando o salário de uma empregada de caixa, também se usa muito cá, nas grandes superfícies. Já o tenho praticado por vezes quando estou com muita pressa e nas caixas normais a bicha é muito grande. E, é claro que um engano acontece, e seja dito que pode ser nos dois sentidos, temos de verificar muito bem o talão. Já por mais de uma vez me aconteceu ter pesado o produto, colado a etiqueta, fazer o pagamento de muita coisa e ao chegar a casa ver que tinha, por exemplo, pesado as bananas com o código das cerejas e pago 3 vezes mais...
Ora tudo isto acontece devido à ganância destas empresas que consideram que os ordenados dos seus trabalhadores é um peso supérfluo, não são precisos para nada desde que os clientes não se importem de fazer tudo! Há lojas que funcionam em completo self-service: o cliente entra, procura, escolhe, põe no carrinho, lê o código, paga e sai. Sim, pode haver uma ou duas caixas normais, mas ninguém para dar uma informação, ajudar numa escolha, nada!
Isto sempre me irritou, acho uma vigarice.
Mas o máximo dos máximos é acusar-se um cliente de roubo se ele se engana! E, neste caso, um «roubo» insignificante, de certeza que o que poupam em trabalhadores (em linguagem moderna colaboradores)  dá à vontade para pagarem os tais tupperwares... 😡
Que vergonha, IKEA.
Péssima publicidade que o zeloso chefe de loja arranjou.

Cereja

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Linguagem e modas



A língua evolui e ainda bem, é prova de que está viva. Quem já é mais velho estranha sempre que vão desaparecendo termos corriqueiros da sua adolescência e surjam outros que muitas vezes se tem de tirar pelo sentido porque nem se sabe bem o que querem dizer. Levou-me algum tempo a aprender a traduzir a palavra cena por coisa como se dizia dantes...
Uma das palavras que se usa hoje de um modo diferente é namorado ou namorada.
Antigamente, referia-se a uma relação, digamos que «inocente», entre adolescentes ou adultos muito jovens. Era um termo suave. Entre gente mais culta também se falava em flirt, que era ainda mais leve. Recordo uns versinhos também de época: o flirt é fio doirado / sobre um rio atravessado / todo luz / Amor é o nome do rio / quem não sabe andar no fio / catrapuz. Veja-se a inocência romântica da época... 😇
Actualmente usa-se o termo namoro de um modo muito mais abrangente, é todo o relacionamento amoroso, digamos. Mas ainda estranho quando leio Mulher de 62 anos esfaqueia namorado em Ovar, e quando leio a notícia e percebo que foi «uma mulher de 62 anos [....] que agrediu um homem de 69 anos com quem mantinha um relacionamento» não consigo reprimir um sorriso. Um casal na beira do que se chama hoje 3ª idade, eram namorados, mas viviam a relação sem nada de inocente se os ciumes ou sei lá o quê fizeram que a namorada agredisse o namorado à facada, credo!
Pronto, tenho mais é que me habituar.
A propósito desta notícia e defendendo eu o termo companheiro/a para estes amores mais maduros, uma amiga conta-me a história de ter ido pedir um papel oficial para o seu companheiro e quando lhe perguntaram a relação com a pessoa disse «companheiro». Então a menina perguntou «o que é isso?»; quando explicou que viviam juntos percebeu «ah! marido...» e ao saber que não eram casados já entendeu tudo: «namorado!» 😊



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Cereja


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Limpeza, higiene, saúde....

Conversa de ontem com uma amiga: "- Continuas com tosse?", "- É verdade. Ando fartíssima, isto pegou e não consigo que passe", "- Eu escapei este ano, nem problemas intestinais, nem gripe, nem coisas de garganta...", "Sorte!!!", "-Não sei se é só sorte, desde há uns tempos que decidi lavar as mãos muito mais vezes e lavo-as sempre que venho para casa, e olha que tenho tido menos chatices..."

Quando eu era criança as pessoas que me educavam pareceriam hoje maníacas da limpeza. E, claro, se pudessem ver o mundo de hoje ficariam estarrecidas com «a porcaria» que viam... Como vivi nos dois mundos posso bem avaliar.
Há países onde se mantém o hábito de tirar os sapatos à porta de casa. Dentro de casa ou se anda descalço ou com sapatilhas que só se usam no interior. Sabemos que isso se faz no Japão, nos países nórdicos, e parece que também em muitas casas da Alemanha, Canadá, China, etc. Um costume que é tradição e faz sentido, mas que nunca se praticou cá.
Voltando aos anos 40, nunca, mas mesmo nunca se provava do prato de outra pessoa ou se bebia um golo da bebida de outrem. Uma coisa que ficava eventualmente no chão ia para lavar. Na minha casa a loiça lavada era no fim escaldada com água a ferver. Lavávamos imenso as mãos. Ora bem, vamos recordar que os antibióticos estavam ainda em estudo, ou seja os contágios eram sérios e podiam até ser fatais. Morria-se muito de tuberculose, havia casos em todas as famílias, e havia a noção que o que estava sujo não era só o que se via, também muito do-que-não-se-via.
Hoje, com sinceridade, creio que os antibióticos nos fizeram abandalhar... É como se o facto de haver cura para as infecções fizesse desprezar completamente o seu risco. Quando ele ainda existe e muito!
A minha amiga diz que agora é um hábito, Entra em casa, despe o casaco, poisa a carteira, e passa pela casa de banho onde lava bem as mãos e as unhas com a escovinha. E, coincidência ou não, desde que o faz tem tido menos doenças. Faz sentido. As nossas mãos na rua tocam em tudo! O corrimão do metro ou o apoio do autocarro, o carrinho do supermercado, o exterior das embalagens de produtos manuseados por imensa gente, o dinheiro que se entrega ou recebe, ou (ainda o dinheiro), as teclas do multibanco onde todos mexem, é evidente que as nossas mãos passam por todo o lado. E não é a porcaria visível que é preocupante porque aí todos nós estamos de acordo em lavar depressa as mãos quando vemos e sentimos que estão sujas, é a tal que não se vê!!!
Voltando agora aos sapatos, também concordo (embora o não faça) que eles deviam ficar à entrada da porta. Claro que se pisarmos uma porcaria na rua, tal como lavamos as mãos se estão visivelmente sujas, também queremos raspar a tal porcaria. Nem me refiro só ao famoso cocó de cão, que faz com que as ruas por vezes nos obriguem a gincanas-a-pé, é também frequente pisar-se coisas na rua que... não gostamos de levar para casa. Mas quando os sapatos parecem ter as solas limpas, todos pensamos que limparmos no tapete da entrada é suficiente. Não chega com certeza.
Pronto, creio que seria uma revolução demasiada para os nossos hábitos essa coisa de tirar os sapatos à entrada, mas isso de começar a lavar mais e melhor as mãos...? 😄
O conselho da minha amiga fez-me pensar.
Porque não?


Cereja

domingo, 21 de janeiro de 2018

recordações

Deixei ontem no FB uma nota motivada por uma referência à Pastelaria Bernard mas o formato facebook é muito mais restritivo do que o blog de modo que venho espraiar-me por aqui, mais a minha casa...😉
A evolução do comportamento infantil da minha infância até a actualidade é impressionante. Claro que uma criança é uma criança, o que mudou radicalmente foi a sociedade. (ainda vou falar no «supernanny» mas não hoje)
Na década de 40 para uma criança como eu, era uma festa ir lanchar à Baixa. Não acontecia muitas vezes, os meus pais trabalhavam durante a semana e não nadavam em dinheiro, e as avós também não eram muito de sair... Mas havia um casal amigo dos meus pais, que vivia perto de nós, a casa de quem eu ia brincar, com a filha. 
A boa educação, algo rígida, reinava naquela casa que eu achava muito chic, com cortinas de veludo e cetim, móveis super-envernizados e bastantes dourados, duas criadas de farda e crista. A minha amiga era tipo menina exemplar. Todos usávamos bibe em casa nessa época, mas os meus eram aos quadradinhos, ou xadrez, para disfarçar as nódoas que eu lhe punha, enquanto o bibe da Milu era de piquet branco, com folhos e não se sujava!! Ela sabia as etiquetas sociais todas, e eu não. Numa das primeiras saídas que fizemos as 3 - a Milu, eu e a mãe dela, fui chamada à atenção porque balançava os braços a andar. Fica mal. Uma menina não anda assim, mantêm os braços junto ao corpo. Ui... Na vez seguinte a mãe dela ofereceu-me uma carteira pequenina mas como a das senhoras, para eu levar na mão e andar direitinha como-deve-ser.
Ora, neste ambiente, uma tarde fomos lanchar à Baixa! Estava radiante! A Pastelaria ou talvez Salão de Chá, era no Rossio creio, mas não era a Suiça. Depois de entrar descíamos uma escada muito elegante, o salão era em baixo e todo forrado a espelhos cor-de-rosa! Aaaaah! Lindo de morrer! Sentámo-nos a uma mesa, com toalha branca, e cheia de utensílios de prata (?) achava eu, chávenas de porcelana, tudo lindo. Fez-se o pedido, chá para a senhora e chocolate quente para as crianças, e um prato com bolos.
Era assim nessa altura, pedia-se bolos e vinha um prato com doçaria variada. O inconveniente é que como eram todos diferentes quem escolhia primeiro ficava em vantagem, mas é claro que se podia pedir ao empregado que trouxesse outro bolo... Já não sei se escolhi ou me calhou uma «tíbia», um bolo tipo eclair mas com uma ou duas bolas (cheias de creme, é claro) no extremo. Um belo aspecto, muito apetitoso. Lá comecei a manobrar o garfinho para cortar o bolo e a esforçar-me por fazer boa figura. Nota importante, eu teria nessa altura aí uns 6 anos. Eis senão quando, a bola da tíbia que eu queria separar salta-me do pratinho e vai aterrar na chávena de chá da senhora da mesa do lado!!!
Horror! Ia morrendo de vergonha. Estou a reviver a cena e ainda sinto um arrepio. Foi uma queda do céu para o inferno. De felicíssima fiquei apavorada. A coisa lá se compôs com ajuda do empregado que foi mudar a toalha, e apesar de tudo o meu anjo da guarda fez que o vestido da dama não ficasse salpicado. Mas o vexame, e o olhar de censura que recebi ainda hoje o sinto.
Outros tempos.
Muito diferentes. Mesmo muito.

Cereja

domingo, 14 de janeiro de 2018

Casamento(s)

[tinha em rascunho várias notas para posts que comecei a escrever durante os meses de pausa mas que podem ser 'aproveitáveis', este é um deles]
Esta minha reflexão vai com a etiqueta Ontem e Hoje, nem sempre arrumo o que escrevo pelas etiquetas mas há casos onde se justifica. 

É inevitável para mim, ao ouvir falar naquilo que é preciso para casar nos dias de hoje na nossa terra, comparar com os costumes do passado recente (aí uns sessenta ou setenta anos) e neste mesmo universo, não num paralelo...😇
Posso estar enganada, mas tenho a sensação de que, como em muitíssimos outros costumes, também nesta área, inicialmente se fez sentir com intensidade a influência dos EUA, embora agora já não se reconheça essa influência. Ou, pelo menos, daquilo que se ia vendo através do cinema e televisão.
Comecemos pelo «pedido de casamento». Era uma cerimónia que creio que só se fazia na média e alta burguesia, porque se «pedia a mão» da noiva aos pais dela. Cá para mim começou por ter a ver com dotes e coisas dessas e daí a importância a concordância da família. É certo que por cá também havia o costume da noiva receber um anel de noivado, com uma pérola e um diamante - ela era a pérola e ele o diamante, diziam, porque o diamante brilha e a pérola reflecte a luz  😊
Nos pedidos de casamento de agora segundo tenho ouvido, a coisa passa-se só entre ele e ela, e essa parte está bem, até é melhor, mas o resto é todo um circo! O rapaz deve ajoelhar-se (!!!?) em frente da rapariga, e estender-lhe o estojo do anel enquanto pergunta se quer casar com ele. Constrangedor na minha opinião. E nalguns casos em público e quanto mais gente melhor. Mas não é suposto ser uma coisa íntima?
Depois vem a cerimónia do casamento. Todas as culturas o fazem e percebe-se, é dizer publicamente que aquele par vai ser uma família. E fazia-se uma festa, com mais ou menos luxo conforme o nível económico das famílias, mas com uma despesa comportável... Se as casas dos pais fossem pequenas, pedia-se a um familiar que tivesse uma vivenda ou um espaço maior e fazia-se lá o 'copo de água' e o bailarico. É do que me lembro, e de ouvir contar. Gastava-se bastante dinheiro, mas dentro do razoável. Hoje, pelo tal padrão do que se via no cinema, é obrigatória, e as despesas de um casamento são de loucura. Neste artigo informam que um casamento «modesto» custa cerca de 20 mil euros!!! Mais do que um ano inteiro de vencimento de um técnico superior.
É assim: a) o vestido de noiva, indispensável e sempre caríssimo, b) o catering ou seja o antigo 'copo de água' que era bem mais do que um copo de água, mas actualmente também tem custos astronómicos, c) as flores para o local da cerimónia e da festa, d) os convites, cartões etc, e) o aluguer do espaço onde vai ser a festa,  f)o fotógrafo para fotografar e filmar, g) o aluguer de carros de aparato para levar os noivos... nem me lembro agora de mais nada porque vejo só 20000 € ou até o dobro se houver muitos convidados...
Claro que a grande, grande diferença para a minha época é a naturalidade com que se encara a união-de-facto, coisa escandalosa no meu tempo e impensável no da minha mãe.
Claro! Com estes casamentos de cinema é bem mais sensato dar uma entrada para uma casa. E o casamento logo se vê...


Cereja

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Poupar «gastando» ou de como confundir o consumidor...


Tenho alguns temas, do tipo 'ódio de estimação', a que volto de forma recorrente, mas não consigo impedir de o fazer. E o consumo ou a forma habilidosa como se acena com a cenoura à frente dos burros que nós somos, é uma delas.
Por uma experiência recentíssima, voltei a pensar na acção maléfica que dá pelo nome de obsolescência programada. É coisa que tem cerca de 100 anos, mas actualmente está no auge sobretudo nas novas tecnologias claro. Quando ouvi a palavra obsolescência (?) a primeira vez achei que era nome de doença ou algo assim, senti logo que era coisa de alguma bruxa má. Claro que era. Quando eu era criança e se vivia no pós-guerra, essa tal obsolescência ainda não tinha chegado a Portugal, e faziam-se coisas para durar. Uma coisa boa, de boa qualidade, era a que durava mais. Disparate! Se durasse muito como é que o fabricante vendia o novo, o que ia fabricando? Ná, ná, o produto - electrodoméstico sobretudo mas atinge tudo - tem de se estragar rápido e sobretudo não haver peças para o arranjar, ou até mesmo as peças serem do preço de um novo. Qualquer um de nós sabe que um aparelho que se compra agora vai ter uma 'esperança de vida' bem inferior ao semelhante que já tínhamos há 20 anos... É a obsolescência.
Mas há outra técnica de venda, muito interessante, que nos toma por parvos e infelizmente resulta: vender grandes quantidades com o pretexto de assim fica mais barato. Quando o conselho é «leve 2 e pague 1» ainda se vai percebendo - ainda que possamos pensar que se querem fazer 50% de desconto bastava vender 1 por metade do preço. Mas muitas vezes a quantidade que impingem é enorme e de  pouco consumo ou com risco de se estragar. Não se vê «leve 2 dúzias de rolo de papel higiénico e pague 1» a não ser que seja uma grande porcaria de papel, invendável... Afinal aquilo é sempre preciso e não se estraga. Mas sacos com fruta, caixas com queijos, iogurtes, mesmo no prazo, o negócio é para o vendedor: quem compra não poupa nada, quando chegar às últimas peças já está tudo podre, o preço afinal foi... normal.
Voltando à minha infância onde de facto se poupava e aproveitava tudo, porque um-dia-pode-dar-jeito, havia na caixa de costura, por exemplo, umas caixinhas de botões onde se guardavam os já usados que voltavam a servir, ou fechos-éclair que se podiam aproveitar para outras saias ou vestidos... Ontem quis comprar um para arranjar uma coisa e entrei numa loja. Não, não era uma retrosaria, isso já desapareceu (quase) era uma loja que vendia tudo. E lá encontrei, pendurado, uma embalagem de fechos-éclair do tamanho que precisava. Embalagem?! Sim, embalagem com 4 fechos de cores diferentes. O conjunto era barato, pois era. Mas que raio ia fazer com as 3 cores de que não precisava? Talvez um dia precisasse??
E quando se vende 3 pares de óculos graduados iguais?  Para que quero eu mais 2 pares de óculos, a não ser que seja uma cabeça no ar que os perca? (aliás se perder 2 também perco seis ou sete....)
A palavra de ordem é vender! E o cliente vai acreditar que poupa embora até gaste mais.
Seremos assim tão parvos?

Eram uns belos pêssegos, não eram?

Cereja

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Pai Natal e outros considerandos...

Para mim o Natal é muito mais do que a cena das prendas. Quando era pequenina encontrava na base da minha Árvore de Natal dois ou três brinquedos, não vinham embrulhados via-os logo, mas se os pais ou avós trocavam prendas entre si não reparava. Nem me passava pela cabeça que era pouco, eu não esperava mais... E, sim senhor, eram prendas do Pai Natal porque me tinha portado bem 👧
Mas isto era no pós-guerra, nada a ver com o que veio a seguir. Hoje em dia, com algumas (poucas) resistências, é a festa do consumismo desenfreado, chega a assustar. Uma criança de hoje até faz uma lista daquilo que quer, e escreve cartas ao Pai Natal com pedidos específicos.  Li há pouco que os pais portugueses são dos mais generosos da Europa embora, como sabemos, estejam longe de serem os que vivem melhor. Mas o receio de desiludir os seus filhotes, faz ultrapassar o bom-senso. E é este ponto que me faz pensar. 
Inicialmente, a figura do Pai Natal, embora sorridente, bonacheirão, generoso, era também justiceiro. A sua prenda era para o «bom menino», o «mau» não levava nada! É certo que os maus, mesmo na recta final faziam o seu esforço e a história acabava bem, mas...  Nada estava garantido à partida, o presente não era um direito só por se ser criança, tinha de ser merecido. Isto nada tem a ver com a actualidade, na maioria dos casos. Certas casas com crianças parecem sucursais da Toy´s R Us. No dia seguinte nem sabem nomear tudo o que receberam, falam de dois ou três de que gostaram mais. Já ouvi dizer «recebi isto e aquilo e mais umas tantas porcarias» (!!)
Quando escrevi acima que há um ponto que me faz pensar referia-me ao receio de tantos pais de desiludir os filhos. A desilusão, o desapontamento, é uma dor forte. É tristíssimo, e bem o sabemos. Não cumprir uma promessa a uma criança é um dos pecados mais graves de um educador, e aconselho a nunca prometer se não podem cumprir. Para mim essa receita é muito importante, e a criança deve ser realista, ter uma expectativa de acordo com o ambiente onde vive. E só ganha se aprender e conseguir valorizar aquilo que pode ter.
( O texto está grande mas quero contar uma história de Natal inglesa, com prendas, e dois irmãos com feitios opostos: um era um absoluto pessimista e o outro um absoluto optimista. Na noite de Natal o pai foi deixar no sapato de um um relógio de ouro, e no outro uma bosta de cavalo. Na manhã seguinte ouviu duas vozes na cozinha, uma a choramingar e outra a rir. Foi a correr e ficou parvo: o pessimista choramingava «Ai a minha vida, um relógio de ouro, ai que medo que o roubem, que aflição...»  e o outro ria «Eu recebi um poney!!! Viva! Fugiu, mas não me importa! Tive um poney!!!» Lição - o importante é como se vêem/sentem as coisas) 


Cereja

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Outra vez a educação

Volto sempre à vaca fria. A educação. Por educação não estou a pensar na escola, e sim no que se aprende desde bebé na intimidade da família, mais importante na minha opinião. Podemos sempre completar a escolaridade, há gente bem idosa que aprende a ler e escrever, mas o comportamento é moldado na infância.
Li há poucos dias um post da minha amiga Isabel Faria, no facebook. Relatava, no seu estilo pessoalíssimo, uma conversa que ouvira num café. O post,  não teve assim lá muitos comentários ou 'gostos', teve alguns é claro, mas merecia mais. Dizia ela: Quando ouço algumas conversas entre filhos adolescentes e pais de filhos adolescentes, ou pouco mais que isso, dou-me conta que sou mesmo muito careta. E que tive mesmo muita sorte. Acabei de fugir do café sem saber se me apetecia mais dar um grito na pirralha que dizia à mãe aos gritos "sei lá se vou jantar ou dormir a casa pá,, como e durmo onde quero..." Ou um tabefe à mãe que lhe pede em voz baixa e vacilante "Mas se puderes avisar...para eu poder dormir descansada...E tem cuidado com o multibanco...não percas esse também... ". São todos assim, ainda ouvi a mãe dizer à amiga...enquanto esta acenava com a cabeça que sim. Podia desmentir a senhora...mas, na volta, comigo ela ainda levantava a voz...
Eu não ouvi esta menina, mas tenho ouvido outras ou o relato de pais desconcertados sem saber como responder a atitudes destas. A verdade é que isto é uma semente que é plantada cedo. Recordo um menino num infantário, quase bebé, aí com uns 2 anos, que chamou a mãe que estava afastada a falar com alguém. Ela acorreu, apressada, e baixou-se para ouvir o que ele queria. Ele balança a mão e dá-lhe um estaladão que deixou uma marca na cara... A mãe, faz um sorriso amarelo, e diz-lhe «se era para isto escusavas de me ter chamado». Ouvi eu! 
Na história da teenager está tudo. Para começar o tom com que fala com a mãe. É um tom com que não deve falar com ninguém e/mas sobretudo com alguém mais velho. Quando eu era criança, entre raparigas usava-se o termo «coisinha». Chamávamos umas às outras, não sei como nasceu a mania. «Oh coisinha, vens ali comigo?» «Oh coisinha, fizeste o tpc de matemática?» Mas era ternurento, um modo carinhoso de falar. Certo dia, distraída, disse a uma avó «Oh coisinha, o que é o lanche?» e recebi um olhar que me pôs no lugar! «Coisinha?!!! Achas que tenho a tua idade?!». Fiquei logo em sentido. Numa família e deve haver hierarquias, por mais afecto que exista. 
E tem de haver autoridade. 
A inexistência de autoridade gera um caos. Não há limites para nada, como se tudo fosse permitido 'porque-sim' e ainda por cima estes jovens desatinados não se sentindo obrigados a nada, não tendo de prestar contas de coisa nenhuma a ninguém, decidem que têm todos os direitos. A menina desta história ouvida no café, declarava mal-criadamente que não tinha de dizer à mãe para onde ia, nem o que fazia, mas tinha acesso à conta da família com o cartão multibanco... Imagina-se que adulta vai ser? 
Comecei por falar no tom usado e na linguagem, porque me parece importante. Há regras que parecem em vias de extinção que não são de etiqueta são de simples cortesia. Cumprimentar com Bom Dia, dizer 'por favor', 'obrigado', 'com licença', mostra que nos importamos com os outros.
Simples.
Não se vive sozinho, vivemos em sociedade. 



Cereja

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Luxo

Ultimamente ando um tanto 'revivalista' só me dá para escrever coisas a relembrar outros tempos, e tenho-me refreado resultando assim que não escrevo nada 😖
Parvoíce. Vou portanto deixar 'em linha' um post já escrito há uns dias.
Então «é assim»: Na minha juventude havia pessoas bens vestidas e outras mal vestidas. O considerado bem vestido nem sempre se sentia cómodo, porque a roupa cómoda era a prática, digamos a-de-trazer-por-casa. Não se tinha 'inventado' o fato-de-treino como roupa descontraída, portanto a tal roupa de estar em casa era uma mais velha, ou de um material de pior qualidade. Como não havia 'pronto a vestir' as famílias de classe média, contratavam uma costureira que fazia os vestidos das senhoras e a roupa das crianças. E também aproveitava o que já estava velho e roto, muitas vezes até pondo remendos. Os pobres, que andavam mal vestidos com roupa de trabalho, até podiam usar roupa remendada, era natural.
Nos anos 80, creio eu, apareceram umas jeans manchadas e até rasgadas! Lembro-me de quando vi o meu primeiro pensamento ter sido «coitada, que azar, umas calças tão boas; mas vá lá, concertam-se e ela não está muito aflita». Não estava, é claro, tinha-as comprado assim!
Era moda! A rebeldia jovem assumia-se pelo visual, era-se 'contra' mas... artificialmente, o que faz toda a diferença. Não eram fatos velhos e por isso estragados, eram fatos novos, falsamente estragados e caros (!). E essa moda de falsos pobres, nunca mais parou. Afinal as rastas, também uma moda de penteado onde o cabelo parece desgrenhado e até sujo, leva tempo a fazer e a... manter limpo!
Ora o que me faz alguma impressão é o preço destes produtos artificialmente «estragados». Li a notícia de que um par de tenis custariam 1.500 euros. Exactamente, mil e quinhentos euros. É claro que não eram uns ténis quaisquer, estavam todos rotos. Parecia terem vindo de um caixote do lixo. Imagino que se os tivéssemos deixado num daqueles depósitos de roupas usadas para serem aproveitados para quem não tem que vestir, nem seriam aproveitados.
Mas foram concebidos por John Galliano. Valem 3 salários mínimos.
Ou o saco quase igual ao do Ikea a 2.000 euros, cerca de 4 salários mínimos.
..............
Parece escrito com azedume, e não é, palavra.
É espanto de viver neste mundo.
Onde as desigualdades apresentam estes aspectos absurdos, ter de se ser muito, muito rico, para usar peças que imitam os muito pobres. Este tipo de luxo faz-me impressão, o que querem...? 



Cereja

domingo, 23 de abril de 2017

Dias de hoje

Encontrei este vídeo mais ou menos por acaso.
Há muitos anos, quando estive envolvida num projecto ligado  à «Convenção sobre os Direitos da Criança» participei num 'Encontro' onde diversas ONGs apresentaram trabalhos interessantes e trouxe uma cassete de vídeo com várias canções muito criativas (um dia tenho de passar para dvd para poder voltar a ve-lo...) Uma das canções mais engraçadas era de uma criança que desejava tornar-se visível. Sabia bem que era invisível porque os pais não a viam, andavam nas suas ocupações como se ela não existisse e o filmezinho mostrava-a a chamar a atenção de várias formas, a saltar, agitar bandeiras, fazer o pino, mas sem conseguir coitada, era... transparente! Quando finalmente se conseguia materializar, era uma alegria e a história acabava muito bem.
Ora a menina deste vídeo é muito mais moderna, já é da época do smartphones. E tal como a outra criança queria que a vissem.
Só diz verdades!



A relação de qualquer um de nós com um telemóvel (mais ainda se for tipo smartphone...) é muito particular e algo de inimaginável antes de eles terem aparecido.  Atenção que estou a pensar numa pessoa «normal» nem falo num teledependente que é outra situação. 
De um modo geral, quando toca o telemóvel interrompemos de imediato que estamos a fazer para o atender, não me lembro de nada que suscite uma atenção tão imediata!
Se saímos de casa esquecendo-nos de o trazer ficamos preocupados, falta-nos algo, imagina-se situações de urgência complicadas.
Se ele avaria ou o perdemos é um desastre, que implica uma rápida substituição.
E, frequentemente, comparamos o nosso com o dos amigos de modo a valorizar o nosso - ou é melhor, mais perfeito e completo, ou foi mais barato o que pode ser um valor 😊
... resumindo é mesmo verdade que se tem uma relação afectiva com uma maquineta!
..........
Coisa que a menina do vídeo captou muito bem.
Um alerta excelente.

Cereja

domingo, 19 de março de 2017

O futuro já se vê


De vez em quando sinto-me muito esperta.
É agradável.
... a sensação dura até saber que há quem seja muito mais esperto, porque vai uns passos à minha frente 😆
Explico: invento coisas que, descubro depois,  já alguém tinha pensado em inventar. E olhem que é frequente!!!
Por exemplo, a última: 
Há umas semanas, numa conversa com o meu filho sobre telemóveis, concordamos sobre ser um uso que já se entranhou tão profundamente que quase nos esquecemos como era antes-do-telemóvel. Estávamos a ver o filme Zodiaco e pensávamos na complicação que era encontrar um telefone quando  os personagens estavam na rua...  Taditos. talvez até se tivessem evitado alguns crimes.
E, pensamento puxa pensamento, «daqui a uns anos» disse-lhe eu, a esperta visionária,  «vais ver que os miúdos se espantam que a gente hoje ainda andasse a ligar os aparelhos a tomadas de parede!» 
« - O quê?!» 
«-Vais ver! No meu tempo talvez não, mas daqui a uns tempos é tudo wireless
«-Tudo?! Uma coisa é um aspirador portátil ou um berbequim, que se carregam antes de usar, outra um candeeiro
«-Vais ver!!! Não é bem 'carregar-se', mas como se recebessem a energia directamente, sem fios...»
OK, estava a sonhar.
Sonhava com um mundo onde não estivesse sempre a tropeçar em fios. Onde pudesse levar um candeeiro para outro sítio sem ver se havia por ali uma tomada. Ficção científica? Ora! Também acender uma luz carregando num botão era impensável há 200 anos... E, afinal, estava a abrir portas abertas. Já está pensado. Actualmente trata-se ainda só de carregadores de telemóvel sem fios, mas preveem «acabar com a necessidade até de ligar os electrodomésticos, a uma tomada eléctrica, incluindo incluindo um frigorífico, um televisor, um aspirador, ou um candeeiro»....! Já tudo aquilo que imaginei está previsto!
A sério. Todos os aparelhos electrodomésticos podem vir a não precisar de fios! Até os candeeiros!
.......
Viva!
Vão acabar as cenas do pé preso no fio que atravessa a sala, e a queda espetacular da criatura distraída. E também os inestéticos fios ao longo dos móveis e paredes.
BOA!
Quero o futuro já! 
 Cereja

sábado, 4 de março de 2017

Coisas da moda :)



Ora vamos hoje falar de coisas menos sérias, que o Cerejas também é para isso!
Esta conversa é mais para leitoras, digamos conversa de mulheres, apesar de de uma forma geral não gostar lá muito de não falar para todos...
Pois bem, o tema é saltos altos!
Na actualidade é um tipo de calçado exclusivamente feminino, mesmo que tivesse começado a ser usado por Luis XIV (consta que ele era baixito coisa chata para um Rei-Sol) e depois no tempo de Luis XV divulgou-se entre elegantes da sua corte, homens e mulheres. E percebe-se que fosse calçado de gente da corte, que não faz nada, porque para quem trabalha a sério não é nada cómodo caminhar em equilíbrio...
Adiante. A moda tem imensa força, e aceitar o-que-toda-a-gente usa é quase irresistível excepto a quem adora ser do contra... portanto hoje em dia, creio que por todo o mundo, uma mulher sente-se mais elegante quando usa saltos altos, quase um símbolo de feminilidade como no filme De saltos altos do Almodover. E, portanto, para as mais sensíveis, sentir-se talvez menos feminina quando os não usa! (ó dilema! conforto ou elegância?!!!)
E, portanto, achei mesmo muita graça, quando encontrei esta solução - o ovo sapato de Colombo:


 


Fácil!
Olhando para aqui parece que por agora só deve funcionar em sapatos tipo sandália, não sei como se passa de «uma sabrina» para um verdadeiro «salto alto» uma vez que a alma não pode mudar. 
(Para quem não sabe a «alma de um sapato de salto» é um ferro interior que acompanha a curva do sapato. Sei isso a partir de um dia que levei uns sapatos a um sapateiro e ele me disse que ele tinha a alma partida! Pensei que era um sapateiro-poeta, até ele me mostrar o dito ferro, que de facto estava partido)


De qualquer modo, esta ideia de alterar o tipo de salto no mesmo par de sapatos é excelente. Vamos ver se tem sucesso...
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Cereja

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Negócios...


Como seria de esperar, nesta luta guerra das editoras, li agora a resposta da APEL à medida do governo sobre os manuais gratuitos.

Há dias tinha lido no mesmo Público um artigo confirmando o que parecia óbvio sobre o negócio dos manuais escolares e analisando as últimas decisões do governo sobre esta matéria dizia que «o negócio dos materiais escolares está a abanar». Parece que sim. Dizia lá que «isto significa três coisas a) no ano lectivo de 2017/18 vão ser vendidos menos livros b) as editoras têm boas razões para estar preocupadas e c) finalmente há uma medida oficial para tentar mudar as coisas e dar o primeiro passo no sentido da reutilização dos manuais uma coisa boa para a bolsa dos portugueses e para a sustentabilidade do planeta.»

A Saúde e a Educação são duas pedras básicas numa sociedade que se preocupa com os seus cidadãos mais desfavorecidos. E quem luta contra as desigualdades sociais, choca-se sempre ao perceber que duas necessidades desta importância para a sociedade podem ser também uns brutos negócios. Quanto à Saúde tem-se uma ideia do que são as máfias das empresas farmacêuticas, e no campo da Educação, embora com outra dimensão, temos os interesses das editoras. Naturalmente que quer farmacêuticas, quer editoras, tem interesses legítimos. Mas...
[Um parêntesis: embirro com a frase eu não sou ****, mas porque a seguir ao 'mas' aparece o que se considera a excepção ]
Eu não sou saudosista, ponto final. Cada coisa no seu tempo, vivemos o presente, sonhamos o futuro, recordamos o passado. E quando se recorda o passado podemos aprender algo. A minha geração cresceu num regime totalitário, e no ensino usava-se o «livro único», era o ensino censurado. Mau, claro está. Os professores só podiam ensinar aquilo que o governo queria, a vigilância era total. E, claro, o livro era para ler, e os cadernos para escrever. Aliás até havia uns cadernos de papel mais grosseiro chamado papel de sebenta para fazer rascunhos, porque tudo se poupava naquele tempo. E como os-livros-eram-para-ler iam passando de mão em mão para serem utilizados.
Depois de Abril a metodologia do ensino foi também revolucionada. E passou-se de há uns anos para cá a usar uma coisa hibrida entre o livro e o caderno. Trazia os textos que explicavam a matéria e no final uns exercícios para avaliar se tinha sido compreendida. Era apelativo, teve sucesso e até parecia que se poupava um caderno. Mas evidentemente que aquele manual só serve para uma vez. E as editoras, que passavam momentos difíceis durante o resto do ano, tinham ali uma galinha de ovos de ouro inesgotável: ganhavam em Setembro/Outubro de cada ano tanto quanto ganhariam no resto de todo o ano.
O complicado é que isto vai ser uma guerra com muitas batalhas, os professores devem estudar técnicas de ensino para além destas do manual/caderno, as editoras vão ter de repensar as suas estratégias, e os alunos e famílias aceitarem que reutilizar é bom. Quando leio que por lei estes manuais devem durar 6 anos, nos países nórdicos onde são grátis, a duração vai até 10 anos, vê-se que não é possível que sejam livros/cadernos como cá, porque no 2º ano já não servem...
Mas isto é mudança de mentalidades em muitas áreas, e não será fácil. Sobretudo as editoras não vão ceder sem luta, o que quereriam decerto é que tudo ficasse na mesma com o Estado a pagar os manuais... Ah pois!




Cereja

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Má educação

Quando eu era criança e interrompia quem estava a falar era repreendida com alguma severidade. Não se faz! diziam-me. Claro que as crianças que ainda não aprenderam as normas sociais o costumam fazer com frequência, e por isso mesmo são ensinadas. Mantendo ainda a recordação de infância, o que então se passava é que quando a conversa era entre nós, miúdos, se um interrompia o outro falava mais alto, e o primeiro falava ainda mais alto, até que se chegava a gritar uns com os outros. Então se estava algum adulto por perto vinha logo meter-nos na ordem ralhando.
Mas, na hierarquia familiar (coisa desaparecida hoje em dia, e mal segundo o meu ponto de vista) um pirralho não devia interromper quando um grande falava. Questão de educação.
Talvez por isso, por ter sido educada noutros tempos, me choca assistir muitas vezes na comunicação social não-escrita - na escrita creio ainda isso não ser possível - a debates ou até mesmo simples conversas onde cada um fala por cima do outro, aumentando o tom de voz, naquilo que no meu tempo seria uma grande falta de educação!!!
Mas há uma «moda» (??) em quem pratica jornalismo na actualidade que me irrita. Aliás são duas atitudes qual delas mais irritante: 
a) fazer uma pergunta (ou colocar uma questão como agora se tem de dizer...) com a resposta já implícita. Mas que raio....! Perguntarem «o que pensa de ****? Não é porque **** e mais*** levam a que ****?» faz com que o protagonismo recaia sobre quem faz a pergunta, que se calhar é o que querem... 
b) Interromper o que alguém diz desviando a conversa para fazer uma pergunta.
Ontem assisti a uma dessas cenas tristes na nossa tv. Estava uma pessoa a falar e ouve-se uma voz feminina a interromper para lhe perguntar uma coisa. Era feio, fosse quem fosse. Mas, ainda por cima, voltando à questão do respeito e hierarquia, quem estava a falar era o Primeiro Ministro...! E a badameca de uma jornalista senhora com um microfone sente-se autorizada a interromper para lhe perguntar qualquer coisa. Que, aliás se não tivesse sido malcriada ele iria referir já adiante.
É por estas e por outras que cada vez vejo menos tv. Prefiro ler notícias, por enquanto estas cenas são impossíveis na palavra escrita.




Cereja

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Atitudes

Já aqui tenho dito que por feitio e por educação, sou poupada e não gosto de deitar fóra o que ainda tenha préstimo. OK, não sou exactamente uma acumuladora compulsiva, longe disso, de vez em quando faço umas belas arrumações e a casa fica cheia de espaço!!! Mas deitar para o lixo um objecto em bom estado faz-me impressão.
Isso sempre se passou com roupas. Quando era criança 'herdava' vestidos de filhas de amigos dos meus pais que 'passavam a outros' os que deixavam de me servir. Era natural. Com uma «sociedade de (falsa) abundância» isso passou à história, e raramente há uns anos se trocavam roupas. Actualmente, com a brutalidade da situação económica, surgem que nem cogumelos uns recipientes para receber roupa usada que será reencaminhada para quem necessite.
Ora é necessário ter uma certa educação para entender o uso disto. Pelos vistos, nem é só cá que há quem use aquilo como uma espécie de caixote do lixo da sua roupa. Ofensivo e estúpido.

Esta história chegou aos jornais 
Ora neste caso como tem um vídeo engraçado talvez tenha alguma repercussão, mas não acredito muito. Pode 'abanar' quem já sentisse um pouco desconfortável mas não atinge quem deveria atingir, imagino eu. O desfile até tem graça, e eles riem-se. Mas enviar para campos de refugiados a precisar de roupa confortável, vestidos de toillete com lantejoulas, folhos, em organdi ou cetim é de doidos. Ou sapatos de salto alto, muito chics. Ou tops sofisticados. Ou, no caso oposto, roupas velhíssimas, rotas, a cair aos bocados... Este é um caso onde como lá dizem se deve «doar as roupas a pensa na necessidade do receptor» mas imagino que para muita gente nem se imagine bem o que sejam as necessidades de quem está naquela situação.
No caso das doações aqui em Portugal tenho ouvido que algumas coisas (desadequadas) podem ser vendidas em lojas de segunda mão e nesse caso o dinheiro poderá ajudar quem precisa. Será verdade?




 Cereja


terça-feira, 5 de julho de 2016

O elogio do papel

Não venho mais uma vez comparar os prós e os contras na guerra do virtual contra o papel. Já se disse tudo quase tudo. 

Circulou por aí um vídeo muito engraçado, mostrando um casal onde o marido passava o tempo criticando a mulher por não usar as 'novas tecnologias': ela escrevia uma lista de compras e ele dizia «Emmaaaaa!» mostrando a lista num tablette; ela deixava-lhe um post-it no frigorífico, e ele «Emmaaa!» e provava a vantagem do sms. Não recordo tudo mas a história acabava com ele sentado na sanita a chamá-la por ter acabado o papel higiénico e ela a enviar-lhe a foto do rolo pelo telemóvel...
Mas descobri há dias uma maravilhosa vantagem da palavra escrita em papel. É que ela resiste ao tempo afinal mais do que outras formas de registo!! (parentesis: claro que o material papel é frágil, estraga-se se não houver cuidado, óbvio)
A prova dos noves:
Há muitos, muitos anos, tive de me separar dos meus pais para vir para a Universidade. Viviam longe e o contacto só era por carta, telefonemas eram luxo - fazia-se um no Natal, com hora marcada... Mas escreviamos, por avião, pelo menos 2 cartas por semana. Contudo, como éramos muito modernos :))) e já na altura apreciávamos tecnologias, compramos eu e eles gravadores de fita e enviávamos fitas gravadas em vez de cartas normais. A sério! Quer eu quer os meus pais gostávamos imenso porque aquilo dava para uma hora de conversa e ouvia-se a voz para matar saudades. E assim fizemos durante anos.
Contudo a máquina de vez em quando avariava e, quando isso acontecia, lá voltávamos a escrever. Em «papel de carta de avião» muito fininho, e para render mais escrevíamos à máquina. Sempre longas cartas.
Agora um zapping para o Presente:
Há bastante tempo que não remexia nos meus «baús» e embora soubesse o que havia lá estava um pouco esquecida. E encontrei agora um grosso pacote, com as cartas que escrevi e a minha mãe guardou (sniff, eu não fiz o mesmo às deles) Está lá uma completa reportagem da nossa vida, quase daria um romance de época! E as fitas gravadas?? Pois é. Foram-se... A verdade é que hoje em dia não há esses gravadores-de-fita, mesmo que por milagre as pobres não estivessem completamente estragadas. A tecnologia evolui com uma rapidez estonteante, vieram as cassetes, os cds, eu sei lá o quê, tornando obsoleta a moda de ontem.
Mas o meu amigo papel cá está, a resistir a tudo.
VIVA O PAPEL!!!





hmmmmm....



Valente papel!!!

Cereja

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Em casa




Há uns dias agitou um pouco as águas a conclusão de um estudo que nos diz que as mulheres, em casa, trabalham mais e sobretudo em tarefas menos interessantes. Pois é!
Ninguém de admira decerto.
Os trabalhos domésticos são pacificamente aceites como uma função feminina. Socialmente, creio que por todo o mundo, a mulher é vista como um animal doméstico, salvo seja. Por todos. Incluindo as próprias mulheres. E quem, como eu, nasceu lá para meados do século passado esse sentimento está enraízado de um modo profundo, nem se pensa nisso.
Muito bem, os tempos mudam e mudam muito. A vida de um jovem casal de hoje seria inimaginável para os nossos avós pais. Até para os mais desempoeirados e progressistas desse tempo a actual sociedade seria estranhíssima. Mas é mesmo verdade que alguns homens já estão familiarizados com as tarefas domésticas, pelo menos algumas... Hoje muitos homens vão às compras, pôem e levantam a mesa, ajudam a fazer a cama, até sabem pôr a loiça e a roupa na máquina. Palmas! Beeem... não pode ser tudo perfeito e portanto o que é mais chato, aspirar e limpar o pó, passar a ferro, cozinhar por rotina, ainda não. Vai devagarinho.
Mas há uma área onde é visível uma grande e excelente mudança - as crianças! Ainda é «do meu tempo» a completa falta de jeito que o género masculino tinha para crianças. Se fossem bebés então mal lhe pegavam! Na minha infância não me recordo de ver um pai a empurrar um carrinho de bebé, e menos ainda levar um ao colo na rua!!! E aqui está uma volta de 180º, :) hoje vemos mais pais a empurrar cadeirinhas, ou com os filhos no 'canguru', do que mães. Talvez eu esteja a exagerar, mas é quase assim, num casal quase sempre quem leva a criança é o pai! Big step, um passo de gigante! E é aí que mais se nota a participação masculina em casa, no cuidado e educação das crianças.
A começar por um lado, este é um excelente lado para começar.
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E vamos ver se a seguir pegam no aspirador...


Que beleza :)

Cereja

quarta-feira, 8 de junho de 2016

«Era proibido sacudir o pó»

Acabei de ler, lê-se num instantinho, um livro chamado apenas Proibido

Livro engraçadíssimo. Porque o autor escreve com muita graça mas duplamente engraçado porque o tema presta-se ao humor. Bom, presta-se ao humor porque se passaram 50 anos e do ponto de vista de 2016 o que ali se narra dá mesmo vontade de rir hoje, na altura dava era raiva!...

No Proibido, António Costa Santos lembra 20 casos de proibição antes-do-25-de-Abril, situações inacreditáveis para um jovem de hoje. E útil porque se a licença de isqueiro é já muito falada por ser inacreditável, desconhecem-se outras como ser proibido dar beijos em público... (ai o pudor!) Achei engraçado porque me tinha esquecido completamente uma outra proibição, que ainda deve estar em vigor, e foi bastante famosa devido a caça à multa que então se fez.
Portanto venho relembrá-la: a dona de casa que passe um paninho pelos seus móveis para remover o pó que lá se acumulou não o pode sacudir à janela porque esse pozinho vai conspurcar a calçada. O polícia que a apanhe em flagrante, sobe a escada e pode multá-la em 8 escudos, o que nos anos 50 era dinheiro! 
Enquanto escrevo isto medito no estado actual do passeio por debaixo da minha janela, onde vejo pacotes de batata frita vazios, a esvoaçar ao pé de cocó de cão, uma embalagem de iogurte, papelinhos de facturas junto de cascas de fruta, enfim o rasto habitual de uma rua incívica, onde parece que um saco do lixo se rompeu e veio a espalhar o seu conteúdo ao longo do passeio... E imagino, com um sorriso amarelo, que uns gramas de pó não alteraria o panorama. 
Mas o que achei mais graça foi sobrepor a imagem do paninho agitado para soltar o tal pó e a actualidade onde não se admite essa operação de asseio doméstico sem um produto, de preferência com spay, para o-pano-agarrar-o-pó. Porque sem isso nada feito! Recordo ainda há pouco uma amiga referir que a senhora a quem ela paga para lhe fazer as limpezas se zangou - tinha acabado o ***** - um desses produtos - e sem isso não se podia limpar o pó! 
Sacudir o paninho??? Olha que ideia! Ainda apanho uma multa, olha lá!?!


Cereja

terça-feira, 7 de junho de 2016

Brincar tem modas



Jogos.
Brincar, um acto tão simples e tão universal, todas as crianças brincam e  como bem sabemos até os animais também brincam. Quem não sorriu  ao ver um gatinho a correr atrás de uma bola? É expontâneo, nem é necessário ensinar-se. Mas tem também bastante influência social já se sabe! As brincadeiras variam conforme os países, os continentes, os diversos lugares, e variam também ao longo da História. Sabemos e verificamos isso ao vivo - quem é mais velho recorda-se de brincadeiras que desapareceram e é olhado com surpresa pelos netos que não concebem como o avô não percebe como se joga no computador ou telemóvel... (Uma experiência: escrevam no 'google imagens' a palavra jogos. Muito bem. O que aparece? Ah pois... )
Contudo posso testemunhar que há ainda muitas crianças que se divertem imenso com os familiares jogos de tabuleiro, esses que fizeram a delícia dos avós, os jogos de sempre, os nossos jogos «Majora» que voltam agora. Não é saudosismo piegas, eu sou mesmo de opinião que este tipo de jogos terá bastante sucesso até entre miudagem. Afinal permitem uma interacção que os jogos de computador afastaram um pouco, uma vez que nos outros é suposto haver uma distância... Oxalá a empresa tenha sucesso!






Cereja

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Os cafés


Inesperadamente encontrei no youtube uma canção.

Não conhecia a canção apesar de conhecer a cantora... desde «os tempos do Monte Carlo»!






Fiquei afogada em saudades. O café Monte Carlo foi uma referência para a minha geração, o ponto de encontro para a malta universitária, sobretudo a mais virada à literatura e às artes. E ainda por cima para mim era quase inevitável por ser pertíssimo da minha casa.
Nesses anos, os cafés eram a nossa segunda casa.
Conheci uma pessoa, já de outra geração, que me contou ter uma vez mandado fazer cartões de visita, com os dizeres «Fulano de tal, Café Chiado». Era a sua morada! Porque estávamos no café horas e horas. Eu própria, certa vez, sentada ao fundo da Brasileira com uma chávena de café, passei pela vergonha de ouvir dizer educadamente «Não deseja mais nada?» e vim à tona olhando o livro, caderno e lápis e enchiam o tampo pequeno da mesa, sem perceber a pergunta do empregado. Ele olhou para o relógio da parede e vi que estava há duas horas e meia sentada em frente de uma bica... Ups!
Os cafés mais frequentados, na minha geração, já não eram os da Baixa mas os que eram perto dos locais onde se estudava. O Tatu, o Nova Iorque, o Vavá, na zona da Cidade Universitária. O Cister para a malta de Ciências. Ou os perto-de-casa como o Imperial ('Confeitaria' ?!...) e também o Café do Cinema Império, por exemplo. A relação dos clientes com o Café e do Café com os clientes era muitas vezes próxima e pessoal. Em frente do Monte Carlo havia um outro café muito mais antigo, o Café Paulistana que o meu avô frequentava. Como era um republicano conhecido, consideravam que a sua presença dava prestígio à casa e o primeiro café era sempre oferecido!
Eu tinha a sorte do «dois-em-um» no caso do Monte Carlo: era o mais perto da minha casa e onde a malta amiga e com mais afinidades se juntava. Foram tarde e noites inesquecíveis as que lá vivi.

As saudades que esta canção veio levantar...


Cereja